Um vestido de faturas, tricot e muitos bancos. Tudo para ver o Papa em Belém

02 ago, 2023 - 13:05 • Fábio Monteiro

Chegaram com muitas horas de antecedência, na esperança de conseguir um vislumbre do Papa Francisco. Carolina acordou a mãe às 4h30 da manhã. Teresinha trouxe o seu conjunto de tricot para ajudar a passar o tempo. Amelie cobriu-se de faturas de papel e decidiu manifestar-se.

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Foram horas de espera por um instante fugaz, um vislumbre distante do Papa Francisco, acabado de chegar a Portugal. Mas, para Carolina Sousa, valeu a pena. “Para católicos ou não católicos, o Papa é uma figura a quem ninguém fica indiferente. Presenciar este momento é presenciar História a acontecer”, diz.

A jovem de 22 anos não podia ter deixado passar a sua oportunidade – a única em todos os dias da Jornada Mundial da Juventude, pois está a trabalhar – de tentar ver o líder da Igreja Católica.

Às 6h30 da manhã, ou seja, mais de três horas antes da chegada prevista do Papa Francisco ao Palácio de Belém, já estava na Praça Afonso de Albuquerque a marcar lugar.

“Por experiência pessoal, na [JMJ em Cracóvia] Polónia, vi-o numa fração de segundos numa passagem também de carro. Portanto, optei por vir para aqui para a fachada principal, para ver melhor”, conta.

Para conseguir um lugar com boa vista, Carolina acordou às 4h30 da manhã. E teve de convencer a mãe a acompanhá-la.

A última noite foi “uma pequena sesta”, diz Cristina Ferreira, mãe da jovem, à Renascença. “Foi a filha que quis trazer a mãe a ver a Jornada, que eu nunca participei [numa]. E sábado ainda vou a Fátima.”

Vindos de todos os cantos do mundo, milhares de peregrinos tiveram, esta quarta-feira, a mesma iniciativa que Carolina e Cristina.

Ainda com o sol envergonhado no céu, acorreram a Belém para tentar ver o Papa. Muitos trouxeram bancos – para ajudar as pernas, no processo de espera. Outros foram mais criativos.

Teresinha António, 84 anos, veio de Minas Gerais, Belo Horizonte, à procura de uma oportunidade de pôr os olhos no Papa. Sentada num banco desdobrável, às 7 da manhã, junto às grades que delimitavam a área de segurança, aguardava pacientemente pela chegada do Papa Francisco. E tricotava, para “passar o tempo”.

“Assim que soube que ele estava aqui, arrumei [viagem] rápido para pode vir. E estou gostando”, diz a idosa, com uma bandelete de missangas, com a bandeira do Brasil. “Acompanho muito ele pela televisão, queria ver pessoalmente.”

O Papa chamou. Peregrinos vieram apressadamente

O Papa Francisco chegou a Belém faltavam poucos minutos para 11 horas da manhã. Então, o clima era já de festa. E apesar de ainda ter começado a gotejar, nenhum peregrino arredou pé.

Marcelo Rebelo de Sousa, depois de já ter cumprimentado o líder da Igreja Católica assim que aterrou no aeroporto de Figo Maduro, chegou uns minutos antes.

Alguns peregrinos, numa tentativa de encontrarem uma vista privilegiada do momento, escalaram a base da estátua de Dom Afonso de Albuquerque. Em muitas línguas, ouviu-se o cântico: “Queremos ver o Papa!”

Assim que o veículo que transportava o Papa cruzou a Avenida das Índias, muitos jovens começaram a correr, junto às vedações, numa tentativa de o acompanhar. Um grande salva de aplausos inundou o ar.

Maria de Lurdes, já reformada, veio de Oeiras com o objetivo de repetir a experiência de ver um Papa. Há quase duas décadas, conseguiu ver e tocar o Papa João Paulo II.

“Isto toca-me”, confessa à Renascença. “Espero que a juventude comece a ver as coisas de outra maneira. Penso que já estão a ver. Esta movimentação, esta cor, esta energia. Tudo o que eles trazem enche-me o coração.”

A poucos metros de distância, as palavras e expectativas de Delfina Gonçalves, que está de férias, são quase as mesmas. “Tenho esperança de que o Papa venha a dar a bênção ao nosso país, que nasça uma nova esperança”, diz.

Ainda assim - e mesmo com o esforço que fez de vir do Cacém -, Delfina não deixa esquecer o debate sobre gastos do Estado que antecedeu a JMJ.

“Vejo que isto é bonito. Vejo que é lindo. Só vejo também que é muito dinheiro para um país em crise. Mas tudo bem”, comenta, entre risos.

Manifestar e ver

Numa das laterais da Praça Afonso de Albuquerque decorreu uma manifestação pacífica de todas as estruturas sindicais da PSP, ASAE e Polícia Marítima. Aproveitando a presença do Papa e a presença de jornalistas de todo o mundo, os agentes reivindicaram melhores salários.

Em todo o caso, as forças de autoridade não foram as únicas a procurar chamar à atenção. Bem perto da famosa pastelaria dos Pastéis de Belém, a Renascença encontrou Amelia Lancaster – vestida com um vestido de faturas de papel.

A cidadã britânica, que mora em Portugal há seis anos, “agrafou” aquele vestido com o propósito de chamar à atenção para o “consumo individual que tem cada pessoa.”

“Este vestido é o consumo normal de uma pessoa durante três meses. Gostava muito que conseguíssemos mudar a lei em Portugal para que não seja obrigatório dar fatura em papel em todos os tipos de consumos”, diz.

Espiritual, mas não católica, Amelie lembra que o Papa “tem um poder de palavra imenso”.

“Quando percebi que ele vinha cá, que este ia ser o maior evento da história de Portugal, decidi que tinha de aproveitar a oportunidade”, diz.

Peregrinos correm para ver o Papa em Belém
Peregrinos correm para ver o Papa em Belém
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