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Entrevista Renascença

Caso das gémeas tirou Lacerda Sales das listas do PS? Ninguém lhe explicou, ele também não perguntou

01 fev, 2024 - 06:30 • José Pedro Frazão

Não está nas listas, não pediu para não estar, a Federação Socialista de Leiria garantiu-lhe que o seu nome foi proposto à direção do PS, mas não foi convidado ou até contactado por Pedro Nuno Santos. Lacerda Sales parece resignado a auto-explicar o seu afastamento com o polémico processo das gémeas luso-brasileiras, ao ponto de defender a tese da "confluência de sensibilidades". O ortopedista que operou a maior vitória do PS em Leiria para legislativas vai voltar à bata e ao estetoscópio.

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Foram dez anos de Parlamento e Governo. António Lacerda Sales teve a seu cargo a coordenação dos temas de saúde na bancada socialista na primeira legislatura. Depois foi secretário de Estado da Saúde onde ganhou notoriedade na gestão da pandemia de Covid-19.

Natural do Bombarral, foi eleito presidente da Assembleia Municipal de Leiria, em 2021, e encabeçou no ano seguinte a lista que conseguiu obter a primeira vitória de sempre em Leiria para o PS em eleições legislativas. Com a demissão de Marta Temido, voltou ao Parlamento onde presidiu à Comissão de Inquérito à TAP.

O seu nome está no centro da investigação ao caso das gémeas luso-brasileiras que receberam um fármaco valioso em tempo recorde.

Em entrevista à Renascença, diz que lhe cabem sempre "processos difíceis", mas agora é tempo de acabar com as missões parlamentares, deixando de ser deputado, sem possibilidade de se recandidatar pelo seu círculo eleitoral de sempre.

Ficou surpreendido por não fazer parte das listas do PS para a próxima legislatura?

Não, não fiquei nada surpreendido. Faz parte de um processo perfeitamente normal em política. Haver mudanças, dar oportunidade a outras pessoas de serem representantes da Nação é perfeitamente normal. Estamos a meio de um processo eleitoral e pretendo sempre fazer parte das soluções e nunca dos problemas. Portanto, para mim, não foi nada de anormal.

Mas alguém lhe deu uma justificação?

Não, mas também não tinha que o fazer. Por razões pessoais, também até circunstanciais que têm a ver com o processo que estava a decorrer, por uma questão também ética e deontológica, por um lado, até achei bem em não fazer parte das listas.

"O presidente da Federação de Leiria telefonou-me e disse-me que iria indicar o meu nome"

Mas não foi pela sua iniciativa.

Não. Provavelmente, o secretário-geral, digo eu, sentindo o mesmo... Diria que houve uma partilha de sensibilidades nesse aspeto e, portanto, também não tive esse convite. De alguma forma houve uma confluência de sensibilidades.

O processo [das gémeas] ainda está a decorrer e, como já disse várias vezes em diversas entrevistas, não me sinto responsável e estou de consciência perfeitamente tranquila. Mas como há um processo que ainda está a decorrer, entendo que deve haver um certo recato. E, portanto, também da minha parte há essa sensibilidade favorável a não me envolver nas listas.

Ao fim de dez anos como deputado, faz sentido parar para se fazer uma reflexão e para um tempo sabático, para poder também voltar à minha profissão, que da qual gosto muito e que também é importante. Sou médico e voltar à minha profissão é algo que faço sempre com grande alegria e motivação. Todo este processo foi um processo perfeitamente normal.

Mas sem uma palavra do secretário-geral do PS, Pedro Nuno Santos. Ninguém falou consigo. Isso não é estranho?

Como lhe digo, não me parece estranho. Acho que houve aqui uma confluência de sensibilidades e, portanto, o secretário-geral entendeu ter outras soluções.

O facto de ter apoiado José Luís Carneiro não entra nesta equação?

Eu quero acreditar que não. Até porque penso que houve alguma negociação, mas terá que fazer essas perguntas a Pedro Nuno Santos ou, eventualmente, a José Luís Carneiro. Não tendo feito parte dessas negociações, acho isso perfeitamente normal. Para mim é muito tranquilo e muito sereno.

