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Afeganistão

De Palmela para Cabul, Fazal e Ana Bela alimentam quem precisa. "As pessoas sentem a dor das crianças afegãs"

16 set, 2021 - 08:00 • Hélio Carvalho

Fazal assistiu incrédulo, a partir de Portugal, ao regresso dos talibãs ao poder no Afeganistão. O estudante/trabalhador afegão critica a forma como os EUA fizeram a retirada: "deram a faca a quem nos quer matar".

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Quando os talibãs chegaram a Cabul, Fazal Subhan estava em Palmela desde abril. Assistiu de longe ao regresso do regime extremista e ultraconservador ao Afeganistão, enquanto na capital afegã a sua família procurava chegar ao aeroporto para fugir à crise humanitária que assolou a região.

Com a mulher, Ana Bela Charlin, uma assistente social que conheceu através da internet quando ainda estava do outro lado do mundo, tomou a decisão de fazer algo para ajudar as crianças.

"Vimos as notícias sobre o Afeganistão e ela perguntou-me o que se passava, porque é que as pessoas estavam zangadas. Elas não têm comida, isto não é a Europa, é o Afeganistão, aquelas crianças não comem há três ou quatro dias. Então decidimos fazer algo por eles", contou em entrevista à Renascença.

Assim, nasceu uma campanha de donativos, lançada no Facebook em agosto, que desde então já deu comida e bens essenciais a mais de mil pessoas, compostas por 125 famílias com pelo menos oito crianças.

A iniciativa ganhou um impulso muito grande quando Gustavo Carona, um médico que já passou por zonas de guerra em missões humanitárias e que conta com quase 75 mil seguidores no Instagram e 15 mil seguidores no Facebook, se juntou ao casal e deu-lhes uma voz ainda maior.

Para Fazal, é tocante que "o povo português sinta a dor do meu país". "Sei que não podemos acabar com a guerra, mas pelo menos conseguimos ajudar os que não comem a lutar contra isto. Isto é uma ação humanitária", vincou.

A iniciativa começou com o apoio da família do afegão. Fazal conta que começou por receber um total de 70 euros de dois casais amigos, dinheiro esse que foi enviado para o seu irmão comprar alimentos.

"Mandei os 70 euros ao meu irmão e disse-lhe para comprar rapidamente comida para as crianças: bananas, leite e bolachas. Resultou, portanto, decidimos continuar a trabalhar."

A entrega de comida é particularmente vital nesta altura. A ONU alertou no sábado que 93% das famílias no Afeganistão não têm comida suficiente e o Programa Alimentar Mundial (PAM) informou que são precisos 170 milhões de euros, até ao final do ano, só para ajudar 14 milhões de pessoas (menos de metade dos 38 milhões que compõe a população total).

"Os Estados Unidos mataram a minha nação"

Fazal Subhant tem 30 anos. Conseguiu, através da ajuda da mulher, ser admitido no mestrado em Governance Leadership and Democracy Studies, na Universidade Católica, em Lisboa.

Antes disso, já tinha um bacharelato em Relações Internacionais na Universidade Internacional Islâmica de Islamabad, no Paquistão, trabalhou com organizações não-governamentais, universidades privadas e, antes de vir para Portugal, colaborou num projeto que providenciava educação no setor agrícola, tanto para homens como para mulheres.

A educação foi um dos principais motivos que o levaram a sair do Afeganistão e a ir para Palmela, com Ana Bela - com quem viria a casar e criar a campanha. E conta que a situação no país, bem antes da chegada dos talibãs, não o deixava esperançoso, especialmente depois do acordo assinado entre o então Presidente americano, Donald Trump, e os talibãs, em fevereiro de 2020.

"Tive um seminário com um professor americano e disse-lhe que o acordo entre os EUA e os talibãs seria custoso, não só para os afegãos mas para toda a região. Vai custar a democracia e muito mais."

Agora, Fazal deixa duras críticas à forma como os Estados Unidos saíram do país, especialmente depois do investimento feito no Afeganistão, e acusa a retirada de ter um teor populista e autocentrado.

