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Portugal é "hotspot" para impacto das alterações climáticas

02 jul, 2021 - 07:00 • Hélio Carvalho

Olhando para as temperaturas extremas registadas na América do Norte, Filipe Duarte Santos, do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável, alerta que o impacto das alterações climáticas vai continuar a crescer, especialmente nos países do Mediterrâneo. E, apesar de elogiar os avanços na política climática global, o especialista sublinha que o problema das emissões de gases poluentes está longe de estar resolvido.

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Temperaturas de 49º. Calor mortífero bate recordes nos EUA e Canadá
Temperaturas de 49º. Calor mortífero bate recordes nos EUA e Canadá

Uma onda de calor intensa está a provocar temperaturas elevadas e extremas nos Estados Unidos e no Canadá, especialmente na zona Nordeste do Oceano Pacífico. Foram registadas quase 50 graus em zonas tipicamente frias e já houve quase 500 pessoas mortes repentinas devido ao calor.

Em entrevista à Renascença, Filipe Duarte Santos, presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável (CNADS), argumenta que esta mudança climática é "provocada por algumas atividades humanas, sobretudo pelas emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera, em particular do dióxido de carbono, que é produzido na combustão dos combustíveis fósseis" (no carvão, do petróleo e do gás natural).

Como tal, o fenómeno na América do Norte - um anticiclone ligado "a tempos secos, que conduz a uma maior probabilidade maior de ondas de calor" - não devia surgir como surpresa para ninguém, tendo em conta o impacto acumulado das alterações climáticas e, especialmente, da emissão de gases com efeito de estufa.

"As alterações climáticas já estão connosco há bastante tempo, vão continuar a estar e os seus efeitos só vão diminuir quando a temperatura média global da atmosfera começar a descer, mas para isso é necessário que as emissões de gases com efeitos de estufa atinjam um máximo e comecem a descer", alerta.

A onda de calor abrasador atravessa o norte do continente depois de, em 2020, todos os indicadores sobre as alterações climáticas terem piorado. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, mesmo com um abrandamento das emissões poluentes provocado pela pandemia, o ano de 2020 foi um dos mais quentes de sempre, aumentando a concentração de dióxido de carbono na atmosfera e também as temperaturas médias globais da atmosfera e nos oceanos.

Portugal na mira do calor extremo

Questionado sobre se Portugal pode esperar por um verão tão ou mais quente como o que se começa a registar nos EUA e Canadá, o professor catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), e especialista em política ambiental e sustentabilidade, diz que previsões são difíceis, mas a probabilidade existe.

"A probabilidade de nos próximos anos, e por aí fora, termos situações destas, de ondas de calor conjugadas com secas, é cada vez maior. E é cada vez maior no Sul da Europa", afirma o cientista.

Acrescenta Filipe Duarte Santos que a "região do Mediterrâneo é das regiões mais vulneráveis do mundo às alterações climáticas, é considerado um 'hotspot' das alterações climáticas, porque há uma tendência de diminuição da média da precipitação anual, acumulada em cada ano, e já diminuiu".

"Isso tem um impacto muito significativo em todos os países do Sul da Europa e também nos países do Norte de África e do Médio Oriente, que conduz a problemas no que respeita aos recursos hídricos, à agricultura e aos incêndios rurais e florestais", aponta.

"Temos problemas que não estão resolvidos, em termos de nos adaptarmos às alterações climáticas, e um desses problemas é o risco de incêndios florestais"

As emissões de gases poluentes em Portugal caíram a pique em 2020, devido à pandemia, segundo dados da Associação ZERO. As emissões de dióxido de carbono caíram 24%, com a TAP, que parou bruscamente durante os sucessivos confinamentos, a registar reduções na ordem dos 70%.

As emissões em Portugal continuam a ser da grande responsabilidade do setor da refinação e da produção de eletricidade através de combustíveis fósseis.

Para o presidente do CNADS, Portugal tem feito avanços positivos no que diz respeito às políticas ambientais, nomeadamente no forte investimento em energias renováveis - no primeiro trimestre de 2021, a Associação de Energias Renováveis (APREN) informou que a geração de eletricidade de origem renovável representou 79,5% do total de eletricidade gerada em Portugal Continental. Só a energia hídrica representa 44% de toda a eletricidade gerada em Portugal.

Mas, salienta o professor catedrático da FCUL, ainda há um longo caminho a percorrer e problemas a resolver.

