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Em vésperas de Brexit, Papa recorda os benefícios da integração europeia

07 jan, 2019 - 11:06 • Filipe d'Avillez

Da instabilidade na Venezuela e na Nicarágua, aos sinais positivos em África e na península coreana, Francisco passou em revista os principais acontecimentos do ano, sem esquecer os abusos sexuais e os cristãos perseguidos.
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O Papa Francisco recordou, esta segunda-feira, os benefícios alcançados pelo processo de integração europeia das últimas décadas.

Durante o seu tradicional discurso ao corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé, Francisco abordou diversos temas, mas deixou para o final uma referência ao 30.º aniversário da queda do Muro de Berlim, que se assinalará em novembro deste ano.

Numa altura em que o Reino Unido procura aprovar um plano para abandonar a União Europeia, e noutros países ressurgem discursos de tendência nacionalista, Francisco disse pediu que os europeus não se esqueçam das lições do pós-II Guerra Mundial.

“No dia 9 de novembro de 1989, caía o Muro de Berlim. Dali a poucos meses, pôr-se-ia fim à última herança da II Guerra Mundial: a lacerante divisão da Europa decidida em Ialta e a guerra fria. Os países a leste da cortina de ferro reencontraram a liberdade depois de decénios de opressão, e muitos deles começaram a encaminhar-se pela estrada que os levaria a aderir à União Europeia.”

“No contexto atual, em que prevalecem novos ímpetos centrífugos e a tentação de erguer novas cortinas, não se perca na Europa a consciência dos benefícios – sendo o primeiro deles a paz – trazidos pelo caminho de amizade e aproximação entre os povos empreendido depois da II Guerra Mundial”, disse Francisco.

O regresso dos nacionalismos é algo que preocupa o Papa, mas não apenas na Europa. Francisco dedicou uma parte importante do seu discurso aos embaixadores às tensões na comunidade internacional. “É evidente que as relações dentro da comunidade internacional e o próprio sistema multilateral no seu conjunto estão atravessando momentos difíceis, com o ressurgimento de tendências nacionalistas, que minam a vocação de as organizações internacionais serem espaço de diálogo e encontro para todos os países. Isto fica-se a dever, por um lado, a uma certa incapacidade do sistema multilateral oferecer soluções eficazes para várias situações já há muito não resolvidas, como alguns conflitos ‘congelados’, e enfrentar os desafios atuais de forma satisfatória para todos.”

“Por outro lado, deve-se à maior preponderância nas organizações internacionais de poderes e grupos de interesses que impõem as suas perspetivas e ideias, desencadeando novas formas de colonização ideológica, não raro desrespeitadoras da identidade, dignidade e sensibilidade dos povos”, disse o Papa, concluindo que alguns destes sinais fazem recordar o período de instabilidade entre as duas guerras mundiais.

Da Nicarágua à Coreia

O longo discurso do Papa serviu ainda para passar em revista os principais acontecimentos do ano, não só em termos da vida e do trabalho diplomático da Igreja, mas também a nível internacional em geral.

Francisco referiu de modo especial, e como tem feito desde o início do seu pontificado, o drama dos refugiados, agradecendo de modo particular aos países que tantos têm acolhido, destacando o Líbano e a Jordânia. Falou ainda dos promissores acordos de paz firmados no Sudão do Sul e também entre a Etiópia e a Eritreia e dos “sinais positivos” que vão chegando da península coreana.

A Nicarágua e a Venezuela, ambas adjetivadas pelo Papa como “amada”, foram mencionadas como sendo situações que o Vaticano acompanha de forma particularmente próxima e o acordo histórico entre a China e a Igreja foi também destacado. “Como se sabe, tal Acordo é fruto dum longo e ponderado diálogo institucional, através do qual se chegou a fixar alguns elementos estáveis de colaboração entre a Sé Apostólica e as Autoridades civis. Como tive oportunidade de referir na Mensagem que dirigi aos católicos chineses e à Igreja universal, já antes readmitira na plena comunhão eclesial os restantes Bispos oficiais ordenados sem mandato pontifício, convidando-os a trabalhar generosamente pela reconciliação dos católicos chineses e por um renovado ardor na evangelização.”

“Agradeço ao Senhor a graça de, pela primeira vez depois de tantos anos, todos os Bispos da China estarem em plena comunhão com o Sucessor de Pedro e com a Igreja universal”, comentou o Papa Francisco.

Houve ainda tempo, durante o discurso do Papa, para referir a preocupação com os mais vulneráveis, com o Papa a sublinhar as vítimas de abusos sexuais, sobretudo as que foram abusadas por membros do clero, e os cristãos perseguidos, nomeadamente no Médio Oriente. Francisco apelou mesmo a que estas comunidades não abandonem os seus países de origem.

“É extremamente importante que os cristãos tenham um lugar no futuro da Região; por isso, a todos aqueles que procuraram refúgio noutros lugares, encorajo-os a fazer o possível por retornar às suas casas e, em todo o caso, a conservar e fortalecer os laços com as comunidades de origem. Ao mesmo tempo espero que as autoridades políticas não deixem de lhes garantir a segurança necessária e todos os outros requisitos que lhes permitam continuar a viver nos países, de que são a pleno título cidadãos, e contribuir para a sua construção.”

O discurso do Papa ao corpo diplomático costuma realizar-se nos primeiros dias do novo ano. Juntam-se todos os diplomatas acreditados junto da Santa Sé, o que ainda deixa de fora alguns estados, como a China e o Vietname, por exemplo, países com os quais o Vaticano tem estado em diálogo precisamente para tentar estreitar as relações.

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