"Casados à Primeira Vista". "Não é possível fazer 'matching' de pessoas, é uma aldrabice"

16 nov, 2018 - 07:10 • Inês Rocha

Neuropsicólogo apresentou-se indevidamente como especialista no programa da SIC, durante o ano de estágio. A Ordem está a analisar e condena intervenção psicológica em televisão. A produtora defende-se: "Aconselhamento não é psicológico, os especialistas dão apenas a sua opinião". Psiquiatra fala em "aldrabice".
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A Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) está a analisar a participação de dois psicólogos, Alexandre Machado e Fernando Mesquita, no programa “Casados à Primeira Vista”, que estreou na SIC no dia 21 de outubro, e lembra “a impossibilidade de ser levada a cabo qualquer tipo de intervenção psicológica no espaço mediático".

A versão portuguesa do programa, um formato criado na Dinamarca e depois importado por vários outros países, como Austrália, Reino Unido, Espanha, França, entre outros, é produzido pela Shine Iberia Portugal e assume-se como uma “experiência de televisão completamente inovadora”.

O objetivo é ajudar pessoas solteiras a encontrar o “par ideal”, com a ajuda de “especialistas do mundo do ‘coaching’ e das ciências psicológicas e neurociências”.

Confiando nestes “especialistas”, os concorrentes aceitam casar com um estranho escolhido como “ideal” para eles. Depois, durante aproximadamente dois meses, os recém-casados vivem juntos. No final desta experiência, cada casal tem uma decisão a tomar: ficar casado ou pedir o divórcio.

O programa conta com dois psicólogos e dois “coaches” sem formação em psicologia no seu painel de especialistas, que prometem, através de uma análise de comportamento e personalidade dos concorrentes, encontrar por eles uma "cara metade" compatível.

A Renascença pediu uma análise a "Casados à Primeira Vista" a especialistas em terapia familiar, neuropsicologia e "coach" psicológico, que não poupam críticas ao programa.

“Não é possível fazer “matching” de pessoas. Isso não existe, é uma aldrabice. As pessoas conhecem-se, vão-se conhecendo, vão-se sentido uma à outra e não casam sem ter uma experiência disso, como é evidente”, diz o psiquiatra José Gameiro à Renascença.

Samuel Antunes, psicólogo especialista em “coaching” e presidente da Mesa da Assembleia da Ordem dos Psicólogos, lembra-se doutra palavra: “absurdo”. Manuel Domingos coordenador da Unidade de Neuropsicologia do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, diz que juntar pessoas que não se conhecem é uma “bizarria”.

"Psicologia não faz 'match' entre as pessoas"

Fonte oficial da Ordem dos Psicólogos Portugueses revelou à Renascença que, antes de o programa ir para o ar, a produtora Shine Iberia solicitou um parecer à Comissão de Ética (CE) da OPP, sublinhando que o programa contava com a presença de psicólogos e de outros profissionais da área.

A direção da Ordem decidiu reencaminhar a situação para análise do órgão competente dentro do organismo, ou seja, o Conselho Jurisdicional, constituído por cinco psicólogos (não remunerados) e um jurista. No entanto, à data do fecho desta publicação, este órgão ainda não se tinha pronunciado – entretanto, o programa já emitiu quatro episódios.

Uma vez que os prazos do Conselho Jurisdicional não coincidem com os prazos das produtoras, a Comissão de Ética do OPP enviou à Shine Iberia dois pareceres emitidos anteriormente, que respondem “genericamente” às questões relacionadas com a exposição pública de psicólogos, recordando as regras do Código Deontológico da Ordem dos Psicólogos Portugueses.

Os pareceres detalham a posição da OPP sobre a “alegada prática da psicologia nos media” e sobre “declarações públicas” de psicólogos.

“Os psicólogos, quando solicitados a comentar casos particulares, pronunciam-se sobre os problemas psicológicos em questão mas não sobre os casos particulares”, lembrou a direção da Comissão de Ética, num e-mail enviado à produtora do programa.

Os psicólogos destacaram também à produtora “a impossibilidade de ser levado a cabo qualquer tipo de intervenção psicológica no espaço mediático, independentemente de qualquer consentimento dos participantes” e afirmaram que “fica pouco claro o que se espera dos psicólogos participantes”.

