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Falta de professores. Grupo de trabalho quer agilizar acesso a mestrados que habilitam a dar aulas

08 jul, 2022 - 00:19 • Fátima Casanova

A ideia é captar para os mestrados de via de ensino os licenciados nas áreas das Ciências, Matemática, História, Português e Estudos Sociais, avança à Renascença a professora Carlinda Leite, coordenadora do grupo de trabalho. Ao mesmo tempo propõe recuperar alunos que tenham abandonado os cursos para a docência.

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Agilizar as condições de acesso aos mestrados que habilitam a dar aulas, é uma das apostas do grupo de trabalho criado pelo Ministério da Educação para resolver o problema da falta de professores em Portugal.

A ideia é captar para os mestrados de via de ensino os licenciados nas áreas das Ciências, Matemática, História, Português e Estudos Sociais, avança à Renascença a professora Carlinda Leite, coordenadora do grupo de trabalho.

Ao mesmo tempo propõe recuperar alunos que tenham abandonado os cursos para a docência.

O diagnóstico está bem definido: o sistema de ensino debate-se com a falta de professores em vários grupos disciplinares, especialmente na área metropolitana de Lisboa e no Algarve.

De resto, colocar mais docentes nas escolas foi uma das prioridades assumidas pelo ministro da Educação mal tomou posse, em março. Apesar da contestação sindical, João Costa alterou as regras para atrair mais professores contratados, no decurso do terceiro período letivo.

Mais recentemente, em junho, o ministro anunciou na Renascença a constituição de um grupo de trabalho “para rever os modelos de formação inicial de docentes”.

Uma das primeiras propostas do grupo de trabalho prevê captar licenciados, sem ser da área da docência, para os mestrados de via de ensino, avança à Renascença a professora Carlinda Leite, coordenadora do grupo de trabalho.

Esta especialista em políticas educacionais diz que o grupo de trabalho está “a trabalhar a curto prazo, as condições de ingresso nos mestrados, por forma a que, garantindo a qualidade, possam aceder candidatos que ofereçam condições para um bom exercício profissional”.

Para atingir este objetivo é preciso mexer no decreto-lei 79 de 2014, uma “alteração cirúrgica”, sublinha Carlina Leite, “que permita que licenciados, sem ser da área da docência, possam ingressar em mestrados de ensino”.

Depois do processo de Bolonha, em 2014, a formação para o exercício da docência passou a ser obtida apenas no mestrado. Para educação pré-escolar, 1.º e 2.º ciclos é necessária licenciatura em formação básica. Para o 3.º ciclo e Secundário é preciso ter uma licenciatura focada no domínio específico da área disciplinar a que os futuros professores vão estar associados.

No fundo, trata-se de “recuperar boas medidas que existiram e que tiveram bom resultado antes de 2014” e que previam que para o acesso aos mestrados em educação pré-escolar e 1.º e 2.º ciclo do Ensino Básico “acedessem candidatos com outras licenciaturas que não apenas a educação básica”.

De acordo com Carlinda Leite, o documento com esta proposta está a ser ultimado com a colaboração das instituições de ensino superior públicas e privadas.

Reconversão profissional e chamar desistentes

Para além da intervenção na legislação, uma medida que se quer de curto prazo, o grupo de trabalho está a estudar outras soluções para colocar mais professores no sistema de ensino, revela Carlinda Leite, em declarações à Renascença.

As soluções em cima da mesa:

  • Criação de outros mestrados, que “possam fazer uma reconversão da formação que os candidatos tiveram à partida”.
  • Dialogar com instituições de ensino superior “para que organizem medidas que possam captar mais estudantes com perfil adequado ao futuro exercício da docência”.
  • Tentar recuperar estudantes que abandonaram os cursos para a docência. Segundo Carlinda Leite, “estão a tentar identificar quem são”.
  • Atualização para “pessoas que têm a formação, mas que não entraram no sistema ou que o abandonaram”. Carlinda Leite defende “uma formação didática, uma atualização específica para estas pessoas”.
  • Captar mais jovens para as licenciaturas de ensino. Trabalho que tem de ser feito pelas instituições de ensino superior, com “campanhas de marketing específicas”. Carlinda Leite diz que o Ministério da Educação “espera que as instituições se organizem para captar mais jovens para o ensino”.
  • Instituições de ensino superior têm de “captar mais recursos para conseguirem formar o número de professores de acordo com as necessidades”. Carlinda Leite entende que “se o número de vagas que está instalado não for ampliado, vai manter-se a falta de professores”.
  • Tentar que “haja uma sequencialidade licenciatura-mestrado”, ou seja, informar os estudantes das possibilidades de mestrado para a habilitação da docência, “mesmo que essas possibilidades sejam fora da instituição”.

“Progressão da carreira docente tem muitos obstáculos”

Não faz parte da competência deste grupo de trabalho avaliar o estatuto da carreira docente, mas Carlinda Leite aproveita a oportunidade para admitir que “os problemas da carreira são enormes”.

A especialista em políticas educacionais diz que “a progressão na carreira em Portugal tem muitos obstáculos”, salientando que “tem tantos” (obstáculos), que “faz com que os professores com muito tempo de serviço continuem como se estivessem no princípio da carreira”.

E é neste contexto que Carlinda Leite salienta que “não é uma profissão que seja muito bem paga”. Ressalva que “comparando com outros países a diferença não é tão grande”, mas como é difícil progredir na carreira, professores que estão há vários anos na profissão continuam a receber como se estivessem no início.

Carlinda Leite deixa escapar também críticas ao processo de colocação de docentes, que “coloca professores distantes da sua residência, por vezes, onde o alojamento é de tal forma caro, que um vencimento de um horário, que muitas vezes não é completo, consegue comportar.

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  • Cidadao
    08 jul, 2022 Lisboa 11:52
    Citando: "Carlinda Leite aproveita a oportunidade para admitir que “os problemas da carreira são enormes”. Vá lá, não são cegos, são apenas teimosamente estúpidos. Alguém acredita que conseguem ter mais professores enquanto a carreira docente continuar como está, que é nem atrativa nem compensadora do ponto de vista financeiro?

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