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Guerra na Ucrânia

Ao 100.º dia, o gambito de Putin falhou

03 jun, 2022 - 06:51 • Fábio Monteiro

As peças no grande tabuleiro de xadrez que a Ucrânia se transformou, desde 24 de fevereiro, ainda se movimentam. Putin arriscou muito, mais do que antecipara. Era suposto ser uma blitzkrieg de dois dias. Mas Zelenskiy e os militares ucranianos, com o apoio dos estados-membro da União Europeia e dos EUA, revelaram-se opositores de monta. Ao centésimo dia de guerra, deixou de ser claro quem irá desferir o xeque-mate. Quando e se o houver.

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O problema de uma blitzkrieg – um guerra relâmpago – é quando não resulta. Se funciona, o invasor enfrenta pouca resistência e as defesas do adversário, apanhadas de surpresa, desmoronam-se rapidamente. Mas quando esse tipo de estratégia não surte efeito, as intenções do invasor ficam à mostra de todos; negá-las é apenas reforçar o bluff.

No xadrez, dá-se um fenómeno análogo. Há jogadas um tanto mais arriscadas para abrir um jogo, mas que prometem um retorno rápido. O agora famoso Gambito da Rainha (devido à série da Netflix), por exemplo, consiste em sacrificar o peão que protege a Dama para ganhar, logo no início da partida, o domínio do centro do tabuleiro. O problema é quando o adversário não cai na ratoeira. Ou consegue escapulir-se dela.

A 24 de fevereiro de 2022, Vladimir Putin abriu a invasão da Ucrânia com a jogada mais arriscada da sua carreira política. Porventura, sem se aperceber. Do outro lado do tabuleiro, tinha um novato do xadrez político; até 2019, Zelenskiy, tinha experiência apenas como comediante e ator. Três anos antes, a Rússia conquistara a Crimeia sem grande resistência por parte das forças militares ucranianas; por via da propaganda, conseguira também fomentar movimentos separatistas nas regiões de Lugansk e Donetsk.

O início da guerra. As imagens das primeiras horas de invasão russa à Ucrânia
O início da guerra. As imagens das primeiras horas de invasão russa à Ucrânia

Putin esperava, por isso, que a conquista e anexação da Ucrânia não demorasse mais de dois dias; acreditava que iria ser acolhido como reunificador da “grande pátria” russófila. Ninguém imaginava que os ucranianos oferecessem tanta luta – nem os Estados Unidos da América, que nos primeiros dias do conflito ainda se ofereceram para tirar Zelenskiy de Kiev. “Preciso de munições, não de boleia”, disse então o presidente ucraniano.

Cem dias depois do início da guerra, contudo, as peças – com muitos avanços e recuos - ainda estão em movimento. Segundo os Serviços Secretos Ucranianos, o conflito pode durar, pelo menos, até ao final do ano; representantes da NATO colocam o prazo no plural: anos.

A Rússia já dominou grande parte do tabuleiro, mas a Ucrânia – em parte, impulsionada pelas sanções internacionais e pelo o apoio militar dos EUA e da União Europeia, e também graças à desorganização das forças militares russas – recuperou terreno. Tanto que a possibilidade de ganhar o conflito é já falada abertamente. Mas Zelenskiy é prudente.

O presidente ucraniano já disse ser “óbvio para todos no mundo que a Rússia sofreu uma derrota estratégica”. Porém, afirmou que a fase mais complexa e “sangrenta” da guerra pode ainda estar prestes a começar. Incapaz de dominar todo o território ucraniano, Putin parece ter deixado de jogar para o xeque-mate, mas antes para prolongar o conflito – e assim não pôr em causa a sua liderança. Ao centésimo dia de guerra, perdeu o domínio da partida que pensava ganhar à primeira jogada.

Sandra Pereira. "A guerra na Ucrânia já existia desde 2014".
Sandra Pereira. "A guerra na Ucrânia já existia desde 2014".

O “garfo” das negociações

O Gambito de Putin, a aposta numa blitzkrieg, quase funcionou. Após a invasão, em poucos dias, as forças militares russas, que durante meses se haviam arregimentado nas zonas fronteiriças entre a Rússia e Ucrânia, chegaram muito perto de Kiev. Alegadamente, houve várias tentativas de assassinar o presidente ucraniano – em teoria, o xeque-mate mais rápido possível. (Na Segunda Guerra Mundial, a Alemanha conquistou a Bélgica, Holanda e parte significativa de França em cerca de seis semanas.)

