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Legislativas 2022

Políticos por natureza: seis décadas de Rio e Costa

27 jan, 2022 - 21:00 • Fábio Monteiro

Costa nasceu à esquerda, Rio converteu-se à direita. Um gosta de chocolates, o outro de carros. O socialista é alguém que gosta de resolver problemas, o social-democrata gosta de reformar. A biografia de ambos converge em muitos pontos, afasta-se noutros tantos. Dia 30 de janeiro, os portugueses vão escolher qual dos dois preferem para liderar o país.

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António Costa (17 de julho de 1961) e Rui Rio (6 de agosto 1957) fazem parte da geração de políticos portugueses que era adolescente quando o 25 de Abril de 1974 aconteceu: o primeiro tinha 12 anos, o segundo 16. Ambos já tinham atividade política então, mas, dentro de casa, um era mais encorajado que o outro. Quando o pai de Rio percebeu que o filho andava “metido na política” recomendou-lhe que não se “metesse nisso", contou o líder do PSD, em 2009, numa entrevista ao “Jornal de Negócios”.

Menino do Colégio Alemão do Porto, para onde entrou com quatro anos, “neto de um comerciante abastado, filho de um comerciante abastado menos um bocadinho”, Rui Rio nasceu numa família que queria distância do Estado Novo. Mas também não queria confusões. O pai, “muito curioso, demasiado rigoroso”, considerava que Portugal “não tinha futuro” e pretendia que o filho um dia emigrasse para a Alemanha. Tal, porém, nunca veio a acontecer: Rio é de poucas viagens; mesmo durante os anos em que comandou a autarquia do Porto, só saiu do país “duas ou três vezes por ano” e em visitas oficiais.

Em todo o caso, a seriedade germânica (familiar e escolar) nunca o abandonou - pelo menos na persona pública. “Sou mais rigoroso do que a maioria em Portugal, mas menos rigoroso do que os alemães.” Por outras palavras: Rio é um alemão à portuguesa, que viu em Sá Carneiro (também homem do Norte) uma visão para o futuro do país, no pós-25 de Abril. “Se Sá Carneiro não tivesse feito um partido, se calhar tinha ido para o PS”, assumiu mesmo, em 2019.

Apesar a rigidez durante a infância, Rio teve, ainda assim, alguns escapes. Por exemplo, participou em corridas de slot cars – e ganhou quatro campeonatos. “Acho que foi a coisa para que tive mais jeito em toda a vida. Não treinava e ganhava tudo. ‘Pequenito’ ganhava mesmo aos mais velhos.” Durante a juventude, teve uma banda, praticou atletismo, tocou bateria e participou em corridas de automóveis. O apreço pelo volante ficou-lhe para a vida.

Curiosamente, também os pais de António Costa, o escritor e militante comunista Orlando Costa e a jornalista feminista Maria Antónia Palla, matricularam-no no Colégio Luso-Suíço, quando este ainda tinha três anos. Pretendiam, com isso, que o filho aprendesse alemão, já que em casa tinha o pai que dominava o inglês e a mãe o francês. E, assim, criar um poliglota. O resultado “foi trágico”: “não aprendi nem o francês nem o inglês nem com um nem com outro, e o alemão ainda menos na escola”. Costa não gostava da “disciplina” do colégio e detestou a experiência. “Tudo era antipático.” Terminada a quarta classe, mudou de escola.

Confesso sofredor de volúpia por gelados e chocolates, Costa tem um feitio mais polido do que Rio. Mas, em alguns momentos, pode ser irascível, garantem aqueles que o conhecem. Publicamente, demonstrou isso em 2019 durante a campanha para as legislativas, quando foi acusado – falsamente – por um homem de estar de férias, quando o país enfrentava os incêndios de Pedrogão. “É mentira! É mentira!”, gritou.

Costa é ateu, Rio revelou, há algumas semanas, ser um “católico não crente”. O socialista é meio-irmão de Ricardo Costa, jornalista e diretor de informação da SIC e diretor-geral de informação do Grupo Impresa, o social-democrata teve um irmão que faleceu quando tinha seis anos. O primeiro nunca pertenceu à Maçonaria, o segundo também não e tentou – sem sucesso – que os titulares de cargos políticos fossem obrigados a declarar se pertenciam a essa organização.

