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Redes sociais

Tiktok e as crianças. Que perigos esconde o algoritmo?

05 ago, 2022 - 07:00 • Daniela Espírito Santo

Caso de Archie Battersbee relança debate sobre a forma como os mais novos consomem conteúdos nas redes sociais e que papel devem ter os pais.

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A influência que o TikTok pode ter nas crianças voltou à baila recentemente, com o caso de Archie Battersbee, uma criança britânica de 12 anos que terá participado num desafio viral que o colocou em morte cerebral de abril até agosto, altura em que o hospital onde se encontrava desligou as máquinas.

O caso reacendeu o debate sobre o que as crianças consomem nas redes sociais e qual o papel que os pais podem ter na utilização destas plataformas pelos filhos.

Em causa, no caso de Archie, está o papel do algoritmo daquela rede social no conteúdo a que as crianças têm acesso de uma forma regular e, até, insistente - algo que pode afetar a saúde mental das crianças e jovens.

O TikTok montou o algoritmo de uma forma para nos mostrar o que nós queremos ver. Se eu tiver uma personalidade depressiva e ver vídeos depressivos, ele vai-me mostrar cada vez mais vídeos depressivos”, explica Tito de Morais, especialista em segurança online e fundador do portal “Miúdos Seguros na Net”.

Carolina Esteves Soares, técnica operacional da Linha Internet Segura, corrobora. “O algoritmo está feito para que o utente consuma o mais possível. Se a pessoa gosta de consumir certo tipo de conteúdo, é isso que vai parar ao seu feed. E quanto mais consumir, mais recebe”, explica.

O problema, muitas vezes, prende-se com as “trends”. As crianças querem ter “likes”, querem ter visualizações. Embarcam em modas e desafios muitas vezes perigosos.

Terá sido isso que aconteceu a Archie, que, acreditam os pais, participou num desafio de TikTok que consiste em cortar o fornecimento de oxigénio ao cérebro até à perda da consciência.

O desafio precede esta rede social e data de 2007, “é uma prática bastante anterior a isso, mesmo antes da Internet”, diz Tito de Morais. Aliás, está longe de ser único. Segundo o especialista, são “cerca de mil” os que se podem encontrar a circular em Portugal e no mundo.

Mas será que as redes sociais têm noção do papel que têm na disseminação destes desafios? Tito de Morais acredita que sim. “A indústria desenvolveu algumas funcionalidades para nos manter agarrados aos ecrãs”, relembra. Umas vezes, isso pode afetar a nossa saúde mental. Outras, pode levar-nos a caminhos perigosos.

“As empresas de tecnologia começaram a perceber que têm que ter em atenção essas questões sob pena de começarem a receber processos em tribunal”, diz.

Foi mesmo isso que aconteceu nos EUA, onde as famílias de duas crianças, de oito e nove anos, estão a processar a rede social. Acreditam que o algoritmo do TikTok lhes mostrou tantas vezes o desafio que vitimou Archie que as incentivou a participar, custando-lhes também a vida. No processo, que deu entrada em Los Angeles, defendem que o algoritmo da plataforma mostrava vídeos do desafio às crianças “de forma intencional e repetida”.

As pessoas que produzem conteúdo ficam viciadas no número de visualizações. Esse vício, que é a dopamina que lhes permite sobreviver dia a dia, sobrepõe-se a tudo o resto”, diz Rui Lourenço, especialista em redes sociais.

O TikTok garante estar a dar passos no sentido de prevenir casos similares e até tem uma página inteiramente dedicada aos “desafios online”, onde deixa dicas para utilizadores e pais. Em paralelo, a rede social fez, no final do ano passado, uma atualização às suas diretrizes para tentar “diversificar as recomendações” e “interromper padrões repetitivos”.

“Estamos a testar maneiras de evitar recomendar uma série de conteúdo similar” para proteger os utilizadores de verem muito conteúdo de uma categoria que “seria adequada como um vídeo singular, mas problemática se vista de forma aglomerada”.