A capital ucraniana e muitas localidades vizinhas foram bombardeadas. O maior avião do mundo, o Antonov An-225 Mriya, estacionado do aeroporto de Gostomel foi destruído. A energia da central nuclear de Chernobyl foi cortada. A maternidade de Mariupol foi atacada. Um aeródromo perto da fronteira com a Polónia foi destruído.

Ao aplicar a chamada técnica do “garfo” – usar uma peça para atacar duas ou mais peças do adversário ao mesmo tempo - o Presidente russo deu provas de ser um jogador experiente. Tentou encurralar Zelenskiy em Kiev, enquanto fomentava encontros para negociações de paz entre representantes dos dois governos.

A Rússia esteve na mó de cima. Moscovo chegou a desenhar um “plano em 15 pontos para a paz”, uma forma de rendição condicionada. Para isso acontecer a Ucrânia tinha “apenas” de declarar a sua neutralidade, desistir de uma futura adesão à NATO e recusar bases militares de países da Aliança Atlântica. Se estas condições fossem atendidas, Putin aceitaria um encontro tête-à-tête com Zelenskiy.

Publicamente, o líder ucraniano ainda chegou a abrir mão da adesão à NATO, dado que a Aliança “não estava pronta para aceitar a Ucrânia”. Mas foi a única cedência. Afinal, o que que os representantes russos diziam à mesa de negociações não correspondia ao que as operações militares estavam a levar a cabo, ou aos ataques recorrentes aos corredores humanitários que prometiam abrir. Os russos – como o ministro dos Negócios Estrangeiros Sergey Lavrov à cabeça – estavam a fazer bluff.

A 18 março, num evento em que se comemorava o oitavo aniversário da anexação da Crimeia, Putin discursou num comício num estado de futebol lotado, em Moscovo, e disse que o conflito na Ucrânia era uma luta contra o “genocídio” da comunidade russófila das regiões do Donetsk e de Lugansk. "Sabemos o que precisamos fazer, como fazê-lo e a que custo. E cumpriremos por completo todos os nossos planos", prometeu.

A disposição das peças no tabuleiro, contudo, já não estava a favor de Putin; as tropas russas estavam a encontrar mais resistência do que o esperado, viam-se obrigadas a recuar no terreno, abandonar as localidades nos arredores de Kiev.

Ao 40.º dia de conflito, em Bucha, foram descobertos centenas de civis mortos e valas comuns – atos que ainda estão a ser investigados e constituem potenciais crimes de guerra. As negociações de paz terminaram.

Em defesa de Zelenskiy

Face às atrocidades ocorridas na Ucrânia, mas sem quererem entrar diretamente na guerra, os EUA e muitos dos países da União Europeia deram, desde o início do conflito, apoio – financeiro e de equipamento militar – a Zelenskiy. Colocaram-se bem perto dos ouvidos do presidente ucraniano e começaram a sussurrar-lhe informações, potenciais jogadas. O confronto desigual à partida tornou-se assim algo mais equilibrado.

Fora do tabuleiro, Putin (e a Rússia) viu-se asfixiado por sanções – que atingiram desde as próprias filhas aos oligarcas associados com o regime. Karl Nehammer, o chanceler austríaco, foi a Moscovo para confrontar diretamente o Presidente tusso. A conversa foi "muito direta, aberta e dura".

No entretanto, Zelenskiy deixou de ser obrigado a jogar à defesa. Por momentos, acalentou a ideia de se criar uma zona de exclusão aérea sobre a Ucrânia. Parafraseando o famoso “I have a dream” (“Eu tenho um sonho”) de Martin Luther King, Zelenskiy disse , perante o Congresso dos EUA: “Eu tenho uma necessidade, a necessidade de proteger o nosso céu. Preciso da vossa decisão, da vossa ajuda.” Nem a UE nem o EUA fizeram a vontade ao presidente ucraniano. Mas a dinâmica do tabuleiro na Ucrânia era-lhe já favorável.

