Renascença na Ucrânia

A última missão do padre Viktor na paróquia quase desaparecida de Bakhmut

04 abr, 2023 - 09:33 • José Pedro Frazão, enviado da Renascença à Ucrânia

A fé na vitória ganha ainda mais força na Páscoa, reconhece o padre católico de Bakhmut. Viktor Vonsvych conhece bem os caminhos da província de Donetsk, no Donbass ucraniano. Foi preso e mantido em cativeiro por separatistas pró-russos logo quando a guerra estalou em 2014. Ao longo dos anos, acumulou paróquias de rito latino nas zonas mais quentes como Sloviansk, Kramatorsk ou Bakhmut. Esteve na cidade sitiada há dois meses, já depois da Igreja local ter sucumbido aos combates.

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A última missão do padre Viktor na paróquia quase desaparecida de Bakhmut. Reportagem de José Pedro Frazão

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Os ucranianos costumam chamar esta guerra de "invasão de larga escala", para lembrar que o seu país começou a ser parcialmente invadido pelo vizinho em 2014 na Crimeia e no Donbass. Foi nesse verão que o padre Vikytor Vonsovych foi detido por soldados chechenos em nome da autoproclamada República Popular de Donetsk. O padre católico ia a caminho de uma missa em Horlivka, cidade da província de Donetsk então capturada pelos separatistas, quando foi parado numa barreira militar.

"Passava muitas vezes naquele posto de controlo, mas este dia estavam lá outros soldados que tinham sido repelidos de Kramatorsk e Sloviansk. Era a primeira vez que via estas caras ali. Pediram-me os documentos e acharam estranho eu ter nascido em Zhytomyr e ter morada na região de Kharkiv. Pediram-me para sair do carro para conferir os documentos no computador, mas estes não eram os seus planos. Fiquei dez dias em cativeiro", recorda Viktor Vonsvych, que se viu não apenas sem documentos, mas também sem carro, dinheiro ou telefone. Diz desconhecer o valor do resgate pedido, mas lembra-se que foi salvo pela intervenção de um padre de Donetsk.

Poucos meses depois, em outubro de 2014 tornou-se pároco de Kramatorsk e Pokrovsk e, dois anos depois, de Bakhmut e Sloviansk, tudo na região de Donetsk. Fazia 300 quilómetros entre igrejas ao domingo numa das áreas mais explosivas da Ucrânia. A invasão de fevereiro de 2022 marcou também o fim das maiores celebrações em especial em Bakhmut.

"Antes da guerra tínhamos 50 pessoas na nossa paróquia. Era muito animada, com crianças e jovens, com muita alegria. A maioria das pessoas saiu depois para o estrangeiro, para a Eslováquia, Alemanha e Polónia. Eu saí em março e tentei voltar várias vezes. Presidi às últimas celebrações em maio de 2022. Bakhmut foi bombardeada durante muito tempo e isso levou à saída de muitas pessoas", conta-nos o padre Viktor, que em 2017 esteve em Fátima durante uma viagem a Portugal.

Em dezembro, a Igreja foi destruída e isso recolocou este sacerdote novamente na rota mais perigosa da guerra da Ucrânia. "Por essa altura fui muitas vezes a Bakhmut recolher os objetos que sobraram da Igreja. Mas a última vez que fui a Bakhmut foi em fevereiro deste ano para visitar uma paroquiana, mas ela não quis sair da cidade", revela o padre, que agora presta apenas apoio espiritual e humanitário em Kramatorsk e Prokovsk, cidades mais próximas das frentes de batalha da província de Donetsk.

Capelão e crente na vitória na guerra

Na função de capelão, Viktor está também em contacto com os militares que são católicos. Está credenciado no CRS ( "Christian Rescue Service") que vem levando apoio às linhas da frente desde o início da guerra e que está integrado no corpo de capelães de diversas denominações católicas e cristãs que têm estado ao lado dos soldados ucranianos. Mais de 100 capelães iniciaram estas missões de apoio aos combatentes e em 2023 começou o processo de real integração nas patentes do exército ucraniano. Decorrem neste momento treinos militares para 30 padres que vão poder atuar diretamente nos batalhões prestando apoio espiritual, humanitário e de primeiros socorros.

Nas intenções de oração publicadas para o mês de abril, pede-se a vitória dos ucranianos , uma "paz justa com a Federação Russa" e a devolução de todos os territórios ocupados, entre outras intenções como o fim do "pecado da corrupção" nas instituições governamentais, da evasão de governos e empresas ao circuito de sanções contra a Rússia e, à cabeça, para um "colapso final" das ações ofensivas do inimigo no Leste da Ucrânia, acompanhado de uma tentativa bem sucedida de "libertar os territórios ocupados" pelos soldados ucranianos.

Viktor está de momento envolvido também na operação da Cáritas Spes da Ucrânia que leva ajuda humanitária à linha da frente. É mais uma missão agora que é muito difícil entrar em Bakhmut. "Parece Mariupol", ilustra dentro do possível. Recolheu os destroços da Igreja, mas não trouxe a última paroquiana. Mas Viktor anima-se com a esperança que a Páscoa transmite aos católicos.

"Páscoa é vitória. Vitória sobre o Mal. E tal como Cristo derrotou Satanás, também nós vamos agora vencer junto com o Senhor Deus. Repito, a Páscoa é vitória. E não nos esqueçamos que esta é também a esperança em algo melhor: a Ressurreição".

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