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Da "vitória clara" à "grande vitória" passando pela "vitória esmagadora" do PS

27 mai, 2019 - 02:26 • Susana Madureira Martins

Depois da vitória eleitoral nas europeias, António Costa quer entrar "em campo" nas legislativas para ganhar e afasta "grande coligação" com o PSD. Quanto a Pedro Marques tem qualidades para ser tudo "o que desejar", inclusive comissário europeu.
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Se esta foi a campanha de um cabeça de lista a ser levado ao colo pelo líder do partido durante o tempo todo, com António Costa quase sempre presente, a noite eleitoral foi exatamente o espelho disso. A sala “Londres” do hotel Altis, em Lisboa, estava preparada com um palanque e duas tribunas. Ou seja, percebeu-se desde logo que António Costa, qualquer que fosse o resultado, não iria deixar Pedro Marques a falar sozinho. E assim foi.

Depois de todos os líderes partidários falarem, Costa e Marques entraram em cena.

Mas, antes disso, o partido multiplicou-se em declarações, já a prenunciar os resultados finais. Primeiro, o diretor de campanha, João Azevedo, para lamentar os números da abstenção; depois, o estado-maior socialista começou a tomar posições e a subir o tom com que falava da vitória eleitoral.

Ana Catarina Mendes, secretária-geral adjunta do partido, adotava a fórmula “português suave” de que a "confirmar-se" as projeções das televisões se tratava de uma "clara vitória" do PS.

Depois, foi a vez de Carlos César, o presidente do partido, a não poupar nas palavras e dizer que esta se trata de uma "grande vitória" do PS e uma "grande derrota" eleitoral de PSD e CDS, já a atirar o discurso para as próximas eleições com uma piscadela de olho ao PAN pelo meio.

A verdade é que este tom foi usado ao longo de toda a campanha para estas eleições europeias. O cabeça de lista Pedro Marques disse em todos os comícios, e por várias vezes, em cada um deles, que o PS teria "uma grande vitória eleitoral". A fórmula foi usada até à exaustão e nesta noite eleitoral ninguém se poupou nos adjetivos.

As horas iam passando e a sala ia-se enchendo à medida que os resultados oficiais apareciam e a vitória ficava mais sólida. A cada projeção das televisões os militantes rebentavam aos gritos "PS, PS" e batiam palmas.

A dada altura o nono eurodeputado estava eleito e um socialista desabafava: "assim está bom", quando percebeu que podia estar a disputar um eventual décimo lugar com o segundo da CDU, de Jerónimo de Sousa.

E foi quando o líder do PCP falava que António Costa e Pedro Marques apareceram juntos para os discursos. Subiram juntos para o palanque. Primeiro falou o cabeça de lista, com discurso escrito, e a seguir o secretário-geral do PS, que trazia apontamentos numa folha escrita à mão. Ambos se mostraram largamente disponíveis para responder às perguntas dos jornalistas, que andaram muito à volta de "e agora?"

Daqui a meses, em outubro, há eleições legislativas. Há sondagens que dão vantagem ao PS em relação ao PSD, mas Costa avisa que "as legislativas não se ganham com sondagens, mas com votos nas urnas", para depois usar a linguagem futebolística.

Para o líder do PS, ganhar é ter "o melhor resultado possível. Ontem [domingo], quando disputaram a final da Taça, nem Sporting nem Porto desejavam marcar menos golos ou fixar o limite máximo de golos, cada um entrou para ganhar ou disputar até ao último penalti qual é que ia ganhar", garantindo que "é assim" que vai entrar "em campo para as eleições legislativas, é para ganhar até ao último minuto".

Costa elogiou ainda a atual solução governativa de esquerda, que "provou assegurar boa estabilidade política, não há razão para alterar o que tem produzido bons resultados" e afastou, mais uma vez, o cenário de um Bloco Central na próxima legislatura.

"A riqueza democrática está na oportunidade de as pessoas fazerem escolhas e opções políticas. Há, claramente, dois partidos que entre si criam alternativa de Governo que é o PS e o PSD e não seria saudável para a democracia - seria empobrecimento - retirar aos portugueses a oportunidade que têm em cada eleição de escolher qual é o partido que deseja que lidere a alternativa", concluiu o líder socialista.

Aqui "não se trata de estigmatizar o PSD, há várias políticas que carecem de consenso e com certeza" o PS irá trabalhar com o PSD. "Agora, não seria saudável para a democracia uma grande coligação entre PS e PSD, isso enfraqueceria a democracia", remata Costa. "Que alternativa?", pergunta o próprio secretário-geral do PS, que dá a resposta de seguida: "Em outubro veremos".

E qual vai ser o futuro de Pedro Marques, o candidato número um do PS a eurodeputado? É o que o próprio quiser, nas palavras de Costa. Durante a campanha eleitoral foram sucessivas as perguntas dos jornalistas se a ideia é fazer desta eleição um trampolim para uma pasta da comissão europeia.

António Costa não desfaz o mistério, intensifica-o. "Se a pergunta é saber se Pedro Marques tem condições para ser comissário europeu", o líder socialista diz que "é evidente para todos que Pedro Marques tem qualidades para ser o que desejar ser na Europa, em Portugal, onde quer que seja".

Portanto, sim, o cabeça de lista pode ser um dos escolhidos para a Comissão Europeia, caso o candidato dos socialistas europeus, Frans Timmermans, seja eleito presidente desta instituição.

"Depois dessa eleição terão naturalmente de ser negociados os pelouros e cada país indicará os seus candidatos em função das pastas que forem atribuídas", resume Costa.

Bom, e tendo em conta os resultados eleitorais em França, em que o partido do liberal Presidente Macron ficou atrás do partido de Marine Le Pen, e na Grécia, em que Alexis Tsipras já pediu eleições antecipadas, em que fica a "aliança progressista" que António Costa tem estado a preparar com estes dois líderes?

Foi a última pergunta dos jornalistas e o secretário-geral do PS e primeiro-ministro respondeu com especial ênfase dizendo que é sabido "que o que é sexy é falar da extrema-direita, mas a verdade é que a extrema-direita, no conjunto dos 751 eurodeputados do Parlamento Europeu, elegeu 57 deputados em 751 e essa forma de hipervalorizar aquilo que é uma ultra-minoria à escala europeia é um péssimo serviço que fazemos à democracia".

As últimas palavras de António Costa no palanque foram mesmo para se referir a "uma esmagadora derrota da extrema-direita" e "uma esmagadora vitória dos democratas e de uma maioria progressista e democrática no Parlamento Europeu".

No fim gritou-se um "viva o PS" e a sala do Altis rebentou em gritos e aplausos.


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