Kiev conseguiu afundar o cruzador de mísseis Moskva, o principal navio de guerra da frota russa no Mar Negro. As tropas russas – desorganizadas, mal equipadas - viram-se obrigadas a recuar e reagruparem-se nas zonas de fronteira; a região do Donbass passou a ser a nova prioridade, começou o cerco de Mariupol.

De visita à Ucrânia, Úrsula Von der Leyen reagiu ao massacre de Bucha, quando visitou a localidade, dizendo: “Vimos aqui a humanidade a ser despedaçada e o lado mais bárbaro do exército de Putin.” (Dias depois, o Presidente russo condecorou os soldados suspeitos por ter levado a cabo aqueles assassinatos.) Num lapso quasi-freudiano Joe Biden disse também: “Por amor de Deus, este homem [Putin] não pode continuar no poder!”

O futuro de Putin na liderança da Rússia passou a estar ligado ao desenlace da partida de xadrez que começou. Nem as ameaças veladas que fez de usar armamento nuclear deram resultado.
Guerra voltou à Europa. Um mês de morte, destruição e resistência na Ucrânia
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A guerra ganha pela Ucrânia?

Ao 75.º dia de guerra, o Presidente russo começou a gerir expectativas, redefiniu objetivos. Isso ficou patente no discurso de 9 de maio. As palavras de Putin, na data em que se comemoravam os 77 anos da capitulação nazi, prometiam sinalizar como e em que medida se ia passar o contra-ataque russo na Ucrânia. Fonte do Ministério da Defesa russo disse à agência “Reuters” que vinha aí um “aviso apocalíptico”.

Perante milhares de militares, todavia, Putin foi mais contido do que se antecipara. Em vez de atirar à Ucrânia, atirou à NATO. Insistindo na tese da desnazificação do país vizinho, disse aos presentes que estava a fazer “de tudo para que a guerra não volte”. De Kiev, Zelenskiy ripostou: “Muito em breve vai haver dois Dias da Vitória na Ucrânia." E assegurou que não iria dar "nem um pedaço de terra" à Rússia.

Tudo indica que, ter começado um conflito para afastar a Ucrânia da NATO – uma das teses defendidas - trouxe consequências inesperadas para Putin. Primeiro, unificou a Aliança Atlântica. Segundo, fê-la expandir. Tanto a Finlândia como a Suécia, países nórdicos cujas populações não eram favoráveis à NATO até à invasão da Ucrânia, em poucas semanas, mudaram de opinião. Ambos já formalizaram pedidos de adesão.

No terreno, as forças russas – que já perderam quase 30.000 soldados - deixaram de tentar tomar a capital da Ucrânia. Passaram antes a sedimentar o controlo nas regiões fronteiriças do leste; em alguns casos, aplicando a estratégia de “terra queimada”, à semelhança do que ocorreu na Geórgia em 2008: se não podem conquistar, destroem, reduzem a cinzas. Putin viu-se ainda obrigado a alargar a idade do recrutamento militar para até aos 65 anos, de forma a alistar mais soldados para combater.

Enquanto isso, a Ucrânia começou com mão dura o julgamento dos militares russos detidos. Vadim Shishimarin, com 21 anos, foi condenado a prisão perpétua pela morte de um homem de 62 anos na cidade de Sumy, nos arredores de Kiev, durante os primeiros dias da ocupação russa. O tom do conflito mudou.

A 25 de maio, Zelenskiy afirmou que o fim da guerra depende da "vontade de diferentes partes: da vontade de um Ocidente unido em termos de armamento e solidez financeira da Ucrânia”, mas também da vontade da Rússia. "Em qualquer caso, haverá um processo de paz e haverá uma mesa de negociações, e haverá definitivamente paz", disse, deixando uma farpa diretamente para Putin: a “questão é com quem”, com que Presidente russo, irão ser as “negociações”.

Esta sexta-feira, 3 de junho, as peças no tabuleiro continuam em movimento, a partida prossegue. E pode não ter fim à vista. No xadrez, o empate é uma possibilidade. Acontece que para Putin esse resultado – conquistar apenas regiões de Lugansk e Donetsk – será algo muito próximo de uma derrota. O mesmo para o presidente ucraniano – caso não consiga garantir a soberania em todo o território nacional.

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