Tito de Morais admite que as redes sociais têm desenvolvido algumas políticas ao nível da proteção das crianças e dos jovens. “A questão que se pode colocar é: é suficiente? Claro que não, nunca é suficiente”, assegura, relembrando que proteger a saúde física e mental dos mais novos “é um trabalho contínuo e que nunca tem fim”.

Menores muitas vezes mentem para entrar na plataforma

Embora a plataforma já tenha “alguns mecanismos de controlo para tentar evitar que certos conteúdos cheguem ao perfil de menores”, reitera Carolina Esteves Soares, muitas vezes as crianças facilmente lhes dão a volta. “Se o adolescente mentir relativamente à sua idade estes mecanismos já não se aplicam. Não é suposto um menor de 13 anos ter um perfil no TikTok”, relembra.

Todos os menores mencionados neste artigo, que acabaram por perder a vida em desafios, eram menores de 13 anos.

“Se, quando fazem a inscrição na plataforma, disserem que têm mais de 18 anos, nada disto se aplica e o problema está aí”, indica, salientando que “o algoritmo tem dificuldade em identificar quem é ou não é menor de 18”.

“Existe um trabalho das várias redes para tentar evitar que certo tipo de conteúdos chegue aos perfis de menores, mas torna-se difícil. Não estou aqui a defender nem um lado nem o outro, mas torna-se difícil um controlo total daquilo que é publicado”, defende Carolina Esteves Soares.

“Há um grande desconhecimento dos pais sobre a plataforma”

Parte desse trabalho tem de ser feito pelos pais. “O grande papel é dos pais. Os pais têm de acompanhar a utilização que os filhos fazem do TikTok ”, diz Tito de Morais.

“O TikTok preocupa-nos particularmente porque é uma aplicação que a generalidade dos pais desconhece, porque não usa”.

Esse desconhecimento pode levar os pais a não acompanharem os filhos na sua utilização daquela rede social. “Provavelmente não o fazem”, admite.

Carolina Esteves Soares, da Linha Internet Segura, admite que já há alguns “familiares adultos” que “pedem informações” sobre o TikTok e outras redes, bem como de “desafios ou partilha de conteúdos”. No entanto, ainda há muito quem desconheça por completo esta realidade.

“Sinceramente, acho que os pais não percebem nada de TikTok”, começa por dizer Rui Lourenço, especialista em redes sociais. “Podem achar piada, podem ver os filhos a fazer aquelas danças, mas há um grande desconhecimento por parte dos pais sobre a plataforma” , admite.

Então…de quem é a culpa?

Perante um problema tão complexo, urge questionar de quem é responsabilidade pelo que aconteceu a Archie e a outras crianças vítimas de desafios similares.

“Somos todos responsáveis por isto”, defende Tito de Morais, que acredita que os pais “têm a obrigação de estar a par deste tipo de desafios”, acompanhar os filhos na Internet e saber que conteúdo vêem. “Têm de ser pais digitais e não podem ser bons pais digitais se não usarem as ferramentas que os filhos usam, se não falarem com os filhos sobre as aplicações que usam”, acredita.

Também aponta o dedo às escolas, que têm a “obrigação de ensinar a lidar com as tecnologias”. Compreender o fenómeno é fundamental, “perceber porque é que estes desafios são tão populares”. E é aí que entra a responsabilidade das plataformas que “não promovem a remoção [de vídeos] de uma forma célere” ou “não fazem mesmo a sua remoção”.

“Há um problema aqui, não é?”, diz Tito de Morais.

“As tecnológicas usam alguns mecanismos para nos manter agarrados a estes ecrãs e estes desafios virais muitas vezes são um desses mecanismos”, diz. “Eles sabem que as pessoas vão partilhar, vão ver. Isto gera receita. É bom nós percebermos e explicar isso aos nossos filhos”, salienta.

