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Do choque à anestesia. Repetição da morte e da violência na Ucrânia quase as normalizaram

24 ago, 2022 - 06:07 • João Carlos Malta

Esta quarta-feira, 24 de agosto, marca os seis meses do início da guerra na Ucrânia. Há meio ano, a Rússia invadia o país vizinho e dava origem ao maior conflito em território europeu depois da 2ª Guerra Mundial. Saiba como os media olharam e olham para o conflito e que efeitos tem na nossa cabeça.

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O choque da invasão da Ucrânia pela vizinha Rússia surpreendeu quase todos, e criou um turbilhão incessante de notícias, reportagens e opiniões que se multiplicaram quase à cadência do segundo. Nos primeiros meses de guerra, o conflito era quase tema único nos alinhamentos das televisões e das rádios, e ocupava grande parte da produção mediática. Até que, progressivamente, foi perdendo espaço no ciclo noticioso. A repetição da dor e sofrimento anestesiou-nos?

“Nenhum de nós consegue viver com a atenção exagerada para um determinado acontecimento em permanência, todos os dias, durante muitos dias. Nenhum de nós consegue ter esta atitude, sequer com tragédias próximas. A natureza humana não nos permite. Faz com que o tempo nos ajude a diluir a dor e o stress”, responde o especialista em comunicação e colunista da Renascença, Luís Santos.

Passado meio ano após o início dos combates, na opinião do professor da Universidade do Minho, o jornalismo precisa agora de encontrar outras formas de mostrar a guerra às pessoas e o “porquê de este assunto ser relevante”, mas sem insistir nas mesmas fórmulas do “a todos os minutos, a todos os instantes aconteceu mais isto e mais aquilo”.

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"Nenhum de nós consegue viver com a atenção exagerada para um determinado acontecimento em permanência"

“Esse método pode criar envolvência com as audiências no início, mas agora já não”, sintetiza.

Habituação ao terror

A vice-presidente da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), Sofia Ramalho, olha para a redução do fluxo de notícias do conflito no Leste da Europa como resultado de “uma anestesia relativamente ao choque”.

A psicóloga diz que, desde a primeira hora do conflito, “fomos bombardeados com uma sucessão de notícias, e esta sucessão ocorreu durante quase 24/24 horas”. “Houve necessidade de as pessoas desenvolverem como forma de autocuidado, uma capacidade de selecionar os momentos a que deviam assistir a notícias”.

A consequência é que a habituação aos estímulos que eram repetidos “gerou uma certa acalmia face à exposição das notícias”.

Ainda assim, e mesmo com essa redução do confronto com as imagens e os relatos da guerra, “pode ter provocado em algumas pessoas sintomas de ansiedade ou até de experiência traumática”.

Por isso, a vice-presidente da OPP acredita que na generalidade da população “há menos força e impacto das notícias, no presente.”

O presidente da Associação de Ucranianos em Portugal, Pavlo Sodokha, considera que é natural que a quantidade de conteúdos jornalísticos seja agora menor, “porque as pessoas não podem estar todos os dias a ver notícias da guerra”.

“Além da guerra há outros problemas. É natural que se fale menos”, reconhece.

Sodokha minimiza o alcance deste fenómeno. Reconhece que embora a vontade dos ucranianos seria a de que se falasse mais sobre a Ucrânia − porque a guerra continua e todos os dias há bombardeamentos, há mortos − considera que esta diminuição do foco mediático sobre a Ucrânia não faz com que o país tenha perdido apoios internacionais, sejam eles militares, económicos ou políticos.

Ainda assim, e quando falamos de um evento traumático que perdura no tempo, como a guerra, a possibilidade de espoletar “ansiedade” é alta.

Após os momentos de choque e de terror que massacres como o de Bucha causaram − e se é verdade que a violência, a morte e a destruição não desapareceram do quotidiano dos ucranianos − para os portugueses que assistem à distância ao conflito armado “poderá haver uma mudança” nas manifestações da ansiedade.

“Podem estar agora mais centrados nas consequências desta guerra na sua vida, antecipam vir a estar numa situação economicamente mais frágil, e numa situação que possa provocar alterações na vida das pessoas, pelo fator económico”, aponta a vice-presidente da OPP, Sofia Ramalho.

“O fator ansiogénico é a guerra, mas o impacto passou a ser mais do ponto de vista familiar e pessoal, numa dimensão mais económica. O medo desse impacto gera mais ansiedade nesta fase. As pessoas estão mais concentradas em si, na sua família e no seu país, no seu próprio bem-estar”, adianta.

Jornalismo sem neutralidade, porquê?

Regressando à análise do acompanhamento mediático por parte da imprensa nacional a este meio ano de guerra, Luís Santos destaca duas ideias.

A primeira “marca forte” é a de que “a cobertura tem tendencialmente um olhar próximo do olhar do governo ucraniano”.

Na opinião do especialista, isso resulta de constrangimentos, uns de cariz económico, outros de falta de meios, e de uma maior relação com agências internacionais anglófonas e francófonas.

A adesão ao lado ucraniano da narrativa pode ser consequência da existência clara de um agressor e de um agredido? Luís Santos não coloca as coisas de uma forma tão simplista e lembra: “Não queria ser demasiado polémico, mas quando os EUA invadiram o Iraque, os media ocidentais estavam com o agressor. As coisas são diferentes mediante o olhar que nós lançamos sobre elas”.

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"[Os portugueses] podem estar agora mais centrados nas consequências desta guerra na sua vida, antecipam vir a estar numa situação economicamente mais frágil".

O especialista em comunicação defende que o melhor jornalismo é aquele que está no terreno, mais perto do quotidiano dos que são atingidos pela guerra, e menos preso às fontes institucionais.

“Os jornalistas deviam adotar um posicionamento mais próximo do relato do que está a acontecer. Mas para isso precisariam de mais meios para se deslocarem aos locais, e menos de veicular a enorme quantidade de informação que a máquina profissional que trabalha para as partes beligerantes produz”, avança.

"Perder sentido da realidade"

Já em relação aos efeitos psicológicos que a guerra está a causar e continuará a criar, Pavlo Sodokha fala de um povo que ainda está sob o efeito da adrenalina que só permite lutar pela vitória.

No entanto, afirma que dos contatos que tem com a comunidade, sobretudo os que saíram da Ucrânia para fugir à guerra, “há algumas pessoas já perderam o sentido da realidade”. “Não sabem qual vai ser o futuro”, afirma.

“Em Portugal, os ucranianos que chegaram não sabem o que vão fazer no futuro. Isto é grave. Não começam a vida aqui, não sabem quando vai acabar a guerra, e alguns não têm para onde regressar e outros não sabem se vão ser bombardeados. Isto vai trazer-nos a problemas graves”, remata o presidente da Associação de Ucranianos em Portugal.

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