Em declarações anteriores, admitiu inclusivamente recorrer à justiça para se defender neste caso que envolve também o seu nome. Isso seria um fator que o afastaria do mandato que geralmente confere um conjunto de imunidades? Eventualmente podia entrar em colisão com o "compromisso ético" que o Partido Socialista pode exigir aos seus candidatos.

Estamos a meio de um processo que ainda está a decorrer, dado que ainda não houve nenhuma conclusão e nem sequer fui notificado pelo Ministério Público. Aguardo a conclusão do processo da Inspeção-Geral das Atividades em Saúde, ao qual já respondi. Recorrer à justiça? Não sei ainda se o farei ou não.

Era uma possibilidade que levantou numa entrevista que concedeu sobre essa matéria.

Só sabendo quais são as conclusões primeiro destes processos, como é óbvio. Mesmo que tivesse que ir para a justiça, seria um recurso aquilo que são os nossos próprios direitos. Isso não me parece incompatível com nenhum mandato, mas isso não está sequer nem perto nem longe ainda de ser ponderado. É extemporâneo estarmos a falar nisso.

Não fica um pouco isolado, tendo em conta que, no fundo, sai "prejudicado" deste deste ponto de vista político, quando o mesmo não acontece com outros protagonistas do caso, inclusivamente dentro do Ministério da Saúde [NR: Marta Temido é candidata em quarto lugar pelo PS em Lisboa]?

Quando estou em funções, sejam elas quais forem, estou em funções pelo meu país. O que é apelativo para mim não são os cargos, são as funções. Eu gosto de executar, gosto de fazer coisas, como tantas e tantas outras pessoas gostam. Para mim, isso é encarado de uma forma muito tranquila.

Por outro lado, tenho recebido muitos telefonemas, muitas mensagens de camaradas que querem mostrar a sua solidariedade. Por isso não me sinto nada isolado, bem pelo contrário, estou aqui e estou presente. Estarei sempre disponível para o meu país, seja em que circunstâncias for e quero sempre fazer parte das soluções e nunca dos problemas.

Agora, neste momento, também entendo - e foi entendido assim - que devia voltar à minha profissão. E vou voltar durante o tempo necessário e suficiente para que possa haver conclusão desses inquéritos e depois, logo se verá, também em função disso e da minha utilidade ou não para o meu país.

Será sempre em função daquilo que seja o serviço ao meu país e que eu lhe possa prestar funcionalmente. Não como cargo, porque os cargos para mim não são importantes.

O senhor tinha a expectativa de ser também indicado pela Federação do PS de Leira como candidato nas legislativas?

O presidente da Federação telefonou-me e disse-me que iria indicar o meu nome.

Isso quer dizer que não foi aprovado na feitura final das listas.

É isso que concluo, tal e qual, conjugando também com o primeiro aspeto que lhe falei, que provavelmente houve uma confluência de sensibilidades entre a direção nacional e o que eu também penso sobre o assunto e que já lhe expliquei.

"A única coisa que posso e devo fazer é respeitar os tempos da justiça"

Gostava de ouvir a sua opinião, inclusivamente, sobre a lista do Partido Socialista por Leiria. O "número 1" é também o líder parlamentar do PS. Mas o senhor é uma figura importante do PS Leiria. Há outros nomes indicados pela Federação para esses lugares.

Tive a honra de encabeçar uma lista excelente na última eleição há dois anos. Foi a única vez em que o Partido Socialista ganhou em Leiria, com uma lista que me pareceu excelente. Fizemos um trabalho e uma campanha excelentes, onde de facto tudo nos correu bem. Ganhámos com quase 3.000 votos de vantagem sobre o PSD, que era um crónico vencedor no distrito de Leiria.

No caso destas listas, o que dita a sua excelência ou a sua qualidade são os resultados. Por isso, com a mesma serenidade de sempre, devemos aguardar os resultados. O que posso dizer é o que eu desejo. Tivemos cinco deputados e desejo sinceramente que esta lista tenha pelo menos tão bons resultados e, se possível, melhores até do que aqueles que nós tivemos há dois anos.

