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Opinião

É perigoso convencer as pessoas de que a psicologia pode descobrir um “par ideal”

16 nov, 2018 - 07:20 • Miguel Ricou, Presidente da Comissão de Ética da Ordem dos Psicólogos Portugueses

O “sucesso” de uma relação – seja lá o que isso for – não depende, no essencial, das características das pessoas tal como elas podem ser avaliadas pela ciência psicológica. Promover esta ideia será vender “gato por lebre”.
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Em Portugal, o ensino da Psicologia na Universidade começa consistentemente depois do 25 de abril. Na viragem do século havia pouco mais de dois mil psicólogos a trabalharem no País, ainda que o número de escolas aumentasse todos os anos. Entretanto o desenvolvimento e o crescimento da profissão foram enormes. De dois mil psicólogos no fim do século XX passamos para cerca de vinte e um mil, atualmente.

Os requisitos para o exercício profissional da Psicologia vão variando no mundo, apesar de alguns esforços no sentido da uniformização da formação e até dos princípios profissionais. Existem ainda muitas diferenças naquilo que é exigido ao nível da formação de base para os psicólogos e no que diz respeito à sua formação prática. Em muitos países a Psicologia ainda não é uma profissão reconhecida. Por sua vez, existem outros onde são reconhecidas um conjunto de atividades paralelas à Psicologia e que se podem confundir com esta.

Ainda assim, e num mundo onde cada vez mais se valoriza o indivíduo e se defende o bem comum assente na promoção da autorrealização de cada um, a Psicologia tem sido cada vez mais reconhecida e mediatizada. Contudo, a bem da verdade, as pessoas têm ainda dificuldade em reconhecer a forma de trabalho do psicólogo, os objetivos específicos da sua intervenção, as diversas áreas de aplicação e as técnicas e metodologias de ação. E como tudo o que é mediático e pouco conhecido, a tendência para a mistificação é grande, resultando na criação de expectativas irrealistas que podem pressionar os profissionais a dar respostas que não fazem parte das suas competências.

Paralelamente, vão surgindo, cada vez mais, atividades pouco claras associadas à Psicologia e à intervenção psicológica com o objetivo de daí se retirarem dividendos de credibilidade. Áreas de intervenção psicológica surgem com outros nomes, potencialmente mais vendáveis, mas por vezes levadas a cabo por pessoas sem formação, ou com formas de intervenção claramente estranhas à Psicologia. É o exemplo do coaching, do counselling, do mindfulness e de um conjunto de outras psicoterapias que vão surgindo sem evidência científica de eficácia que sustente as intervenções. Podem colocar em causa o bem-estar das pessoas e levantar dúvidas em relação à credibilidade da Psicologia e dos seus profissionais.

O desenvolvimento da profissão tem contribuído para o seu aparecimento no espaço mediático. No entanto, se essa mediatização é útil na disseminação da ciência psicológica, pode ter consequências paradoxais em função da dificuldade em distinguir o “trigo do joio”. Por exemplo, a presença conjunta de “coachers” e psicólogos em programas de entretenimento pode ser altamente lesivo para a identidade da Psicologia. Pode dar a entender que o “coaching” é uma atividade externa à Psicologia – o que é errado considerar – e mistificar a ideia de que a ciência psicológica permite operar verdadeiros milagres nas pessoas.

Tentar convencer as pessoas que a Psicologia pode permitir a descoberta do “par ideal” é perigoso, não só porque essa definição simplesmente não existe, mas também porque o “sucesso” de uma relação – seja lá o que isso for – não depende, no essencial, das características das pessoas tal como elas podem ser avaliadas pela ciência psicológica. Promover esta ideia é prestar um péssimo serviço na disseminação da ciência psicológica e é potenciar uma maior frustração nas pessoas que nem com um par “cientificamente ideal” conseguem os resultados esperados numa relação. Será vender “gato por lebre”, sendo que o gato neste caso pode fazer mal à saúde psicológica da pessoa, tantas vezes já fragilizada e vulnerável.

Não é por acaso que a Ordem dos Psicólogos Portugueses se tem vindo a preocupar com a exposição mediática dos psicólogos, como atestam as referências claras no seu Código Deontológico e os pareceres da sua comissão de ética: o 47/CEOPP/2015 sobre a alegada prática da Psicologia nos media e o 56/CEOPP/2017 sobre declarações públicas. Fica claro que a participação dos psicólogos na divulgação da ciência psicológica em canais mediáticos é muito importante, mas que a intervenção psicológica a esse nível não faz nenhum sentido.

A intervenção psicológica, seja ela chamada de coaching, counselling, psicoterapia, apoio psicológico, ou outra denominação, tenha ou não uma componente de avaliação psicológica, seja baseada na correção de um defeito ou na potenciação de qualidades, tenha lugar em empresas, escolas, hospitais, ou em qualquer outro local, é um processo baseado numa relação de confiança interpessoal, na qual a privacidade tem uma dimensão central, com o objetivo de ajudar a pessoa a conhecer-se melhor a si própria. Parte do pressuposto que quanto melhor nos conhecermos, mais seremos capazes de lidar com as diversas dimensões que a vida nos coloca e responder aos constantes desafios resultantes da sociedade da escolha em que hoje vivemos.

A intervenção psicológica no contexto mediático seria contraditória com os seus objetivos. A exposição massiva da prática psicológica pode conduzir à sua banalização e nesse sentido ao simplismo das receitas e dos matchings. Do mesmo modo, pode colocar em causa a grande responsabilidade do psicólogo no sentido de não induzir os seus clientes a participar em situações que poderão, com elevada probabilidade, contribuir para o prejuízo dos mesmos. Poderá ainda, quando transformada em espetáculo levar a uma má interpretação dos seus propósitos e prejudicar as pessoas que procuram mimetizar alguns desses comportamentos. As pessoas são todas diferentes, pelo que a intervenção psicológica tem em consideração isso mesmo. Não é uma “receita” que serve para todos aqueles que se identificam com determinado problema.

A intervenção psicológica procura promover o melhor interesse das pessoas, pelo que qualquer intervenção dirigida a outros objetivos não poderá ser considerada como tal. Quando um psicólogo participa num espetáculo de entretenimento viverá sempre um conflito de interesses: contribuir para o entretenimento ou cumprir com a sua obrigação de promover o melhor interesse das pessoas com quem trabalha, ou pelo menos, não as prejudicar de uma forma consciente ou negligente.

Artigo de opinião de Miguel Ricou, no contexto da participação de psicólogos no programa "Casados à Primeira Vista", da SIC.



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  • Hugo
    18 nov, 2018 Portalegre 01:17
    O programa casados de fresco reflete uma produção televisiva cujo staff de psicologos com base nos seus conhecimentos técnicos tentou perfilar oos pares ideais ou as almas gemeas.acontece que as casas não se começam pelos telhados,e por mais bem intencionados qie sejam,tenho cepticismo quanto ao desfecho prospero dos casais intervenientes.a exposicao mediática é uma pressão e as compatibilidades refletem incompatibilidades diárias.há padrões de personalidade mas que cruzados,refletem pontos de discordancia diária.vejo o esforço deste corpo de psicologos como infrutifero,derivado de pessoas que nao estão em simbiose,ritmos diferentes,falta de quimica,pessoas que jogam para a camara ou depositaram todo o seu naipe no programa sem ouvir ou oscultar o outro.