Tempo
|

Geração Z não confia nos media tradicionais. Como conquistar a atenção dos mais jovens?

07 nov, 2022 - 15:30 • Marta Pedreira Mixão , Daniela Espírito Santo

A geração Z não confia nos modelos de media atuais, mas confia nos seus pares. Por isso, consomem as notícias partilhadas entre si, através do TikTok e outras redes sociais.

A+ / A-

A Geração Z é, segundo um estudo da WARC, uma empresa especializada em análises em marketing, a mais digital do Mundo. Estes jovens entre os 16 e 24 anos passam dois terços (67,7%) do seu tempo em canais digitais, particularmente em plataformas como o TikTok. Perante tanto tempo passado em canais digitais e redes sociais, torna-se relevante perceber de que forma “a Geração Z consome notícias”.

Para debater o tema, a Web Summit apresentou um painel com Subrata De, editora global de notícias, programação e desenvolvimento da Vice, a jornalista política Judith Nwandu, do The Shade Room, e a jornalista norte-americana Ann Curry para uma discussão, moderada pela jornalista da Axios Sarah Fischer.

Um estudo do Pew Research Center refere que o TikTok é a única plataforma em que o consumo de notícias está a aumentar dramaticamente entre as gerações mais jovens, isto enquanto o Instagram regista um crescimento marginal e todas as outras plataformas estão a “decrescer dramaticamente”, segundo Sarah Fischer.

Estes dados revelam, só por si, a importância do TikTok para o consumo de notícias entre os mais jovens, principalmente considerando que a plataforma conta com mais de 421 milhões de utilizadores entre os 18 e os 24 anos.

O TikTok, conhecido como Douyin na China e propriedade da ByteDance, nasceu em 2016 e registou um crescimento tão rápido que, em 2021, anunciou que tinha mais de mil milhões de utilizadores mensais a nível mundial.

A jornalista da Vice Subrata De salienta precisamente os números, aquando do lançamento da Vice no TikTok: “Lançámos o TikTok na semana em que a Rússia invadiu a Ucrânia e 200 milhões de pessoas interagiram com esse conteúdo, envolvendo-se diretamente com as pessoas no terreno”.

“Senti que isso era positivo. Sabia que a maioria das pessoas, com base nos dados que podíamos ver, tinham menos de 25 anos e que se preocupavam”, justificou a jornalista.

O TikTok é uma plataforma relativamente jovem e, por isso, segundo as palavras de Sarah Fischer, "pode não ter completo domínio sobre o conteúdo, moderação da informação e desinformação".

Subrata salientou, contudo, que “há preocupação e responsabilidade em torno da moderação” de conteúdos, mas que vê a plataforma como [uma forma] de democratização da informação e “um verdadeiro empoderamento dos contadores de histórias”. “Sinto-me encorajada por isso”, destaca, reiterando que “o TikTok tem sido um novo espaço interessante para o jornalismo”.

Gen Z:“Estão a receber as notícias uns dos outros"

Por sua vez, a jornalista Ann Curry disse perceber “a sedução desses vídeos muito curtos, que são divertidos de ver”, mas relembra que, no seu tempo, ninguém se preocupava com a forma como recebia as notícias e que a sua geração, os Boomers, “mal recebia a informação através da Rolling Stone”.

“Penso que a Geração Z está, provavelmente, mais bem informada do que a minha e isto representa o seu poder - o facto de nos importarmos e de estarmos a ter esta conversa, afirma.

Ann Curry salienta que, ao falar desta plataforma em relação ao consumo de notícias, é preciso ter em conta que “o TikTok tem a influência do Partido Comunista Chinês”. “Ainda está a ser investigado, mas há algumas dúvidas sobre se os dados que são recolhidos sobre os utilizadores podem ser utilizados no futuro”.

Para a jornalista, a desconfiança da “Gen Z” em relação aos media tradicionais e às outras gerações é materializada através da forma como consomem as notícias: “Estão a receber as notícias uns dos outros”.

“Estão a receber as notícias através do TikTok e uns dos outros, porque sentem que podem confiar nos seus pares e não confiam nas pessoas da minha geração e nas pessoas da imprensa mainstream porque são dessa geração”, fundamenta.

Para Ann Curry, perante a desconfiança nas outras gerações, a “Gen Z” procura receber apenas a informação, de forma direta e clara, sem que alguém lhes diga o que pensar.

A jornalista assume-se contra “a ideia de que [as pessoas] são demasiado estúpidas para saberem o que pensar sobre o mundo” e, por isso, não concorda que se deve “dizer o que pensar”. Pelo contrário, defende que “tudo o que precisamos de fazer é dar-lhes a melhor informação possível e de que precisam para que possam descobrir o que pensam”.

Ann Curry relembra ainda que “no seu tempo”, também a sua geração “olhava para as pessoas mais velhas e para os sistemas mais antigos da mesma forma”.

Uma coisa é certa, estes jovens gostam de receber as notícias no telemóvel e através das redes sociais e foi esta descoberta que permitiu ao projeto The Shade Room (TSR) ganhar relevância e, atualmente, conta com mais de 27 milhões de seguidores.

Judith Nwandu, do TSR, destaca, particularmente, a importância do Instagram, plataforma na qual surgiu o projeto.

“A razão pela qual o TSR foi construído no Instagram está, penso eu, relacionada com o motivo pelo qual as redes sociais são uma coisa boa para as notícias: porque a fundadora não teve condições para construir um site. Assim, começou a publicar as notícias no Instagram e ‘rebentou’ porque percebeu que as pessoas querem receber as notícias diretamente no feed”, conta.