“Às vezes o problema destas coisas é que passam ideias erradas daquilo que é a psicologia”, explica à Renascença Miguel Ricou, presidente da Comissão de Ética da Ordem dos Psicólogos.

“Esta para nós é a grande dificuldade do ponto de vista ético. Como se, do ponto de vista da psicologia, nós pudéssemos fazer 'match' entre as pessoas. Até podíamos dizer que as pessoas têm características parecidas nisto ou naquilo. Mas isso nada tem a ver com aquilo que é uma relação afetiva a dois, como é um casamento”, sublinha o dirigente. “Juntar a psicologia a isto é uma coisa estranha para nós."

No entanto, Miguel Ricou lembra que o Conselho de Ética da OPP não faz avaliações de casos particulares, por não ser esse o seu papel. “Nós referimo-nos às coisas do ponto de vista profissional. Profissionalmente, estar a fazer uma espécie de intervenção ou avaliação psicológica ao vivo para promover este tipo de resultados faz sentido? Não. Não faz sentido para nós. A partir daí, seguramente isto não está a fazer nenhum favor à psicologia nem está a trazer nada de positivo à psicologia.”

Produtora diz que não há aconselhamento psicológico. "Especialistas dão apenas a sua opinião"

A Renascença questionou a Shine Iberia, produtora do “Casados à Primeira Vista”, sobre ter avançado com o programa após receber este parecer da Ordem dos Psicólogos. Tiago Lopes Lino, psicólogo responsável, na produção, por acompanhar os concorrentes fora do programa, afirma que os especialistas “não estão a fazer intervenção psicológica”, que estão apenas a dar a sua “opinião” sobre os casos.

“Não podemos considerar que qualquer conversa seja intervenção psicológica só porque se trata de um psicólogo, os psicólogos são pessoas”, defende. “O que acontece ali é que há um aconselhamento que nem é psicológico, é um aconselhamento com especialistas. Uns são psicólogos, outros são coaches”, diz Tiago Lopes Lino. “Embora com formação em psicologia e coaching, eles dão apenas a sua opinião.”

O presidente do Conselho de Ética da OPP, Miguel Ricou, lembra que “um psicólogo, quando se apresenta como tal, representa toda uma classe", o que desconstrói o argumento de Tiago Lopes Lino.

"Tudo o que ele faz contribui para construir a imagem dos psicólogos e da intervenção psicológica”, explica Ricou. “Se, de repente, está a fazer alguma coisa que possa ser contrária à boa imagem da psicologia, que possa lançar confusão sobre o que é a psicologia ou o que não é, evidentemente que me preocupa.”

No e-mail enviado à Shine Iberia, a Comissão de Ética questionou ainda os objetivos da presença de “outros terapeutas, além de psicólogos”, no programa, “partindo do princípio de que não existem muitas profissões reconhecidas a trabalhar neste contexto", o que "poderá criar nos telespectadores uma representação simplista, ou mesmo distorcida, sobre o que é a intervenção do psicólogo, com prejuízo não só para a imagem da profissão mas sobretudo para os seus potenciais beneficiários”.

Em declarações à Renascença, a produtora diz ter conhecimento de que a Ordem dos Psicólogos defende a exclusividade da prática do “coaching” a psicólogos, mas não considera “que seja da competência de uma Ordem profissional regular uma atividade que não esteja no âmbito da sua profissão, como é o caso dos ‘coaches’”.

A Shine Iberia lembra ainda que os “coaches”, no programa, não atuam sozinhos. “Estamos a falar de uma equipa. As coisas são faladas entre os quatro. Os psicólogos ajudam os "coaches" e vice-versa. Eles não estão sozinhos”, diz o psicólogo Tiago Lopes Lino.

Neuropsicólogo presente no programa é Psicólogo Júnior (ou seja, estagiário)

O painel de especialistas que participa no programa é constituído por dois “coaches”, Eduardo Torgal e Cris Carvalho, por um psicólogo especialista em Sexologia clínica, Fernando Mesquita, e por Alexandre Machado, que se apresenta como Neuropsicólogo Clínico, “especialista na área da avaliação e diagnóstico”.

