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Crónica

Uma campanha de Outono/Inverno

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02 out, 2015 - 13:53 • Joana Bourgard e Dora Pires

Por trilhos e atalhos, as jornalistas Dora Pires e Joana Bourgard percorreram o país à procura das histórias que não cabem nas caravanas dos partidos. Este é um resumo, em jeito de crónica, do que viram.

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Cada vez é mais arriscado sair à rua. Sobretudo se o político está ou pode vir a estar no poder. O maior perigo não é ser-se maltratado ou agredido. É ficar sozinho.

A regra de ouro de uma campanha não é ter banhos de multidão a cada passo, é parecer que tem.

Esta campanha eleitoral fez tantos quilómetros como as outras, mas, mesmo com boas estradas e bons carros, não chegou a todo o país. Alentejo e Algarve, por exemplo, ficaram praticamente a descoberto. Já para não falar no miolo do país.

Os partidos têm radares que lhes mostram onde vale a pena apostar: onde podem fixar ou ganhar eleitorado que se traduza em deputados.

A campanha eleitoral alimenta-se de gente, mesmo que sejam quase sempre os mesmos, de terra em terra, atrás das caravanas. Por isso perdeu, por exemplo, os que serão os eleitores mais persistentes do país.

Na Serra do Caldeirão, no Algarve, as dezenas de idosos que mantêm a imensa área povoada e que votam sempre. Ao contrário do que se poderia pensar, não têm dúvidas. Alguns não têm televisão. Será que uma coisa tem a ver com a outra?

Estes algarvios decidiram há muito tempo as suas opções partidárias. A maioria acha que um homem "ainda é novo" aos 70 anos. Votam com a certeza das memórias que guardam de Soares, de Eanes, de Cunhal e sobretudo, de Salazar. Mesmo com a garantia de uma deslocação semanal a S. Brás de Alportel, no autocarro da câmara, o último político que viram ao vivo foi Cavaco Silva.

É assim em muitas zonas de população idosa – no fundo, a maior parte do território. Por exemplo, em Sardoal, o concelho que mais votou nas últimas legislativas. Descobrimos que o segredo não está nos candidatos actuais, é a câmara que há muito trata os idosos na “palminha das mãos".

Em Melgaço, distrito de Vila Real, o punhado de eleitores bate o recorde inverso. Não há quem os convença a votar. Partem todos para longe, mal podem. Os que ficaram não se interessam por quem não lhes passa cartão.

São casos raros, mas também existem, os de quem deixa a capital para viver no interior. Em vez de emigrarem, aproveitam apoios locais para recomeçar a vida. Em Aljustrel, se não for um mineiro, parece ainda mais estranho. Até conhecermos a microempresa que criou uma aplicação para telemóvel para ajudar eleitores indecisos. Também pode ser útil aos partidos. Nenhum deu por ela.

Em Vila Real, a explicação para tanto país à margem da campanha chega de quem menos se espera. Num comício, no local onde cresceu, Passos Coelho desabafa: "As pessoas têm a sua vida. As pessoas não andam a seguir tudo o que se diz, a ouvir os comentadores fora de horas, a ler as análises..."

Em todos os comícios há sempre quem perca mais tempo a olhar para o aparato da comunicação social do que para o palco e para a razão de estarem ali. É irresistível.

Mal se acende um foco de luz, logo os militantes se juntam à volta do líder, a fingir que são muitos mais. Basta agitar muito as bandeiras e gritar slogans. O ecrã de televisão enche-se com pouca gente, quando há alguém em primeiro pleno. Se é possível transmitir a imagem de multidões, para quê correr o risco de pregar no deserto?

Houve menos cartazes de rua. Houve ainda mais atenção aos pormenores da imagem a passar na comunicação social. Mas, apesar dos últimos quatro anos, foi uma campanha eleitoral como tantas outras.

As caravanas na estrada, as arruadas, os comícios, as gafes, os casos, a espuma, tanta espuma; o ruído dos bombos antes de cada comício, os animadores de multidões, as bandeiras, os cartazes, os militantes. E, à volta, um imenso cerco de indiferença.

No final, a maioria dos eleitores estarão quase como no início, ou ainda mais indecisos, segundo as famosas sondagens. É que, ao contrário do futebol, os maiores partidos só abrem o jogo sobre os programas eleitorais depois de terem o resultado na mão.

Um teste: Imagine que o partido em que vai votar já ganhou as eleições. Se o seu partido não teve maioria, sabe com quem vai formar governo? Tem a certeza que não fará parte do governo?

Agora, umas perguntas de algibeira: os impostos vão subir ou descer? Vai ser melhor ou pior o acesso à saúde? Conta com o mesmo salário ou a mesma pensão? Será mais fácil conseguir emprego? Quanto podem os combustíveis aumentar? E a água, a luz e o gás? Em resumo, consegue fazer planos para o próximo ano?

Quem conseguir responder a estas perguntas, não precisa ler mais nada. Esta crónica não é para si. Não esteve em Portugal nos últimos 15 dias.

Se está entre os que não sabem ou não respondem, é só mais um parágrafo.

Com certeza já tinha opinião sobre António Costa, Passos Coelho, Jerónimo de Sousa, Catarina Martins, Paulo Portas. É praticamente garantido que nenhum mudou em duas semanas. Porque será que ficou mais confuso depois da campanha eleitoral? É pensar nisso – e lá estaremos no domingo.

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  • Frederico Sousa
    17 dez, 2015 Melgaço 16:04
    "Em Melgaço, distrito de Vila Real, o punhado de eleitores bate o recorde inverso. Não há quem os convença a votar. Partem todos para longe, mal podem. "Veja lá o longe que partimos os de Melgaço, que saímos do distrito de Viana do Castelo para Vila Real!! hahaha

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