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Na Taça de Portugal os grandes dominam, mas também tombam

31 jul, 2020 - 20:23 • Filipe d'Avillez

As histórias dos tomba-gigantes deliciam os adeptos do futebol e a Taça é também rainha neste aspeto. Mas apesar de haver histórias novas quase todos os anos, raramente o troféu foge aos museus dos três grandes.

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Olhando para as finais da última década, o clássico entre Futebol Clube do Porto e Benfica é uma anomalia, como foi a da época passada, entre Sporting e FCP. A última vez que dois dos três grandes se tinham confrontado na final da Taça tinha sido em 2008, quando o Sporting venceu o Porto por 2-0 após prolongamento.

A Taça é considerada, e justamente, a prova mais democrática do futebol português. Não só permite que clubes de diferentes divisões – que noutras circunstâncias jamais se encontrariam em campo para jogos oficiais, se confrontam – como tem uma lista de vencedores muito maior que os cinco da Liga, seja qual for a designação que tenha tido ao longo da história.

Para além de Benfica, Porto e Sporting, só Belenenses e Boavista venceram – e cada um apenas uma vez, em 1946 e 2001 respetivamente – o principal troféu do futebol português.

Já a lista de vencedores da Taça conta com os nomes de 16 clubes, incluindo os vencedores do Campeonato de Portugal, prova que existiu entre 1921 e 1938 e que depois viu mudado o formato e o nome para Taça de Portugal, com a criação da Liga.

Mas a maior democraticidade da Taça não deve iludir os incautos. Também esta prova é coutada quase exclusiva dos grandes, que em conjunto já venceram 71 das edições da Taça, nas suas duas encarnações. O Benfica lidera a contagem com 29 (26 sem contar o Campeonato de Portugal), seguido de Sporting com 21 (17) e Futebol Clube do Porto com 20 (16). Atrás, a uma grande distância, estão o Belenenses com 6 (3), o Boavista com 5 e o Vitória Futebol Clube – de Setúbal – com 3.

Braga e Académica têm dois troféus cada e depois há uma lista respeitável de clubes que só venceram uma vez, incluindo mais recentemente o Desportivo das Aves, mas também o Estrela da Amadora, o Beira-Mar, o Leixões e o Vitória Sport Clube, de Guimarães. Entram ainda nesta lista o Olhanense, o Carcavelinhos e o Marítimo, que venceram uma edição cada do Campeonato de Portugal.

Olhando para a listagem das finais da Taça, o mais comum é ver lá um dos três grandes, mas é muito frequente que confrontem clubes considerados mais pequenos. Em toda a história da prova só houve dois anos seguidos, em dois períodos diferentes, sem que um dos grandes pisasse o relvado na final. Foi em 1976 e 1977, com um Braga – Vitória Futebol Clube e um Vitória Futebol Clube – Académica, e em 1926 e 1927, com o Marítimo – Belenenses e o Belenenses – Vitória Futebol Clube. Curiosamente, os sadinos protagonizaram três destes quatro jogos.

O número de anos seguidos sem um dos grandes vencer a prova também é escasso, apenas três, quando Setúbal, Braga e depois novamente o Setúbal venceram a Taça entre 65 e 67.

Democracia, até certo ponto

Temos democracia, portanto, mas sem exageros. Até ao momento a Taça de Portugal nunca foi ganha por um clube de divisão inferior e só por quatro vezes é que um clube da segunda divisão chegou ao Jamor.

O primeiro desses clubes foi o Estoril Praia, em 1944. Do outro lado do campo apanhou um Benfica forte que, sem meias-medidas, tratou de garantir a maior goleada de sempre de uma final da Taça, vencendo por 8-0.

Em 1990 foi a vez do Farense, numa rara final sem grandes, mas que foi vencida pelo Estrela da Amadora por 2-0, depois de recurso à finalíssima, tendo o primeiro encontro ficado empatado 1-1.