No entanto, segundo a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), Alexandre Machado está inscrito na ordem como Psicólogo Júnior (isto é, psicólogo estagiário), pelo que não pode apresentar-se com nenhum outro título.

“Um Psicólogo Júnior tem de se apresentar como Psicólogo Júnior, isso é claríssimo”, sublinha à Renascença o presidente da Comissão de Ética da Ordem dos Psicólogos. “Tem de ser claro para toda a gente que é Psicólogo Júnior, que está em supervisão.”

Para o dirigente da OPP, esta é uma “questão objetiva” sem margem para discussão. “Não posso dizer que sou médico, posso dizer aquilo que sou.” Assim, Alexandre Machado também não pode apresentar-se como Neuropsicólogo, ou estará a ir contra os estatutos da Ordem.

A Renascença contactou Alexandre Machado, que afirma que está a terminar o estágio na Ordem dos Psicólogos Portugueses – falta-lhe apenas o curso de formação obrigatório. O psicólogo diz apresentar-se como Neuropsicólogo por estar registado na British Psychological Society (BPS), uma vez que exerceu Neuropsicologia em Inglaterra após terminar o mestrado na Universidade Católica.

Contudo, de acordo com os estatutos da OPP, um psicólogo que tenha exercido no estrangeiro deve pedir equivalências ou inscrever-se como estagiário na Ordem portuguesa, para regularizar a sua prática em Portugal.

Ao ser Psicólogo Júnior na OPP, o facto de o profissional estar inscrito numa ordem estrangeira não retira a obrigatoriedade de se apresentar como tal em Portugal.

Miguel Ricou diz não existir uma penalização específica para alguém que se apresente de forma errada e revela que, durante o tempo em que foi presidente do Conselho Jurisdicional da Ordem, nunca lidou com casos do género.

“Cabe ao Conselho Jurisdicional avaliar a gravidade, o contexto, a situação para saber qual será a pena. É uma questão formal, não me posso substituir a eles”, explica.

Após as averiguações da Renascença, a Ordem confrontou Alexandre Machado com o facto de este se estar a apresentar de forma errada. Assim, o psicólogo pediu à produção para alterar a forma como o apresenta.

No quarto episódio, Alexandre Machado já é apresentado como “Neuropsicologia Msc / Analista de Comportamento”, ou seja, aparece apenas como tendo um mestrado em Neuropsicologia.

"Casados à Primeira Vista" é "uma vigarice", defende psiquiatra

Uma “vigarice”. Esta é a primeira palavra que vem à cabeça do psiquiatra José Gameiro, fundador da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar, para descrever o programa “Casados à Primeira Vista”.

José Gameiro lamenta ter de usar uma palavra tão forte para descrever o programa de uma estação que preza e na qual foi múltiplas vezes colaborador. Mas é apenas assim que consegue descrever aquilo que vê – uma “vigarice”, que não pode deixar de criticar.

Especialista em terapia familiar há mais de 40 anos, o psiquiatra garante: “Não é possível fazer “matching” de pessoas. Isso não existe, é uma aldrabice. As pessoas conhecem-se, vão-se conhecendo, vão-se sentido uma à outra e não casam sem ter uma experiência disso, como é evidente”, defende o especialista à Renascença.

“Não há pessoas ideais para pessoas ideais, isso não existe, é mentira”, afirma. “Podemos dar-nos muito bem com pessoas que são completamente diferentes de nós. A diferença não é um problema na relação conjugal. Aquilo que é um problema é a tentativa de mudar o outro - há sempre uma certa tentativa - mas a variável mais importante no prognóstico de uma relação conjugal é a crítica. Ao fim de um tempo, ninguém aguenta a crítica sistemática. Isto é a variável mais importante.”

Além de a “prática científica” feita no programa ser, para o psiquiatra, “completamente inaceitável”, José Gameiro preocupa-se também com a forma como as emoções dos concorrentes são exploradas.

“Há ali pessoas que podem estar numa ‘desportiva’, que encaram aquilo como uma brincadeira, mas outras estão de facto sozinhas, precisam de alguém. Isso é jogar com as emoções das pessoas”, considera o médico.