Se assim for, dar-lhes-ei os parabéns e, neste momento, o que mais posso fazer é desejar felicidades à lista, esperando que obtenham esses esses resultados. Com muito orgulho e honra, remeto-me a uma posição de militante de base.

Em muitos casos, observamos que os processos se arrastam, quer nas investigações internas, como nas investigações judiciais. Teme que não haja uma conclusão em breve e que se adie o andamento de um processo cuja clarificação, presumo, é do seu interesse?

Com certeza. Já lhe disse que não me sinto responsável e que estou de consciência perfeitamente tranquila e, portanto, seria garantidamente do meu interesse que seja o mais rápido e o mais célere possível.

Não gosto de comparar processos, mas estamos a falar de um caso que tem a ver com a vida de duas crianças. Seja em que processo for, parece-me que deve decorrer o mais rapidamente possível. Mas também reconheço - e conheço bem os tempos da justiça, da Inspeção-Geral de Atividades em Saúde e do Ministério Público - que muitas vezes também as dificuldades de meios que as próprias instituições têm fazem com que esses processos se arrastem.

A única coisa que posso e devo fazer é respeitar os tempos da justiça, sempre com aquele princípio da separação de poderes, respeitando as decisões e os tempos da própria justiça.

Foi notificado para ser ouvido noutra instância que não a Inspeção-Geral de Atividades em Saúde (IGAS)?

Não, não fui notificado. Em relação à IGAS, fui notificado e respondi há cerca de 15 dias. Não me parece que seja ainda muito tempo. Mas admito que para quem está envolvido seria bom que se pudesse dar conclusão a este processo o mais rapidamente possível. Mas também admito que tenham os seus tempos próprios e, portanto, há que saber esperar esses tempos.

Estaria disponível para ser ouvido noutra instância, nomeadamente ao nível do Ministério Público?

Em qualquer instância, como é óbvio. Aliás, também no Parlamento, cheguei a dizer várias vezes que faria aquilo que o Parlamento decidisse na altura, quando se pôs essa questão relativamente ao Parlamento, tal e qual como se põe em relação a estrutura inspetiva como a IGAS. Eu estarei sempre disponível, até porque, como disse, sinto-me de consciência muito tranquila e não me sinto responsável no caso em concreto. Entendo que deve haver silêncio e recato para poder deixar que a justiça faça o seu trabalho próprio.

Qual é a grande "bandeira" que o Partido Socialista deve agarrar no círculo eleitoral de Leiria neste contexto da próxima legislatura?

Isso seria uma conversa longa, porque já estou nisto há alguns anos e passei por diferentes "bandeiras". Neste momento a "bandeira" da Alta Velocidade na ferrovia é tremendamente importante para o país e também para Leiria, porque há um envolvimento também do distrito neste processo, mas parece-me a mim.

Para além das questões nacionais - da necessidade de produzir bem, de ter qualidade de emprego, da humanização e da solidariedade intergeracional numa população envelhecida - esses problemas também afetam o próprio distrito de Leiria.

Na ferrovia, o projeto que foi anunciado foi até protagonizado pelo atual líder do Partido Socialista. Em Leiria, por exemplo, o PS tem que agarrar firmemente essa "bandeira" tendo em conta a delicadeza do tema e a tendência de derrapar os prazos e um conjunto de decisões que podem depois ser adiadas?

Diria que este projeto de Alta Velocidade é crucial para o distrito de Leiria. Acho que os agentes políticos locais têm feito uma boa intervenção para pressionar para que tal aconteça. Estamos no centro do país, no sentido da faixa litoral do centro do país, entre Lisboa e Porto. Somos o sexto distrito nacional com maior peso populacional.

Com um tecido económico como aquele que Leiria tem, para que, de facto, Leiria possa continuar a ser um promotor de políticas públicas, como tem sido, para que possa continuar a ser um motor da economia nacional, quer nas exportações, quer em termos de produção, com setores e "clusters" tão importantes como aqueles que Leiria tem, acho que é fundamental que a Alta Velocidade passe por Leiria.

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  • Sara
    01 fev, 2024 Lisboa 07:55
    Quando é que os portugueses com os seus impostos vão deixar de pagar serviços de saúde a estrangeiros, que só vem cá com esses intuito?

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