O atual líder do PS nasceu sob o signo da esquerda. O próprio, há uma década, afirmou: “Nasci de esquerda, como a generalidade das pessoas nascem católicas.” Os pais, que se divorciaram tinha ainda Costa um ano, marcaram-no “na formação política, na forma de ver o mundo, na sensibilidade.” A afinidade de Babush (era assim que era tratado dentro de casa) com o PCP vem do berço, por via do pai. E as reticências virão da adolescência, por causa da mãe.

O caso “República”, durante o “Verão Quente” de 1975, foi o momento decisivo para a escolha de uma trincheira política. No dia 19 de maio, a redação, onde a mãe de António Costa trabalhava, foi invadida e ocupada por gráficos e trabalhadores do jornal (ligados ao PCP), que acusavam os jornalistas de estarem a transformar o jornal num órgão afeto ao PS. “Até aí, para mim, havia dois mundos: os bons, que tinham lutado contra o fascismo, e os fascistas. De repente, tudo se tornava mais complexo.”

As circunstâncias forçaram o adolescente Costa a escolher um campo político: entre os que “tinham lutado pela liberdade e queriam a liberdade” e os que que se dispunham a “sacrificar a liberdade”. “Tivemos a felicidade de poder ver, em poucos meses, o que era uma visão totalitária da esquerda.”

Costa tinha 14 anos quando se filiou na Juventude Socialista (JS); desde cedo, foi um militante engajado: durante os anos do PREC, andou pelas ruas de Lisboa a colar cartazes. E ainda frequentava o Liceu Passos Manuel, quando, numa corrida às urnas pela direção da Associação de Estudantes, formou a sua primeira geringonça; para derrotar a lista do colega Manuel Monteiro, futuro líder do CDS, aliou-se a Miguel Portas, futuro dirigente do Bloco de Esquerda.

Propulsionado por uma “visão romântica, muito alimentada pelo Perry Mason [personagem fictícia da série televisiva homónima]”, António Costa decidiu tornar-se advogado e foi estudar Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Aí, foi aluno de Marcelo Rebelo de Sousa. (E colega dos futuros ministros Eduardo Cabrita e Pedro Siza Vieira.) “Era muito bom aluno, acima da média. Era um aluno muito rápido, daqueles que toca de ouvido”, recordou o Presidente da República em 2016.

A esgrima intelectual da advocacia, porém, nunca lhe subiu totalmente à cabeça. Em miúdo, um tio materno chamava-lhe “O Simples”. Porquê? “Tive sempre aversão, ou menos gosto, pela conceptualização. Tive sempre o maior prazer em resolver problemas. Acho que tenho jeito e alguma imaginação para o fazer. Ser ministro ou ser presidente da Câmara, a oportunidade que me dá é a de resolver problemas.”

Ainda antes de fazer 30 anos, cumprida a tropa obrigatória, entrou para o secretariado do PS pela mão de Vítor Constâncio; foi admitido na Ordem dos Advogados, em 1988, depois de estagiar no escritório de Jorge Sampaio, Vera Jardim e Júlio Castro Caldas.

Trinta anos depois, dentro do PS, ainda há quem diga que a queda de Costa para as convergências à esquerda vem da proximidade com Sampaio. Em 1989, numa coligação inédita até então, Jorge Sampaio juntou o PS e o PCP na corrida à presidência da Câmara de Lisboa, derrotando o candidato da coligação PSD/CDS-PP/PPM… nada menos, nada mais que Marcelo Rebelo de Sousa.

Dito isto, foi enquanto advogado também que António Costa se tornou conhecido da maioria dos portugueses. Para isso, contribuiu o caso Vuvu Grace, em 1994. Juntamente com Vera Jardim, o socialista conseguiu evitar a deportação de Vuvu Grace, uma jovem zairense sem documentos que havia sido detida no Aeroporto de Lisboa e impedida de entrar em Portugal com a filha pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Na época, já era deputado pelo PS. Mas voos mais altos ainda estavam distantes.