Na opinião de Nwandu, o crescimento das redes sociais como meio de partilha de notícias é positivo porque ajuda à democratização, ao permitir uma pluralidade de vozes, principalmente para aqueles que “não têm capacidade de iniciar uma plataforma de notícias tradicional”.

“Não é apenas importante ler as notícias, mas também ler os comentários”

Nwandu destaca que uma das vantagens da partilha de notícias nas redes sociais é a “adição de uma nova camada”: os comentários. Para a jornalista, um dos motivos que leva a que a geração Z opte por receber informação desta forma é porque, além de as poderem receber através do aparelho que mais usam e de as poderem partilhar, podem também ver os comentários e opiniões de terceiros.

“A Gen Z cresceu a receber notícias num estilo de fórum. Por isso, não é apenas importante ler as notícias, mas também ler os comentários, para perceber a opinião de outras pessoas e como se sentem em relação a algo”.

Como conquistar a atenção da Geração Z?

Para Subrata De, da Vice, é preciso que os media tenham a noção de que “não estão acima da audiência”. Por isso, perante uma nova forma de consumir notícias, torna-se fundamental perceber o público e ir ao seu encontro, sem preconceitos.

“É preciso ouvi-los e envolvermo-nos com eles, ir onde eles estão. Não se pode fazer suposições sobre as pessoas que procuram informação. Por isso mesmo, também apostamos no Twitch”.

Subrata recorda que quando sugeriram aderir ao Twitch, várias pessoas afirmaram que a plataforma só tinha “rapazes adolescentes”, mas que o editor digital não se deixou influenciar e relembrou que também “eles” são um público que precisa de informação.

“Não acredito que haja só um conjunto de pessoas que queira notícias. Acredito que nos cabe a nós descobrir onde estão as audiências e falar com elas”.

Os jovens consomem cada vez menos informação nos meios tradicionais, dizem os números. Perante esta mudança no paradigma noticioso, coloca-se a questão de como serão as notícias da próxima geração e se será possível contornar o cenário atual.

Como serão as notícias da próxima geração?

Um estudo da Morning Consult garante que 68% dos jovens da chamada Geração Z utilizam as redes sociais para se informarem. Como contrariar tal cenário? Será que é possível - e até desejável - fazê-lo?

O futuro da informação foi um dos temas em destaque na Web Summit deste ano, em Lisboa, e os debates procuraram perceber de que forma se pode chegar à geração Z e qual o futuro do jornalismo como o conhecemos.

Chanté Joseph, uma criadora de conteúdos famosa no Reino Unido, esteve na conferência a relatar a sua experiência enquanto freelancer, num debate sobre a nova geração de notícias, startups e “streamers” que também incluiu Ramin Beheshti, do The News Movement, um projeto que está a tentar “reinventar as notícias” através das redes sociais.

Contra os pejos de quem possa achar que não se contam boas estórias nestas plataformas, Ramin diz que isso é falacioso. No fundo, o que funciona é ser “como aquelas pessoas que parece que não tiveram trabalho nenhum com o cabelo, mas demoraram horas a arranjar-se”. “É a mesma coisa. Estas técnicas funcionam. O resultado final pode parecer mais ‘áspero’, mas foi muito trabalhado”, diz.

As histórias também podem estar nos espaços mais improváveis e, no jogo do conteúdo, arranjar parcerias pode ser a melhor forma de garantir um negócio lucrativo. “Temos uma parceria, por exemplo, com uma empresa que representa artistas. Muitos músicos são storytellers - nós fazemos parceria com eles para ajudar a contar essas histórias”.

“Nós não somos marcas, somos pessoas"

Muitas vezes, o caminho passa por trabalhar com marcas, o que parece problemático à partida mas, explica Chanté, só o é se quem o faz se deixar corromper. “Eu faço a minha pesquisa antes de trabalhar com uma marca. Percebo se é uma boa marca e se a minha audiência aceita essa marca”, começa por dizer, explicando de seguida que, por exemplo, não trabalha com produtos, mas sim com serviços.

“Só trabalho com marcas que fazem sentido para mim porque é muito fácil uma pessoa ser seduzida por um ordenado”.

Freelancer, a jovem criadora de conteúdo trabalha para diversas fontes, produzindo com a ajuda de uma equipa com quem coopera para ganhar dinheiro. “A minha equipa ganha vinte por cento de tudo o que eu fizer. Eles pagam-se a si próprios”, diz, explicando o seu modelo de negócio. “Eles confiam que eu faço bem o que faço e eu confio neles para conseguirem trabalho”, acrescenta.

O futuro dos criadores de conteúdos passa por apostarem em se apresentarem como “pessoas inteiras”. “Nós não somos marcas, somos pessoas. Mudamos de ideias”, admite.

No final, uma certeza: só se chega aos mais jovens se estivermos onde eles estão. “O nosso modelo de negócio descreve-se com a expressão ‘amigos que contam coisas a amigos’. É preciso termos essa capacidade de vulnerabilidade para seguirmos juntos na viagem, em vez de dizermos às pessoas qual a resposta a isto ou aquilo”, diz Ramin. “É isso que afasta as pessoas das notícias”, acredita.

Voltar ao básico parece resultar. “Quando a Ucrânia foi invadida pela Rússia começamos por dizer às pessoas onde ficava a Ucrânia. Demos informação básica. A capacidade de providenciar contexto é super importante”, defende.

“Não estamos a tentar dizer às pessoas o que pensar. Estamos a dar às pessoas contexto e opiniões, mesmo que não concordemos com elas”, reitera Ramin.

Chanté concorda: é preciso “começar num espaço em que ninguém sabe nada”.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

Destaques V+