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Diário de Guerra

Dia 64. "Chocado" com ataque a Kiev, Guterres não desiste da paz. Bruxelas investiga clientes europeus de gás russo

28 abr, 2022 - 20:30 • André Rodrigues

Presidente da Ucrânia disse estar pronto para iniciar "negociações de imediato" para garantir a retirada de civis de Azovstal, mas denunciou "a deportação ilegal de cidadãos ucranianos para a Rússia". No entanto, a abertura do corredor humanitário de Mariupol a Zaporíjia pode, afinal, não acontecer esta sexta-feira, tal como apelou o secretário-geral da ONU. António Guterres diz, contudo, que “os trabalhos continuam” e que “há intensas discussões”. A operação é “extremamente complicada” porque os civis “vão ter de atravessar uma das linhas de confronto que neste momento existe”.

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Ao 64.º dia de guerra, Kiev foi bombardeada enquanto decorria a conferência de imprensa de António Guterres ao lado do Presidente da Ucrânia.

As explosões, que foram ouvidas por volta das 18h15 no centro da capital ucraniana, terão atingido uma fábrica de material militar em Lukianivka, nos arredores de Kiev.

“O ataque a Kiev chocou-me”, reconheceu o secretário-geral das Nações Unidas na primeira reação ao sucedido, em declarações à RTP.

O Governo ucraniano reagiu, de imediato, com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Dmitro Kuleba, a falar de "ato hediondo de barbárie a Rússia".

Foi o final atribulado da segunda etapa do périplo de Guterres para encontrar caminhos de paz para a Ucrânia.

De manhã, o secretário-geral da Nações Unidas visitou as cidades de Borodyanka, Bucha e Irpin, fortemente atacadas pelas forças russas e onde ocorreram, também, massacres de populações civis.

Em três momentos distintos, Guterres, de semblante consternado, partilhou as emoções que sentiu ao observar a devastação provocada pela guerra.

“Vejo as minhas netas a fugir em pânico, parte da família talvez morta”, disse o secretário-geral da ONU de passagem por Borodyanka.

“A guerra é um absurdo no século XXI, é um mal”, reforçou.

Em Bucha, a discreta cidade nos arredores da capital russa que ficou mundialmente conhecida pela morte violenta de centenas de civis, Guterres exprimiu satisfação pela atenção do Tribunal Penal Internacional a possíveis evidências de crimes de guerra na Ucrânia, apelando à Rússia que coopere.

“Não podemos esquecer que o pior dos crimes é a própria guerra”, afirmou.

Já em Irpin, Guterres sintetizou tudo aquilo que observou como “cenário horrendo” em que “os civis pagam sempre o preço mais alto”.

“Conselho de Segurança falhou”

Do terreno para os gabinetes, a tarde foi preenchida pela reunião entre o secretário-geral das Nações Unidas e o Presidente ucraniano.

Na conferência de imprensa final, Guterres admitiu que "o Conselho de Segurança falhou em fazer tudo o que estava ao seu alcance para prevenir e acabar com esta guerra".

No entanto, assegura que não desiste da paz na Ucrânia e insiste que a guerra “tem de terminar”.

No imediato, o objetivo é levar por diante a retirada de civis do complexo siderúrgico de Azovstal que tem servido como refúgio para centenas de civis e combatentes ucranianos na cidade portuária de Mariupol.

Mas dificilmente acontecerá esta sexta-feira, tal como queria António Guterres. Na entrevista à RTP, Guterres foi questionado sobre quando serão criados corredores humanitários os civis de Azovstal: “os trabalhos continuam” e “há intensas discussões”, respondeu.

O secretário-geral sublinhou, também, que se trata de uma missão “extremamente complicada”, porque os civis “vão ter de atravessar uma das linhas de confronto que neste momento existe”.

Do lado ucraniano, Zelensky diz confiar que será possível “resolver com sucesso” esta crise e não tem dúvidas de que Guterres “já viu aquilo que as forças ocupantes fizeram aos ucranianos, um genocídio".

O Presidente ucraniano assegurou, ainda, que está disposto a negociar para garantir a retirada dos civis" de Azovstal, mas chamou a atenção para o que diz ser “a deportação ilegal de cidadãos ucranianos para a Rússia", uma vez retirados das zonas de conflito.

Gás russo ainda tem clientes. Bruxelas investiga

A Comissão Europeia alertou esta quinta-feira os compradores de gás russo que estarão a violar as sanções europeias a Moscovo, caso não revertam os pagamentos de gás em rublos.

Depois de ontem se ter sabido que haveria pelo menos quatro empresas energéticas que estariam a adquirir gás russo segundo as exigências de Vladimir Putin, hoje soube-se que pelo menos, duas empresas europeias, uma alemã e outra austríaca, confirmaram conversações com a Gazprom para a realização de pagamentos, mas em euros, cumprindo, assim, as sanções da União Europeia.

De acordo com a CNN International, a alemã Uniper admite que "continuará a pagar em euros" e que está em conversações com a Gazprom sobre as modalidades de pagamento.

Já a austríaca OMV diz ter analisado “o pedido da Gazprom sobre os métodos de pagamento" no quadro das sanções europeias e assegura que está a trabalhar "numa solução compatível com as sanções”.

Os compradores do gás da Rússia são obrigados a depositar euros ou dólares numa conta no Gazprombank que os converte em rublos, colocando os rendimentos noutra conta do comprador estrangeiro que transfere o pagamento em moeda russa para a empresa estatal de gás da Rússia.

Ursula von der Leyen já disse que a abertura de contas em rublos no Gazprombank pode, por si só, representar uma violação das sanções comunitárias.

No entanto, após a suspensão do fornecimento à Polónia e à Bulgária, a Gazprom disse, esta quinta-feira que Varsóvia continua a adquirir gás russo à empresa, através da Alemanha e o chanceler alemão, Olaf Scholz, justificou a continuação da compra pela Alemanha de gás e outros combustíveis fósseis à Rússia com o tempo necessário para encontrar outros fornecedores.

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