“A maior parte daquilo vai dar disparate, como é evidente. As pessoas vão sofrer”, diz José Gameiro. “Usam pessoas para ter audiências e isso é inaceitável. Há limites. É uma coisa humanamente muito irresponsável.”

O médico lembra também as crianças envolvidas. “Há pessoas ali que estão muito sozinhas. Já foram casadas e algumas têm filhos. É uma coisa muito traumática. Tem de haver uma certa adaptação da criança, não é de repente dizer ‘agora está aqui um senhor ou uma senhora e vamos viver juntos’. Não é assim”, considera o terapeuta familiar.

O psiquiatra critica também os “especialistas” envolvidos no programa. “Eu acho que nenhum técnico devia participar naquilo.” E diz mesmo ter escrito uma carta ao bastonário da Ordem dos Psicólogos, afirmando que o que se passa no programa é “eticamente reprovável” e questionando se a Ordem vai tomar uma posição em “defesa dos próprios psicólogos”.

O que é a Neuropsicologia? E o que é que ela tem a ver com “matching” de pessoas?

A Neuropsicologia clínica, uma especialidade da psicologia que estuda as correlações entre a dinâmica estrutural do encéfalo (o centro do sistema nervoso) e os diversos aspetos da atividade mental, existe em Portugal há 33 anos. Assim explica Manuel Domingos, coordenador da Unidade de Neuropsicologia do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa e um dos primeiros especialistas da área em Portugal.

Esta área da Psicologia ajuda a compreender como lesões, malformações, alterações genéticas ou qualquer dano que afete o sistema nervoso alteram diversas áreas do comportamento e da cognição humana. É útil na reabilitação de alterações cognitivas, como as da memória ou atenção, e pode também ajudar, por exemplo, a perfilar suspeitos na área criminal, para avaliar a imputabilidade ou inimputabilidade do arguido.

Questionado sobre o uso da Neuropsicologia no programa “Casados à Primeira Vista”, para fazer perfis de pessoas e depois juntá-las com alguém “compatível”, Manuel Domingos diz ter “algumas dúvidas” que isso seja determinante para poder ser um argumento para unir seja quem for.

“Acho que nada daquilo que se passa naquele programa vale para juntar seja quem for. As pessoas têm de ser conhecer. Acredito na atração à primeira vista, mas ali nem sequer há primeira vista. As pessoas não se conhecem de lado nenhum. Isso para mim é uma bizarria”, afirma em entrevista à Renascença.

No primeiro episódio do programa, Alexandre Machado diz que vai fazer uma “monitorização psicofisiológica” dos concorrentes durante um inquérito. “Vamos recolher não só a resposta que o participante vai dar como a resposta que o cérebro dele nos vai dar”, diz o Psicólogo Júnior, que se apresenta como Neuropsicólogo, no primeiro episódio.

Colocando elétrodos nas cabeças dos concorrentes durante o inquérito, Alexandre Machado diz conseguir fazer uma avaliação “dos perfis de temperamento ou personalidade, dos padrões de comportamento e de como podem reagir durante todo este processo”.

Em entrevista à Renascença, o psicólogo contradiz a própria afirmação que faz no programa e diz que não é possível fazer perfis de personalidade. “É um erro. Às vezes as pessoas tentam definir perfis quase como se fosse astrologia. Mas não se pode fazer dessa forma.”

Alexandre Machado explica que o que consegue ver é o “temperamento da pessoa”, com base na Teoria da Personalidade de Eysenck, que avalia três dimensões: “extroversão, a emotividade e o espírito de aventura”. A partir daí, adianta, "definimos esses padrões e vamos fazer uma avaliação do padrão de comportamento, consoante testes e exames que temos”.

Com estes testes, "tentamos definir a capacidade de decisão, o nível de desempenho, de exigência, a tolerância à frustração, a assertividade, ambição, por aí fora". "Depois vamos definir uma coisa que é o potencial de comportamento, a forma como é expectável que a pessoa se comporte naquelas oito semanas. E aí vem a manipulação, os padrões de responsabilidade, a perceção do risco."