Rui Rio entrou logo em 1974 para as trincheiras: fez parte do Conselho Nacional do PPD. “Lembro-me desses tempos e era uma pessoa muito estimável”, contou Maria João Sande Lemos, amiga de Sá Carneiro e uma das primeiras militantes do PSD, à Renascença, no ano passado. O atual líder do PSD tinha 16 anos quando se filiou na Juventude Social Democrata (JSD), onde, entre 1982 e 1984, ocupou o lugar de vice-presidente da Comissão Política Nacional.

Para estudar no Ensino Superior, o social-democrata não se afastou de casa; o sonho da Alemanha ficou pelo caminho. Licenciou-se em Economia na Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Nessa mesma instituição, em 1981, venceu, pela JSD, as eleições para a Associação de Estudantes.

Logo de seguida, Rio começou a sua carreira profissional no setor privado. Primeiro, na indústria têxtil, depois na indústria metalomecânica e mais tarde no Banco Comercial Português. Foi também diretor financeiro da fábrica de tintas CIN até 1991. “Era diretor financeiro das tintas CIN, uma excelente empresa, e equacionei ir para deputado. Tive mais duas propostas de emprego. Em todas elas ganhava mais do que sendo deputado. Optei por aquilo que aparentemente era pior”, contou há alguns anos.

Então, porque tomou essa escolha? “Porque me sentia verdadeiramente entusiasmado pela causa pública e queria tentar pôr em prática algumas ideias, atitudes, formas de ver.”

Rio e Costa ganharam assento parlamentar, pela primeira vez, em 1991, após as eleições legislativas que deram a segunda maioria absoluta a Cavaco Silva. Antes, ambos já tinham um pezinho na vida política nacional. Mas este foi o momento decisivo de arranque.

“A generalidade dos dirigentes políticos do PS foram deputados muito antes de mim. Estive de 76 a 91 sem nenhum cargo político nacional. Estive 11 anos na assembleia municipal de Lisboa. Fiz um curso, exerci a minha profissão, só suspendi a atividade profissional em 95, quando fui para o Governo. Isso foi uma decorrência do resto da atividade”, disse um dia António Costa.

Em 1993, o socialista destacou-se por concorrer à presidência da Câmara de Loures; perdeu as eleições, mas deixou na memória dos portugueses uma corrida entre um burro e um Ferrari, na calçada de Carriche, para demonstrar os graves problemas de acessibilidade ao concelho. Três anos depois, foi diretor de campanha de Jorge Sampaio para as eleições presidenciais. Na época, com António Guterres no lugar de primeiro-ministro, já tinha funções governamentais: secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares.

Em 1998, no mesmo Governo, subiu a ministro dos Assuntos Parlamentares. Guterres até o convidou para ocupar a pasta da Defesa, que havia sido deixada vaga por António Vitorino, mas o socialista recusou. “Achava que não tinha capacidade, saber, experiência, maturidade, para poder exercer essas funções. Aceitei coisas que achava que tinha capacidade para exercer. Nalguns casos, com algum atrevimento.”

Costa integrou também o segundo Governo de Guterres, desta feita com a tutela da pasta da Justiça. Quando o executivo caiu e Durão Barroso chegou ao poder, voltou à Assembleia da República – e presidiu ao Grupo Parlamentar do PS entre 2002 e 2004. Depois, fez uma escapadinha europeia: foi eleito eurodeputado, nas eleições de 2004, e exerceu funções como vice-presidente do Parlamento Europeu até 2005.

O périplo por Bruxelas foi curto. Com a saída surpresa de Durão Barroso para a Comissão Europeia e a eleição de José Sócrates, o atual líder do PS regressou a Portugal para ser ministro de Estado e da Administração Interna – a terceira pasta ministerial em menos de uma década.

Por sua vez, a ascensão de Rio não foi menos meteórica, mas teve mais algumas nuances. Também em 1996, pela mão de Marcelo Rebelo de Sousa, chegou a secretário-geral do PSD. Rio foi “terceira ou quarta” escolha. Na época, o atual Presidente da República quase só conhecia Rio de nome. Mas, à distância de quase 30 anos, que importa isso?

