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Prémio Nobel. Programa Alimentar Mundial dá de comer a 97 milhões, mas há mais de 800 milhões a passar fome em todo o mundo

09 out, 2020 - 16:09 • João Carlos Malta

Saiba o que é, o que faz e os números da instituição agora galardoada com o Nobel da Paz “pelos esforços no combate à fome, pela contribuição para melhorar as condições de paz em zonas de conflito e por agir como uma força motriz nos esforços para evitar a utilização da fome como arma de guerra”.

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Quando e como nasceu o Programa Alimentar Mundial?

Em Setembro de 1962, no norte do Irão, um terramoto atinge a área de Boein Zahra. Mais de 12 mil pessoas morrem. Milhares de casas são destruídas.É um cataclísmico para as vítimas, e é também um batismo de fogo para o Programa Alimentar Mundial (PAM): a instituição existia há apenas alguns meses.

Mesmo assim, o PAM consegue enviar rapidamente aos sobreviventes 1.500 toneladas de trigo, 270 toneladas de açúcar e 27 toneladas de chá.

Este programa foi criado a pedido do Presidente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower, como uma experiência para fornecer ajuda alimentar através da ONU. O PAM seria reavaliado a cada três anos.

Crise após crise, a ideia mostra a importância fulcral para os mais desfavorecidos.

Qual é o propósito?

Os esforços estão primordialmente concentrados no combate à fome, e através dela quer contribuir para melhorar as condições de paz em áreas afetadas por conflitos e atuar como uma força motriz nos esforços para prevenir o uso da fome como uma arma de guerra e de conflito. Isso valeu ao PAM ser agraciado com o prémio Nobel da Paz em 2020.

É a maior organização humanitária no mundo.

Quantas pessoas assiste e em quantos países?

Em 2019, ajudou 97 milhões de pessoas - o maior número desde 2012 - em 88 países.

O Programa Alimentar Mundial, através da assistência alimentar em emergências e no trabalho com as comunidades, ajuda a melhorar a nutrição e a construir resiliência por todo o mundo.

Quantos navios e camiões são precisos para ajudar 97 milhões de pessoas?

Todos os dias, o PAM faz deslocar 5.600 camiões, 30 navios e quase 100 aviões, entregando alimentos e outros tipos de assistência aos que mais precisam.

Quantas refeições são distribuídas por ano e a que preço?

Todos os anos, o PAM distribui mais de 15 biliões de refeições, a um custo médio estimado por unidade de 52 cêntimos.

Estes números estão na origem da reputação incomparável daquela agência das Nações Unidas como um agente de resposta a emergências, que realiza o trabalho rapidamente em grande escala nos ambientes mais difíceis.

Quais são as áreas em que mais aposta o PAM?

Dois terços do trabalho deste programa são realizados em países afetados por conflitos, onde as pessoas têm três vezes mais probabilidade de ficarem desnutridas do que aquelas que vivem em países sem conflitos.

Ainda assim a fome continua a ser um problema no mundo?

Sem dúvida e dos mais graves. Todos os dias, muitos homens e mulheres em todo o mundo lutam para alimentar filhos com uma refeição nutritiva.

Num planeta em que produzimos comida suficiente para alimentar todos, 690 milhões de pessoas ainda vão para a cama com o estômago vazio todas as noites.

A falta de comida aguda afetou 135 milhões de pessoas em 55 países em 2019.

Mais grave, um em cada três pessoas por todo o mundo sofre de alguma forma de desnutrição.

Mas se há comida para alimentar a população mundial porque é que há pessoas com fome?

Uma das causas é a de que cerca de um terço dos alimentos que produzimos a cada ano é perdido ou desperdiçado, custando à economia global quase 850 mil milhões de euros por ano.

Nos países desenvolvidos, os alimentos são frequentemente desperdiçados no prato, enquanto nos países em desenvolvimento são perdidos durante a produção, pois as colheitas não são utilizadas ou processadas devido ao armazenamento insuficiente ou porque os agricultores não conseguem vender os seus produtos no mercado.

Qual a visão de futuro?

Adotado pouco mais de um ano após a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, o Plano Estratégico do PAM para 2017-2021 alinha o trabalho da organização ao apelo global à ação da Agenda 2030, que prioriza esforços para erradicar a pobreza, a fome e desigualdade, abrangendo esforços humanitários e de desenvolvimento.

Em 2015, a comunidade global adotou os 17 Objetivos Globais para o Desenvolvimento Sustentável para melhorar a vida das pessoas até 2030.

O Objetivo 2 - Fome Zero - promete acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e promover a agricultura sustentável, e é a prioridade do PAM.

As alterações climáticas são uma das principais causas para a fome?

Para milhões de pessoas em toda a África, Ásia e América Latina, as mudanças climáticas significam inundações, secas e tempestades mais frequentes e intensas, correspondendo a cada ano até 90% de todos os desastres relacionados ao clima. Esta situação pode rapidamente evoluir para crises alimentares e nutricionais completas.

Na última década, quase metade das operações de emergência e recuperação do Programa Mundial de Alimentos foram em resposta a desastres relacionados ao clima, que tiveram um custo 19,5 mil milhões de euros.

A grande maioria das pessoas com fome no mundo está exposta aos choques climáticos, e erradicar a fome requer esforços ousados para melhorar a capacidade das pessoas de se preparar, responder e se recuperar. Caso contrário, estimou-se que o risco de fome e desnutrição poderia aumentar em até 20% até 2050.

A pandemia é um risco suplementar?

Recentemente, o chefe do Programa Alimentar Mundial, David Beasley, emitiu um alerta forte avisando que milhões de pessoas em todo o mundo estão mais perto da fome devido a uma combinação mortal que junta mudança climática, conflito e a pandemia de coronavírus.

Embora os esforços nos últimos cinco meses tenham ajudado a prevenir uma “pandemia de fome”, este responsável não tem dúvidas em dizer que a fome continua a ser uma possibilidade em até três dezenas de países e pode sobrecarregar regiões já afetadas pelo conflito.

No Iémen, por exemplo, mais de 10 mil pessoas morreram nos últimos 18 meses, e cerca de 10 milhões de crianças correm o risco de morrer de fome enquanto o conflito continua a abalar a região, disse a ONU.

O que pede a instituição aos mais ricos?

A principal autoridade alimentar da ONU pediu aos bilionários e empresas de todo o mundo que ajudem a salvar 30 milhões de pessoas que correm o risco de morrer de fome este ano sem ajuda.

O diretor-executivo do Programa Alimentar Mundial, David Beasley, disse que a organização precisa de 4,2 mil milhões de euros para alimentar as pessoas em risco por um ano.

“Em todo o mundo, existem mais de 2.000 bilionários com um património líquido de 6,8 biliões de euros. No meu país, os EUA, existem 12 indivíduos sozinhos no valor de 850 mil milhões ”, disse Beasley num painel do Conselho de Segurança da ONU sobre a fome induzida por conflitos.

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