Seguiu-se o Leixões, em 2002. Os matosinhenses invadiram o Jamor e sonharam, mas um golo do inevitável Jardel garantiu a dobradinha ao Sporting, num jogo que serviu de mote ao documentário “És a Nossa Fé”, de Edgar Pêra. O próprio realizador, adepto do Sporting, admitiu no livro “Rumo ao Jamor”, publicado em outubro de 2019, que ficou de tal forma admirado pelos adeptos do Leixões que queria que o clube do Norte vencesse. Não foi nesse dia, porém, que o emblema de Matosinhos repetiu o feito de 1961, de que falaremos mais à frente.

Por fim, o Chaves em 2010, que não resistiu a um Futebol Clube do Porto que acabou por levantar o troféu depois de vencer por 2-1.

Tomba-gigantes

Mas voltemos ao tema dos tomba-gigantes. O termo carece de definição precisa, mas basicamente refere-se a qualquer vitória de um clube contra outro que é de divisão superior ou, sendo da mesma, é considerado claramente favorito.

Não haverá clube da primeira liga que não tenha sentido o dissabor de uma eliminação surpresa da Taça e a situação tornou-se ainda mais comum desde que ficou determinado que as equipas da primeira e segunda liga jogam a primeira eliminatória em que participam na condição de visitante, contra clubes de divisões inferiores.

Benfica, Sporting e Porto todos já sofreram derrotas consideradas humilhantes na altura, com o Sporting a fazê-lo mais recentemente, na presente edição, quando foi eliminado logo na terceira eliminatória pelo Alverca, atualmente a jogar no terceiro escalão, o Campeonato de Portugal.

Este ano foram portistas e benfiquistas que ficaram a rir, mas no passado recente ambos já estiveram na mesma posição. Em janeiro de 2007 o Porto recebeu o Atlético Clube de Portugal, na altura na segunda divisão, e para espanto de todos acabou derrotado por 0-1.

Pouco mais de três anos antes tinha sido a vez do Benfica cair, em casa, às mãos do Gondomar, também por 1-0. O golo – um livre soberbo – foi marcado por Cílio Souza, do Brasil. No final os adeptos exigiram a cabeça de Jesualdo Ferreira, que lhes foi entregue pelo presidente Manuel Vilarinho.

Sem contar apenas as derrotas contra clubes de divisões inferiores, há também uma lista assinalável de tomba-gigantes nas finais da Taça. Desde o início do Campeonato de Portugal já houve 57 finais entre um dos três grandes e outros clubes, incluindo, para o efeito, clubes como o Boavista e o Belenenses, que já tiveram uma influência e uma força desportiva de que não gozam no presente. Em apenas 17 dessas ocasiões foi o clube mais pequeno que venceu.

Uma das vitórias mais surpreendentes terá sido mesmo a do Desportivo das Aves, contra o Sporting, em 2018, num final de época absolutamente desastroso para os leões, com o ataque a Alochete a marcar de forma indelével o ambiente em Alvalade antes do jogo.

Mas se recuarmos a 1961 encontramos outra vitória com história de tomba-gigante que na altura abalou o mundo do futebol. O Leixões chegou à final da Taça contra o Futebol Clube do Porto. O FCP alegou que não fazia sentido jogar-se a final no Jamor quando ambos os finalistas eram do norte, e uma vez que o estádio com melhores condições na região era o das Antas, o jogo ficou marcado para a casa do Porto, para espanto dos matosinhenses.

Não obstante a dificuldade, os “Bebés do Mar” conseguiram vencer o jogo por 2-0. Em Matosinhos ainda se conta como foi esse jogo que determinou que os portistas passassem a ser conhecidos como “cabeçudos” pelos adversários, uma vez que no exterior do estádio estavam bonecos – vulgos “gigantones” – para uma festa portistas que nunca chegou a acontecer. Os Leixonenses, vendo os bonecos, entraram neles e gozaram o prato.