O jornalista Vítor Matos conta, na biografia de Marcelo Rebelo de Sousa, publicada em 2012, que a primeira pessoa a sugerir o nome do deputado foi o jornalista Carlos Magno, após uma entrevista com o então líder do PSD; Marcelo ainda tentou convencer Manuela Ferreira Leite, ex-ministra da Educação de Cavaco Silva, a ocupar essa posição. Porém, não conseguiu. “Sentia-me incapaz de desempenhar uma função daquela natureza”, explicaria, mais tarde, Ferreira Leite.

A relação de Rio com Marcelo, contudo, foi breve; durou pouco mais de um ano. A rigidez com que o primeiro geria a vida interna do partido e respetivas finanças não casava com a hiperatividade e o grau de harmonia que Marcelo exigia, o que levou a críticas abertas na praça pública. “Em política, não incomoda quem quer, incomoda quem pode”, atirou Marcelo, num Conselho Nacional; palavras que fizeram manchete no “Expresso”. Dias depois, Rio demitiu-se.

A sina de possível herdeiro do trono do PSD, porém, nunca mais o largou. (Aliás, antes de chegar a essa posição em 2018, foi vice-presidente de Durão Barroso, Santana Lopes e Manuela Ferreira Leite.) O reconhecimento dos eleitores portugueses também ficou. Em 2001, após dez anos no Parlamento, o relativamente jovem trunfo social-democrata lançou-se para o lugar de presidente de Câmara do Porto. "Contra quase tudo e quase todos”, ganhou.

Parte significativa do pedigree político de Rui Rio provém de três vitórias: as maiorias absolutas que conquistou na autarquia do Porto, em 2001, 2005 e 2009. “Não caiu do céu ganhar a Câmara do Porto. Também não caiu do céu ser candidato. Tem a ver com o trajeto que fiz.” A primeira vitória foi uma verdadeira surpresa: nenhuma sondagem, durante toda a campanha, lhe dava um resultado favorável. Mesmo assim, Rio derrotou o socialista Fernando Gomes, com quem já se havia cruzado no setor privado, anos antes. Depois, Francisco Assis. E mais tarde também bateu Elisa Ferreira.

Durante a campanha de 2001, Rio teve a sua primeira (e única) filha, Marta. Na época, para celebrar a boa nova, colocou a ecografia no site da campanha. Ora, passadas duas décadas, Marta parece estar a seguir as pisadas do pai: por estes dias, faz parte da JSD. Talvez não por acaso, o mesmo ocorre com o filho de António Costa, Pedro Tadeu da Costa: desde junho de 2020 é presidente da Junta de Freguesia de Campo de Ourique, pelo PS. (Catarina Tadeu da Costa, também filha do primeiro-ministro, não tem – pelo menos, até hoje – carreira política.)

Dos três mandatos de Rio no Porto, o primeiro foi o mais “polémico e difícil”, viria a confessar. “Tinha divergências efetivas e estruturais com a governação do PS, seja com o Dr. Fernando Gomes, seja com o Eng. Nuno Cardoso. Tinha de fazer aquilo em que acredito. Senão não vinha aqui fazer nada.” Mas as maiorias absolutas sucessivas abriram-lhe caminho para aplicar as mudanças que julgava necessárias. “As pessoas associam a maioria [absoluta] a ditadura, a autoritarismo. Nada disso. A maioria absoluta aumenta-nos a responsabilidade, mas dá uma rendibilidade enorme. Se não tivesse maioria andava a discutir tudo, semana sim, semana não.”

Com o feitio “determinado” de Rio, os anos de governação portuense ficaram marcados por vários embates. Um dos mais famosos foi a recusa de deixar o FC Porto comemorar os títulos do edifício da autarquia. Outro foi a ida a tribunal a propósito do guia de restaurantes “Porto Menu” de 2012/2013; a capa era uma imagem do edifício do Bolhão, onde, num canto, se lia: “Rio és um FDP”. O então presidente de câmara não achou piada e apresentou uma providência cautelar. Por sua vez, o empresário Manuel Leitão, responsável pela publicação, impugnou a decisão e o caso seguiu para tribunal. Aí, a defesa do empresário garantiu que a sigla queria simplesmente dizer “Fanático dos Popós”.