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Manuel Domingos explica que, “da parte da pessoa que usa a técnica, há crença de que algumas características psicofisiológicas ou neuro-psicofisiológicas poderão ajudar a definir um perfil”.

“Poderá haver variações dessas características, como o batimento cardíaco, a condutância galvânica da pele, o índice respiratório, as ondas cerebrais e a tensão arterial, quando a pessoa é submetida a um inquérito”.

O especialista diz que há ali um paralelismo com um detetor de mentiras, apesar de não o ser na realidade. “Quem acredita que o método é útil pode dizer: comparando isto com uma população já estudada e padronizada, vemos que estas variações são compatíveis com mentira, com sentimento distorcido, com ideação paranoide”, explica.

No entanto, Manuel Domingos diz não acreditar no uso daquela técnica para o propósito do programa. “Se me perguntar a mim se usaria coisas dessas... não! Pessoalmente não, se calhar por impreparação ou ignorância, sei lá...”

Já Miguel Ricou, presidente da Comissão de Ética da Ordem dos Psicólogos, é mais perentório: “Fazer perfis e juntar pessoas não é uma prática psicológica - claro que não. A psicologia não tem nada a ver com isso.”

“A psicologia pode permitir às pessoas conhecerem-se melhor a si próprias. É para isto que serve uma avaliação psicológica, para nos ajudar a perceber melhor o que poderá ser o funcionamento da pessoa, para ajudar a compreender os motivos desse funcionamento”, afirma.

“Não é evidentemente criar um 'match', porque as pessoas não são uma coisa concreta, nós somos fluidos, não somos sempre iguais, não estamos todos os dias da mesma maneira, não reagimos da mesma forma às mesmas questões.”

O neuropsicólogo Manuel Domingos acredita que os profissionais envolvidos não pretendem enganar, mas considera que o programa falha ao não informar devidamente as pessoas. “Tudo devia ser explicado previamente. Nada disso foi feito, é uma falha tremenda do programa.”

O especialista ressalva que não é com as pessoas que ali estão que não concorda, mas com a essência do programa. “Eu pessoalmente não o faria. Jamais o faria, aliás. Posso garantir que é a pura verdade. Nem pago a peso de ouro eu fazia uma coisa dessas. Eticamente é muito polémico.”

Contudo, ao nível dos métodos praticados o neuropsicólogo vê uma divisão de opiniões entre os especialistas. “Conheço pessoas que são desta área e credenciadas que acham aquilo muito interessante e que não perdem um programa”, garante.

Falta de regulação no coaching é "problema de saúde pública"

Além dos dois psicólogos, há ainda dois “coaches” no painel de especialistas do “Casados à Primeira Vista”. Eduardo Torgal e Cris Carvalho não têm formação em psicologia, mas assumem-se como especialistas certificados em coaching – e eles próprios são responsáveis por atribuir certificações neste campo.

Este é também um problema para a Ordem dos Psicólogos Portugueses, já que, no que diz respeito ao coaching, e muito em particular nas áreas da saúde/relacionais, a OPP defende que este terá de ser desenvolvido por psicólogos.

Em 2014, a OPP emitiu um parecer que explicita a sua posição sobre a prática de “coaching”, em que afirma que este é “um ‘negócio’ não regulado, pautado por muitas pseudoqualificações, acreditações sem significado e ‘grandes nomes’ auto-reconhecidos como ‘líderes’ na matéria, que usam a denominação 'coaching' para se promoverem”.

“Qualquer pessoa se pode autodenominar 'Coach Certificado', qualquer pessoa pode criar uma organização de formação para coaches”, alertava a Ordem no parecer.

Por isso, em 2016, a OPP criou uma especialidade avançada em "coaching" psicológico, com o objetivo de regular a prática desta atividade em Portugal.

Deste modo, definiu critérios de formação, de experiência mínima e de supervisão, que garantem aos psicólogos a aquisição das competências necessárias para a realização de um trabalho sério, rigoroso e científico e que proteja e defenda os interesses dos clientes de "coaching".

No entanto, continua a não existir nenhuma lei que proíba alguém sem formação em psicologia de exercer “coaching” nem qualquer órgão que regule a atividade.