"Temos problemas que não estão resolvidos, em termos de nos adaptarmos às alterações climáticas, e um desses problemas é o risco de incêndios florestais. Continuamos a ter uma área ardida de florestas e de matos que, em percentagem de área do país, é a maior da União Europeia, em média. Não conseguimos ainda controlar este problema", diz Filipe Duarte Santos

Resposta global a um problema global

A Lei Europeia do Clima foi assinada no último dia da presidência portuguesa do Conselho Europeu, a 30 de junho. A legislação estipula a meta de atingir a neutralidade carbónica na União Europeia até ao ano de 2050, além de definir que a comunidade europeia tem de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em 55% até 2030, face aos valores de 1990.

A legislação surgiu depois de outro evento importante, a Cimeira do Clima, promovida pelos Estados Unidos e pelo Presidente Joe Biden - nessa cimeira, o Presidente americano anunciou que os EUA iriam reduzir as emissões de gases poluentes em metade, relativamente aos valores de 2005.

Filipe Duarte Santos elogia o compromisso europeu, considerando a Lei do Clima é "um passo importante" no "esforço significativo" e "meritório" da UE na mitigação e adaptação às alterações climáticas. E também enaltece o "regresso" dos Estados Unidos da América ao debate sobre políticas climáticas, depois de quatro anos de uma presidência de Donald Trump que resultou num "retrocesso".

Cimeira do Clima arranca com promessas ambiciosas de Biden. "Decidimos que vamos agir"
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Mas apesar de serem dos maiores emissores, a UE e os EUA não são o único problema.

"No caso da China, o problema é mais complexo porque existe uma grande dependência no carvão e é um país cujas emissões 'per capita' são ainda relativamente baixas comparadas com as dos EUA. A China e a Índia são países com PIB 'per capita' muito aquém de outros países com economias avançadas, relativamente baixo, e são países pobres. A China tem tido um crescimento económico muito grande e está apostada na descarbonização, mas com o objetivo para 2060", explica o especialista.

Duarte Santos destaca ainda um problema não tão valorizado na conversa entre os principais atores políticos, que é a forte dependência de países mais pequenos na produção de combustíveis fósseis. Nomeadamente os países do Médio Oriente ou até mesmo Angola, na produção de petróleo.

"É imperativo estarmos conscientes que as nossas ações vão influir sobre o que será o mundo nos próximos 20, 30, 50, 100 anos, onde viverão os nossos filhos, netos e bisnetos"

"A transição para as energias renováveis nesses países é difícil e tem de ter a ajuda dos países mais desenvolvidos. Há uma série de obstáculos neste percurso".

Calor na América do Norte é alerta para governos e para sociedade civil

Para o presidente do CNADS, o recente fenómeno ambiental nos EUA e no Canadá é um aviso para o impacto continuado e acumulado das alterações climáticas.

Não só para levar a políticas ambientais mais urgentes, mas para voltar a avisar a sociedade civil para comportamentos sustentáveis.

"Todos nós podemos contribuir para a descarbonização e para uma maior sustentabilidade. Penso que é um imperativo, sobretudo se estivermos conscientes da necessidade de haver justiça intergeracional, aquilo que chamamos justiça climática", salienta Filipe Duarte Santos, recordando que as consequências das nossas ações têm impacto no mundo "nos próximos 20, 30, 50, 100 anos, onde viverão os nossos filhos, netos e bisnetos".

"Mas é preciso justiça intrageracional, ou seja, solidariedade com aquelas pessoas que vivem em países que são mais vulneráveis às alterações climáticas, porque não têm tanta capacidade de se adaptarem a um clima em mudança", acrescenta.

O especialista, com uma vasta carreira académica na área da sustentabilidade e das alterações climáticas, alerta também para o papel da comunicação social, especialmente no meio de "muito ruído" e com "muitas pessoas com uma narrativa diferente da narrativa da ciência".

Quanto aos comportamentos a ter, o professor catedrático da FCUL refere que é essencial "as pessoas estarem informadas" e de se "interessarem por este problema".

"Em particular, racionalizando as suas deslocações. Podemos melhorar a eficiência energética não só dos equipamentos que temos na nossa casa, mas também das próprias casas e edifícios. E muitas pessoas têm a oportunidade de optarem pelas energias renováveis, em particular na compra de um veículo automóvel - outras não terão, porque os veículos elétricos têm um custo mais elevado - e de painéis solares", conclui.

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