A relação quezilenta com os órgãos de comunicação – em particular, Público e Jornal de Notícias - foi também uma das facetas de Rio enquanto autarca portuense. No discurso de vitória do segundo mandato, a 9 de outubro de 2005, afirmou: “Devo aqui muito claramente dizer que para mim os principais derrotados de hoje não são nem o PS, nem a CDU, nem o Bloco de Esquerda. Os principais derrotados estão na comunicação social que, durante quatro anos, uma semana depois de eu ter entrado só denegriram, só mentiram. Sabemos que o jornal Público desde o primeiro dia só fez oposição à Câmara do Porto. A democracia precisa de mais informação e não de desinformação. O apelo que faço é que possamos começar vida nova com mais independência e mais isenção."

Quando abandonou a liderança da autarquia nortenha, Rio voltou por um breve momento ao trabalho no setor privado: em março de 2014, assumiu funções na Boyden - Executive Search e na Neves de Almeida - HR Consulting, empresas da área de gestão de recursos humanos; no mesmo ano, integrou ainda o Comité de Investimentos do Millennium Fundo de Capitalização.

Nas presidenciais de 2016, Rui Rio namorou a possibilidade de entrar corrida. Esteve quase-quase para avançar, mas recuou a contragosto. Marcelo Rebelo de Sousa ultrapassou-o pela direita. Quando Rio anunciou que, afinal, não ia lançar-se às ruas, não se coibiu de dizer que se considerava o candidato hipotético com “as melhores condições para garantir a indispensável estabilidade e sobriedade na política nacional”.

Algo semelhante aconteceu também no Congresso do PSD no mesmo ano. Rio não compareceu nem desafiou Passos Coelho, que tinha acabado de ser fintado pela geringonça de António Costa. Mas deixou uma farpa ao então líder do PSD: “Se eu lá fosse ainda me arriscava a ser um elemento central do congresso. O Dr. Pedro Passos Coelho resolveu candidatar-se, com base em ter sido o mais votado (embora não o vencedor). Tem essa legitimidade, eu não quero perturbar.”


Em 2007, José Sócrates lançou António Costa numa demanda (e, ao mesmo tempo, afastou-o dos holofotes): reconquistar a autarquia de Lisboa. E assim o candidato-que-deixou-de ser-ministro fez. Na época, o atual líder do PS já era visto como o sucessor de Sócrates e ganhar a maior autarquia do país só viria a contribuir para aumentar a sua projeção nacional. (Ainda não se adivinhava que Sócrates viria a ser um ativo tóxico no currículo de Costa.)

Mas recorde-se: Costa e Sócrates fazem parte da mesma geração de preferiti do PS. Quando o engenheiro se chegou à frente para liderar o partido, houve ainda quem lançasse o nome do advogado para o mesmo lugar. Todavia, os cálculos internos não convenceram Costa: “Foi para mim muito evidente, quando as questões se colocaram, que ele estava em melhores condições de exercer [o poder]. A experiência revelou que isto era verdade. É uma coisa completamente pacífica entre nós.”

Na mesma entrevista em 2009, Costa afirmava até que pensava que nunca viria a ocupar a liderança do PS. “Não tenho essa ambição. Já me aconteceram várias coisas que não esperava que acontecessem, mas não vejo que isso venha a acontecer-me. E tenho dúvidas de que fosse uma boa solução, em geral e em particular.”

Nas primeiras eleições para a autarquia alfacinha, ganhou sem maioria absoluta e foi obrigado a fazer acordos à esquerda. Já no segundo mandato, conquistado em 2013, Costa atingiu mesmo a maioria absoluta. A conjuntura nacional, todavia, mudara de forma radical. Entre a saída de José Sócrates de cena, o novo Governo de Passos Coelho e a vinda da troika, o nome de António Costa voltou a ser badalado. Em particular, porque a oposição liderada à época por António José Seguro não convencia a estrutura interna do PS.

António Costa, porém, não saltou logo para o ringue. Foi apenas depois do resultado parco, que soube a “poucochinho”, do PS nas Europeias de 2014 que se chegou à frente.Consequência: Seguro e Costa bateram-se numas eleições primárias.