Conta-se também que o troféu não foi entregue imediatamente ao Leixões porque já tinha sido inscrito o nome do Futebol Clube do Porto – embora as imagens da época o pareçam desmentir – e o jornal “Norte Desportivo” chegou a sair com notícia da vitória do clube da casa.

Foi também o FCP a vítima na única vitória do Olhanense, logo na primeira edição da prova, um título de que os algarvios muito se orgulham. O Porto seria vítima mais duas vezes de clubes considerados mais modestos, com derrotas para o Boavista em 1992 e, mais recentemente, para o Braga em 2016.

O Sporting foi protagonista vencido da vitória, em 1928, do histórico Carcavelinhos – que mais tarde se fundiu com o União de Lisboa para formar o Atlético – e 80 anos mais tarde do já referido Aves em 2018. Pelo meio ficaram outras quatro derrotas em finais, contra o Belenenses, duas vezes, e contra o Boavista e a Académica em 1933, 1960 e 1979 e 2012 respetivamente.

Mas o grande com mais derrotas na final da Taça contra clubes mais pequenos é precisamente o que mais títulos tem. O Benfica saiu derrotado pela primeira vez contra um clube que não um dos três grandes em 1939. O vencedor foi a Académica de Coimbra. Seguiram-se Boavista em 1975, Belenenses em 1989, Boavista novamente em 1997, Setúbal em 2005 e Guimarães, em 2013.

Ganham quase sempre os grandes. E depois?

A verdade é que apesar de a Taça ir quase sempre parar ao museu de um dos três grandes, isso não parece afetar o entusiasmo dos pequenos em participar na Taça, pois para muitos dos clubes, sobretudo os mais modestos, de divisões inferiores, a participação na Taça, ou o passar uma eliminatória, já é uma vitória.

Da mesma forma que seleções de países sem grande história no futebol festejam loucamente o apuramento para uma fase final do Mundial, sem sonharem vir a conquistar o troféu, clubes como o Graciosa – que na edição de 2018/19 era, a par do rival Marítimo da Graciosa, o clube que vinha de mais longe do Jamor – encaram um jogo na prova rainha, na qual apenas participaram três vezes, como um dos grandes marcos da sua história.

Se tivessem vencido o Casa Pia no Pina Manique, seria um bónus, mas a derrota por 6-0 não diminuiu a intensidade dos festejos no exterior do estádio, com jogadores e adeptos açorianos misturados a beber minis de uma geleira guardada na mala de um carro.

Isto explica-se em parte pela intensidade dos jogos da Taça, onde tem sempre de haver um vencedor e, nos últimos anos, pelo facto de a Federação ter decidido valorizar a prova, aumentando os prémios monetários para os vencedores de cada eliminatória. Atualmente passar duas ou três rondas, para clubes de divisões inferiores, já representa uma significativa bolsa de oxigénio em termos financeiros.

Depois, sim, há sempre a esperança num milagre. Os adeptos do Aves, por exemplo, não sonhavam com o que viria a acontecer quando na primeira eliminatória venceram o Vila Real, nem depois quando ganharam ao Leiria ou quando golearam, fora, o União da Madeira por 1-5.

O milagre só começou a ganhar forma quando nos quartos de final se percebeu que não havia tubarões entre eles e o Jamor, onde acabariam por vencer o Sporting. Essa vitória está marcada na história do clube e na pele de alguns adeptos, e as memórias da vitória sobrevivem a todas as crises, incluindo a presente.

No sábado não haverá tomba-gigantes em Coimbra, para onde a final foi desviada por causa da pandemia. Mas o facto de esta final se disputar entre dois dos três grandes em nada vai resfriar o entusiasmo de milhares de adeptos de clubes mais “pequenos” que dentro de poucos meses voltarão a vibrar com as emoções da prova rainha.

São só 1.600 quilómetros até ao Jamor
A aventura da participação do Graciosa Futebol Clube na Taça, acompanhada pela Renascença
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