“Independentemente de haver 'coaches' que não são psicólogos e que possam ser muito competentes no que estão a fazer e tenham muita formação, não há uma regulação nestas coisas”, explica Miguel Ricou à Renascença. “Isto dá-nos segurança e dá segurança ao público? Não.”

O problema, para o dirigente da OPP, é que o público em geral não consegue distinguir um 'coach' que é psicólogo de um com uma formação sem qualquer rigor científico.

“Hoje em dia o 'coaching' é popularizado para uma série de outras áreas, mas é mais o marketing do que outra coisa qualquer”, afirma.

No entanto, para Samuel Antunes, presidente da Mesa da Assembleia Geral da Ordem dos Psicológos e também presidente da International Association of Coaching Psychology, a falta de regulação no "coaching" é um “problema de saúde pública”.

Sobre o método do Eneagrama, usado pelo “coach” Eduardo Torgal para definir o perfil de personalidade dos concorrentes, Samuel Antunes diz que este é um modelo conhecido e bastante divulgado. “Agora isso não é a panaceia universal e não serve para todas as coisas”, contrapõe.

O especialista considera mesmo o programa “absurdo” a este nível. “É um bocado chocante ver uma pessoa que, não sendo psicólogo, se permite fazer avaliações psicológicas e emitir opiniões sobre comportamentos humanos sem ter ferramentas de avaliação psicológica devidamente credíveis e validadas para o poder fazer. Não podemos autorizar que pessoas que não estão capacitadas para fazer esse tipo de avaliações se pronunciem sobre outras pessoas, sem instrumentos fidedignos para o fazer."

A Renascença leva este tema a debate este sábado, no Em Nome da Lei, às 12 horas.

Comentários
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  • Kaiser Kosta
    21 nov, 2018 Setubal 17:48
    Uma (não) notícia que nada mais é do que a exploração do sensacionalismo e da polémica para garantir ouvintes/leitores. Parece um artigo comercial encomendado pela TVI.
  • Fábio Barros
    20 nov, 2018 18:36
    Denoto uma certa preocupação com o negócio do coach mais até do que com as questões de Saúde. O homem é psicólogo júnior em Portugal, no entanto tem um mestrado e exerceu neuropsicologia noutro país da Europa, mais uma vez os enormes cérebros portugueses desdenham e criticam os seus apenas, talvez, porque não paga as cotas da ordem. Já o programa da super Nani foi criticado e esse apenas mostrava a parca educação que nós portugueses sabemos dar, provavelmente , mais uma vez, alguém que deveria ter sido convidado não foi e isso ajudou aos juizos de valor e até científicos sobre o assunto.
  • VICTOR MARQUES
    19 nov, 2018 Matosinhos 10:45
    Casamentos à primeira vista há muitos, mas daltónicos também os há!!!...
  • Miguel Ferreira
    17 nov, 2018 Lisboa 07:57
    É uma aldrabice, é certo, quanto a banalização do casamento, ele já era banal antes do programa, é desde há 5000 anos “a mais velha aldrabice do mundo”; talvez a igreja preferisse o tempo em que os casamentos em Portugal eram arranjados entre famílias (como ainda hoje os ciganos). É fácil perceber que o objetivo da seleção não é unir solteiros para criar casais, mas antes criar experiências com quem eles sabem de antemão que vai correr mal para gerar audiências, só não vê quem não está atento. Mas a grande questão que não se coloca é: é ético enganar participantes num engodo destes?
  • Paula Marques
    16 nov, 2018 18:10
    Digamos que é uma tristeza ...
  • Machadinho
    16 nov, 2018 Inglaterra 16:55
    É impressão minha ou esse senhor tem a mania da grandeza? Gosta de passar a perna mas deu-se mal! Muita lábia e trapaceiro é a especialidade do Psicólogo Júnior!!!
  • Martins
    16 nov, 2018 LX 11:09
    Comecei a ler, mas que seca de artigo.... e depois esta obsessão pelo inglês! "matching", "coaching" e "coach" (repetidos à exaustão). Escrevam em português, ou será que nem isso conseguem?