“Considero que António Costa foi desleal e traiu uma cultura que existe há 40 anos no PS. Foi desleal para com o líder do PS, porque assinou um acordo comigo no ano passado, teve duas oportunidades para se candidatar à liderança e, desta vez, na sequência de uma vitória do partido, rasgou esse acordo e não aproveitou essas duas oportunidades para disputar a liderança do PS”, acusou António José Seguro, num dos debates entre os candidatos a líderes do PS. Mas estas palavras de nada serviram para bloquear a onda de Costa.

Um ano depois, foi a vez do confronto Passos-Costa. Nas legislativas, a coligação Portugal à Frente, que juntava PSD e CDS-PP, teve mais votos que o PS sozinho; todavia, a maioria dos deputados eleitos estavam à esquerda.

Cavaco Silva ainda empossou Passos Coelho novamente como primeiro-ministro, mas António Costa “derrubou” o muro à esquerda: uniu, pela primeira vez desde 1974, ao nível nacional, o PS ao PCP e também ao Bloco de Esquerda, formando a geringonça, uma maioria de esquerda. Foi assim que chegou ao lugar de primeiro-ministro, aquele sítio onde dizia que não ia chegar.

Com Costa no poder, na liderança de uma solução governativa inédita, Rui Rio voltou a aparecer em cena. Durante meses, correu o país à espera de uma oportunidade. Apesar de rígido (no feitio e gestão), os anos da troika não foram do seu agrado. “Prolongada inação política”, “ausência de uma defesa firme do interesse nacional”, “irresponsabilidade política”: foi assim que Rio descreveu o período passista, num texto de opinião publicado no “Diário de Notícias” em 2014.

A dado momento, a possibilidade de Rio desertar do PSD para o PS e entrar numa corrida eleitoral como número dois de António Costa chegou a ser noticiada, mas o social-democrata acabou por desmentir esse cenário. (A proximidade entre os dois políticos não era segredo: durante alguns anos, os dois coincidiram como autarcas das maiores cidades do país. E a relação foi amistosa. Em 2008, estiveram juntos no clube Bildberg – fórum mundial famoso por apostar em personalidades com grande influência política. No mesmo ano, Costa assistiu ao seu primeiro S. João no Porto, e Rio veio à Avenida da Liberdade, em Lisboa, ver o desfile dos Santos Populares.)

Em 2017, a oportunidade de Rio no universo laranja acabou por chegar. Após uma derrota dura nas autárquicas, Passos Coelho decidiu não se recandidatar à liderança do PSD, deixando assim o lugar vago. Em 2018, Santana Lopes e Rui Rio foram os únicos social-democratas que se chegaram à frente. (Luís Montenegro e Paulo Rangel não entraram na corrida, mas, mais tarde, desafiaram Rio: o ex-líder parlamentar do PSD em 2019, Rangel em 2021, quase na rampa de lançamento para as legislativas.)

Sem nunca ser esmagador, conseguir convencer o partido na totalidade, Rio ganhou sempre. Em novembro passado, mesmo com as estruturas do lado do rival Rangel, o social-democrata conseguiu convencer os militantes que ele era o homem com mais potencial para ser primeiro-ministro.

Já na oposição, Rio não foi capaz de ultrapassar Costa nas legislativas de 2019: o PS elegeu 108 deputados, o PSD apenas 79. Mas a maré política mudou. Para isso, contribuiu a não reedição da geringonça. O primeiro-ministro não tinha como imaginar que se aproximava uma pandemia, que o percurso de recuperação financeira, que permitira o primeiro superavit desde 1974, seria soterrado nos escombros de sucessivos confinamentos.

Durante os primeiros meses de pandemia, houve convergência entre os líderes do PS e PSD: refletida, por exemplo, na aprovação do fim dos debates quinzenais com o entendimento dos dois partidos. O chumbo do Orçamento de Estado para 2022, todavia, trouxe de novo à luz as diferenças, que se tornaram ainda mais notórias em campanha. Rio quer apostar nas empresas, aliviando a carga fiscal, enquanto Costa defende a via do aumento do poder de compra das famílias. No meio dos dois, há um Plano de Recuperação e Resiliência, mais de 16 mil milhões de euros para distribuir. Dia 30, os portugueses decidem.

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