"Biden disse que não foram para o Afeganistão para criar uma democracia. Mas no início, disseram isso. E como estudante de política, vejo os líderes americanos a ter uma visão mais populista. Comparando essa altura com agora, eles preocupam-se mais com sua própria nação, com salvar americanos", argumentou.

A guerra no Afeganistão e a invasão dos Estados Unidos começaram pouco depois dos ataques terroristas do dia 11 de setembro de 2001. Os 20 anos de presença americana no país resultaram na morte de quase 50 mil civis e 66 mil soldados afegãos; do lado americano, morreram cerca de 3.800 cidadãos americanos e do lado dos talibãs cerca de 51 mil, segundo os dados da Associated Press.

Fazal reclama ainda com a ação americana no Afeganistão e considera que os EUA "mataram" o seu país natal.

"Como jovem afegão, tenho uma coisa a dizer aos Estados Unidos da América: eles mataram a minha nação. Eles largaram bombas à guerra que disseram ser contra o terrorismo. Perdi familiares próximos quando eles bombardearam. Eles não eram talibãs. E agora, finalmente, deram a faca a quem nos quer matar", afirmou Fazal.

Uma nação de refugiados "sedenta por paz"

Uma das consequências da tomada talibã de Cabul foi, imediatamente, o exponencial número de refugiados afegãos a tentar sair do país. Do aeroporto internacional Hamid Karzai, chegaram imagens tenebrosas de pessoas agarradas a laterais de aviões para tentar fugir.

A receção de refugiados tornou-se, tal como em 2015 com a guerra na Síria, um debate entre países que se opõem à abertura de fronteiras e países que acolheram rapidamente milhares de pessoas. A Portugal, chegaram 82 refugiados e a ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva, informou que o país tem capacidade para acolher mais 400 pessoas.

Na sua opinião a chegada de refugiados afegãos deve ser bem acolhida. "Toda a gente trabalha para a paz. Eu vim para Portugal e estudo e trabalho ao mesmo tempo. Nós não somos um povo preguiçoso. A nossa nação está sedenta por paz."

A família de Fazal é um testemunho direto do desespero e jogo de sorte que é tentar sair do Afeganistão. Fazal conta que o seu irmão esteve três noites seguidas para o aeroporto de Cabul, precisamente para a zona onde ocorreu o ataque terrorista do dia 26 de agosto. Quando viu as notícias nas redes sociais, o estudante afegão de Palmela explica, com alívio, que ligou-lhe e "nesse dia a minha mãe pediu-lhe para não ir".

"Não vejo um bom futuro para a minha geração"

A viver em Palmela, no distrito de Setúbal, há praticamente cinco meses, Fazal Subhan não vê um futuro auspicioso para o Afeganistão.

"Se me perguntasses há seis meses, teria uma resposta melhor. Agora, perdi a minha esperança, para ser sincero. Como jovem afegão, perdi a esperança na democracia americana", lamenta.

As expectativas mais pessimistas em torno da chegada dos talibãs foram correspondidas mal surgiram relatos de violações graves de direitos humanos e um retrocesso enorme nos direitos e liberdades das mulheres afegãs.

"É melhor estar na prisão. Se uma mulher ficar doente, não pode ir ao médico se não tiver um homem com ela. E daqui a cinco, seis meses, surgirão coisas piores. Portanto, não vejo um bom futuro para a minha geração", disse Fazal.

Ainda assim, continua a trabalhar e a tentar ajudar quem fica no Afeganistão, a sofrer com a situação. Na página de Fazal e Ana Bela, os dois dizem que esperam atingir um financiamento suficiente para alimentar 300 famílias em risco.

Fazal conta que os donativos que recebeu até agora, mais o dinheiro angariado através da doação de um quadro recebido, devem dar para comida para poucas semanas. Mas deixa uma nota de agradecimento nesta luta que ainda agora começou.

"Sinto-me acolhido. As pessoas sentem a dor das crianças e das famílias afegãs. Não tenho palavras para explicar isto, mas é espetacular", diz o afegão que o coração levou a partir e Portugal acolheu.

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