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Rui Vitória sobre o futebol português. "Ultrapassámos limites, não há tolerância nem compreensão"

03 jun, 2019 - 18:59 • Redação

Na I Conferência Bola Branca, o ex-treinador do Benfica considera que o ambiente do futebol em Portugal não é saudável e considera que o país está a "desperdiçar uma das suas áreas com mais rentabilidade”. Rui Vitória conta a sua experiência na Arábia Saudita: "fui ver um jogo ao campo do rival e só não me estenderam a passadeira vermelha porque não calhou".
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Rui Vitória considera que o ambiente no futebol português não é saudável, foram ultrapassados limites e é fundamental que quem manda se sente à mesa e tome decisões. O treinador falava na I Conferência Bola Branca, no auditória da Renascença, em Lisboa.

O antigo técnico de Benfica e atual líder do Al Nassr, da Arábia Saudita, aponta pistas para melhorar o futebol nacional.

“Há muita coisa que teremos de equacionar, mas há um aspeto comum nas conversas que tenho tido com pessoas no estrangeiro: quem está em França e Inglaterra diz que o ambiente é muito mais saudável. Na Arábia Saudita senti que é muito mais saudável. Na forma como as pessoas olham para o fenómeno, há um momento a partir do qual não passamos, discute-se, há uma grande rivalidade, nas redes sociais, mas as pessoas vão aos estádios e estão ao lado uma das outras com as bandeiras”, afirma Rui Vitória.

O treinador conta como foi a experiência de ir ver um jogo ao campo do Al Hilal, o rival do Al Nassr: “só não me meteram a passadeira vermelha porque não calhou. Chazinho e tal… Ao campo do rival na véspera de jogar com o Al Hilal… Isto era aqui quase inconcebível”.

“É este ambiente que não é saudável e que se vai verificando que nos outros países há essa parte saudável. É fundamental que as pessoas se sentem à mesa e conversem sobre isto, se calhar à porta fechada, e decidir um conjunto de coisas que têm de ser feitas”, defende Rui Vitória.

Portugal desperdiça "uma das áreas com mais rentabilidade”

O treinador português considera que Portugal está a "desperdiçar uma das suas áreas com mais rentabilidade”, numa referência à "indústria" do futebol.

“O que seria isto dos jornais, das televisões, dos transportes, dos agentes, do senhor das bifanas, dos carteiristas (risos)… O que seria disto sem futebol. E deixarmos andar isto em roda livre, tem que se parar”, alerta.

Rui Vitória diz que a questão da cultura desportiva “é determinante, mas não vai mudar agora”. +E um projeto de longo prazo. “As crianças têm de ser ensinadas a gostar de futebol, e não do seu próprio clube”.

Também são precisas “regras firmes nas decisões a serem tomadas”, sublinha.

“Quando fui para a Arábia Saudita, disseram-me para não falar dos árbitros e organização, mas pensei que era melhor estar parado, apesar de a uma sexta-feira não saber onde iria ser o jogo no domingo. Um jogador se pisa, o árbitro não viu, há logo castigo. Preocupam-se com a credibilização", compara.

“Ultrapassámos limites, não há tolerância, não há compreensão"

Questionado sobre o clima de agressividade na comunicação entre os clubes portugueses, Rui Vitória considera que é imperioso mudar o paradigma.

“Ultrapassámos limites, não há tolerância, não há compreensão. Esta questão da comunicação é fundamental. É fundamental definirmos regras”, sublinha.

“O Benfica colocou uma série de jogadores falar, ganhou e é mais fácil claro. Tem de haver regras, e não faz nada mal os jogadores e treinador sentarem com os jornalistas, mas é importante quem escreve ter esta responsabilidade, porque uma frase fora do contexto pode incendiar. Os jogadores querem falar, os treinadores também, não concordo com este fecho da comunicação em Portugal", defende Rui Vitória.

Em Portugal os clubes “acham que podem influenciar a arbitragem”

O técnico, bicampeão nacional ao serviço do Benfica, elogia os árbitros portugueses e lamenta a pressão e consequências de uma má ação durante uma partida.

"Já convivi com muitos árbitros e acho que os nossos são bons, não são todos claro, mas ninguém resiste a este clima que existe. Sentimos a dificuldade de tomar uma decisão num segundo. Ninguém está preparado para tudo o que envolve a arbitragem, sem ser arbitrar um jogo. O problema está que os clubes acham que podem influenciar a arbitragem, e é permitido. O árbitro não consegue fugir desta teia".

Os programas televisivos sobre futebol foram alvo de crítica durante toda a conferência, opiniões sublinhadas por Rui Vitória. "Não tenho nada contra que as pessoas falem, mas custa-me ouvir alguns discursos com um "pseudo" conhecimento de causa, até fico a pensar que não percebo nada de futebol. Eu não teria a coragem de falar de outra modalidade qualquer, que tenho conhecimento, quanto mais de outra área. É um dos problemas, sim, é uma parte pouco saudável".

Rui Vitória deixou ainda conselhos em relação à recalendarização da Taça da Liga, para evitar a condensação de jogos durante o mês de janeiro, e elogia o trabalho na formação do Sporting e FC Porto: "O FC Porto foi campeão da Youth League, campeão da II Liga, o Sporting tem uma linha de jogadores atrás, que pergunto se não se aproveita nenhum?", questionou.

Sobre João Félix, a jovem estrela do Benfica que despertou interesse de clubes estrangeiros, Rui Vitória defende que "a grande qualidade é para manter, se possível".


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