“Há aqui um conflito entre a parte comercial e a parte ética. Acho que, na realidade, cada vez mais se justifica haver um instituto ético que gira este tipo de situações”, defende.

Proibir é “um tiro nos pés”

Ana Isabel Lage Ferreira, da Direção Nacional da Ordem dos Psicólogos, pede aos pais para não olharem para o lado. “Não adianta fazer de conta que não está a acontecer. Não adianta dizer ‘Isto não é para ti’” , assegura. Não é possível colocar uma criança “numa bolha” sem acesso a nada.

“Não adianta porque não vamos estar 24 horas por dia com eles. Não vamos conseguir impedi-los de aceder a esses conteúdos”, reitera.

Proibir, bloquear, impedir, alienar nunca vai ser a melhor solução. Pelo contrário. É mesmo um tiro nos pés”, insiste.

“A chave mestra é estar presente e estar disponível para ouvir. Estar disponível para receber as ideias, as críticas, as perguntas… tudo o que vier. Às vezes não é fácil”.

“Esse é o primeiro recurso: estarmos lá”, admite, pedindo aos pais para “mostrarem curiosidade”, mostrarem “interesse”, “fazerem perguntas e ouvirem”.

Ricardo Estrela, gestor da Linha Internet Segura da APAV, deixa o mesmo conselho, garantindo que “não é benéfico” ter os pais alheados do “processo de socialização online”. E pede a quem utiliza as redes (e aos pais) para reportarem à própria plataforma “conteúdo perigoso ou ilegal”.

Primeiro, é preciso “fazer um trabalho de sensibilização e de literacia digital”, defende Carolina Esteves Soares. “Tentar explicar aos menores as consequências de certo tipo de publicações” também é fundamental. Isto porque impedir que deixem de consumir este tipo de conteúdos é “muito difícil”. “Proibir a utilização da plataforma por si não resulta, porque eles podem aceder através de um telefone de um amigo, portanto isso não nos parece eficaz”, diz.

“Se eles não conseguirem parar e refletir um pouco sobre aquilo que estão a ver ou aquilo que vão fazer… Se isso não lhes for ensinado, eu creio que não vamos conseguir resolver o problema agora”, defende.

Cristiane Miranda, que partilha com Tito de Morais o projeto “Agarrados à Net”, reforça a importância dos pais neste processo. “Os pais não podem ignorar e fazer de conta que as coisas não existem. Não podem meter a cabeça na areia”.

É cada vez mais importante acompanhar “os filhos o máximo possível”, e “tentar gerir os conteúdos a que eles têm acesso”, através dos controlos parentais, mas também com “muita conversa”. “Não adianta muito estarem a proibir”. Mais vale “conhecerem alguns mecanismos que as redes sociais já oferecem”, “denunciar e bloquear”. Os dois criaram, entre outras ferramentas, os “sete passos para a parentalidade digital” para ajudar os pais a navegarem as tortuosas ondas das redes sociais com os filhos.

E em Portugal?

A presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV), Maria do Céu Patrão Neves, aproveitou este caso para pedir ação urgente para regular a transmissão deste tipo de conteúdos.

Em entrevista ao jornalista André Rodrigues, da Renascença, Maria do Céu Patrão Neves considera fundamental investigar como chegamos à morte de uma criança que morreu “por uma ação dele próprio, embora vítima de terceiros”.

Para a presidente do CNECV, as grandes plataformas sociais têm de “fazer algum trabalho” para garantir que não exercem censura, mas que também não se tornam num “instrumento de sofrimento e de morte para tantas pessoas e tantos jovens como o Archie”. Relembra, no entanto, o papel dos pais neste contexto. “Ninguém se pode demitir desta tarefa”.

