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Juan Gabriel Vásquez: "Tristemente, nós os escritores temos poucas obsessões"

15 mar, 2023 - 21:32 • Maria João Costa

“Canções para o incêndio” é o novo livro do escritor colombiano. Na obra reúne um conjunto de contos que em comum tem as temáticas da violência e da memória. À Renascença, Juan Gabriel Vásquez admite que são as mesmas “obsessões” que têm nos seus romances.

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Foto: Ricardo Maldonado Rozo/EPA
Foto: Ricardo Maldonado Rozo/EPA
Juan Gabriel Vásquez venceu em 2018 o prémio Correntes d
Juan Gabriel Vásquez venceu em 2018 o prémio Correntes d'Escritas. Foto: CM Póvoa de Varzim

Fala numa voz doce e pausada. Nada deixa antever o tom telúrico que imprime à sua escrita. Juan Gabriel Vásquez é assumidamente uma das novas vozes literárias da América Latina. Em Portugal publicou agora o seu livro de contos. “Canções para o incêndio” (ed. Alfaguara) reúne um conjunto de contos que, em comum, tem os temas de “obsessão” da escrita de Vásquez, a memória e a violência.

Em entrevista ao Ensaio Geral, da Renascença, o autor colombiano refere que “quase todos os contos nascem de encontros reais, de pessoas que contaram as suas histórias”, mas também de histórias que ouviu por acaso.

“É essa capacidade para concentrar-se nos mistérios de uma vida alheia e de tentar investigar para saber o que está por trás daquilo que vemos” que lhe interessa ao escrever estes contos, diz o autor, que em todos tem “um investigador que questiona e investiga a vida de outros”.

Entrevistado aquando da sua passagem pelo encontro de escritores de expressão ibérica Correntes d’Escritas, Juan Gabriel Vásquez explica que “o livro é composto por contos escritos em diferentes épocas, mas têm em comum uma estratégia”.

Cheios de intensidade, este livro lê-se como se escutássemos um disco. A cada canção, uma história. “Canções para o incêndio”, diz-nos o autor, tem “dois temas que cruzam” nas suas páginas.

“Um é a violência. Todos os contos ocupam-se de um momento em que a violência passa ao pé dos personagens ou afeta-os diretamente. E há violências grandes como a guerra. Há um conto sobre um grupo de veteranos colombianos que vai para a guerra da Coreia. E há violências mais íntimas, como a de uma mulher que é vítima de uma violação ou de uma agressão. A outra grande obsessão é a memória”.

Ao que descreve o escritor que já venceu vários prémios, “todos os contos partem de um presente e há uma personagem que recorda algo que trata de iluminar o passado, de entender as razões pelas quais a vida tomou aquele rumo”.

Segundo Vásquez, “os contos partilham das mesmas obsessões” dos seus romances. “Todos os meus romances falam do mesmo. Tristemente, nós os escritores temos poucas obsessões”, diz a rir.

Numa escrita onde a violência surge em surdina, Juan Gabriel Vásquez fala da exigência da escrita de um livro de contos em comparação com a maratona do romance.

“Acho que não há nada tão exigente como um grande romance. O romance é intelectualmente e fisicamente de uma exigência que não tem paralelo. Mas o conto tem esta capacidade de captar um momento que nos muda a vida, um instante em que percebemos algo sobre nós próprios, sobre os mistérios dos outros, sobre a nossa condição humana tão difícil de entender por vezes”.

Recorrendo a outro grande escritor, Vásquez explica: “O romance é algo muito grande e deixa pontas soltas no meio das suas malhas. O conto, ao contrário é mais intenso. É como dizia o escritor argentino e contista Júlio Cortázar. O romance ganha o combate por pontos, o conto deve ganhar por ‘knock-out’”

“Canções para o incêndio” está editado em Portugal pela Alfaguara. A tradução é de Guilherme Pires.

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