Quanto a legislação em Portugal, e ao contrário do que se tenta que aconteça, por exemplo, na Califórnia, - onde uma proposta de lei pretende conceder aos pais o poder de processar as redes sociais se os seus filhos ficarem viciados nelas - “ não tem acontecido nada e provavelmente só irá acontecer quando essa legislação vier por via de regulamentação da União Europeia”, defende Tito de Morais.

“Esta situação não é exclusivo de Portugal, não é exclusivo da União Europeia, nem de qualquer outro país do mundo. Esta é uma nova realidade com a qual nós estamos confrontados e o mecanismo legislativo da esmagadora maioria dos países ainda não está preparado para lhe fazer face”, assegura o especialista em segurança online Tito de Morais.

“Quando falamos de padrões negros, ou seja, funcionalidades que as tecnológicas desenvolvem para nos manter agarrados aos ecrãs, algumas delas são autênticas formas de manipulação. Algumas delas são autênticos atentados aos direitos do consumidor e podemos até mesmo falar aos direitos da criança”, ressalva.

Outros perigos

Os “desafios” são o espelho mais concreto dos perigos a que podem estar sujeitos os mais novos online. No entanto, a própria experiência de crescimento com as redes sociais de pano de fundo pode ter outras consequências. Rui Lourenço, especialista em redes sociais, relembra outro fenómeno que pode estar relacionado.

“Sei que não gostamos de falar nisto, mas as taxas de suicídio entre as camadas mais jovens continuam a subir e é preciso perceber porquê ”.

O problema não é só o TikTok. Aliás, já tivemos desfechos semelhantes com outras redes sociais. Os perigos espreitam um pouco de todo o lado.

A mim preocupa-me mais a quantidade de miúdas e miúdos que se andam a despir nos “Onlyfans” desta vida, sem os pais saberem… Disponibilizam conteúdos eróticos e pornográficos no Onlyfans, que é isso que faz aquela plataforma viver. A troco de dinheiro. Isso é extremamente preocupante porque, em Portugal, são com certeza centenas os miúdos que fazem isso” , vaticina.

'Grooming'. TikTok atrai fenómenos de aliciamento de menores para fins sexuais

A Linha Internet Segura, uma linha de apoio integrada na Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), recebe denúncias e pedidos de apoio de pessoas que foram ou são vítimas de algum tipo de crime relacionado com a Internet. Prestam “apoio psicológico, jurídico e social para lidar com as situações de vitimização”. Para além disso, também fazem trabalho de sensibilização e prevenção e ajudam a adotar estratégias de segurança nas redes sociais (e não só). Trabalham diretamente com as redes sociais, onde se inclui o TikTok, tendo o título de “Trusted Flaggers”, ou seja, ajudam as redes sociais a reconhecer e eliminar mais rapidamente conteúdo inadequado (também o Miúdos Seguros na Net, de que falamos acima, tem esse título no Youtube).

Ricardo Estrela, gestor desta linha, explicou à Renascença que há certos fatores no TikTok que tornam “numa aplicação mais permeável a certos tipos de criminalidade”, pois atrai fenómenos como “aliciamento de menores para fins sexuais”, o chamado “grooming”. Porquê? “Porque o TikTok tem uma grande base de utilizadores muito jovens”.

Para além disso, é “uma plataforma que assenta muito na imagem”, o que “aumenta o risco para os utilizadores”.

Numa conversa posterior, Carolina Soares, também da Linha Internet Segura, reitera saber que é “uma plataforma muito usada por menores para publicação de vídeos” e que, “através desta plataforma”, “alguns menores têm contactos com adultos e acabam por enviar vídeos de carácter íntimo”, admitindo, portanto, que “situações de grooming” possam ter “alguma expressão nesta rede”.

Apesar disso, os conteúdos inadequados são, segundo Ricardo Estrela, “removidos com bastante brevidade”. À Renascença, garante que vídeos de “abuso sexual de menores” são removidos pela rede social “em questão de minutos”.

[notícia atualizada às 11h42 de 2 de setembro de 2022 para indicar o falecimento de Archie Battersbee]

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