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Reportagem

Superliga Europeia "vai matar o futebol". Gigantes ingleses desertam da UEFA e revoltam os adeptos

20 abr, 2021 - 18:05 • António Fernandes, correspondente em Londres

Seis clubes procuraram uma solução que lhes garanta um futuro competitivo e, principalmente, muito dinheiro. Gostaram da ideia. Quem é que não gostou? Todos os outros.

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O anúncio da criação da Superliga Europeia caiu como um estrondo em todo o lado, mas em lado nenhum com mais força que em Inglaterra, onde estão metade dos clubes fundadores.

Manchester United, Manchester City, Liverpool, Arsenal, Tottenham, Chelsea. Os "Big Six". Num país onde no futebol está enraizada uma cultura de "fair-play", de competitividade, de superação, mas também colaboração para com os clubes mais pequenos, a decisão dos seis clubes mais ricos do país foi vista como egoísta e gananciosa.

Na imprensa, o "The Sun" fala do “Grande Assalto ao Jogo”. No "The Guardian", um artigo descreve como a Superliga só “pode ter sido criada por alguém que odeia o futebol”.

Os antigos jogadores que se tornaram comentadores desportivos foram unânimes também em criticar a competição. Gary Neville, antigo capitão do Manchester United, disse estar “enojado” principalmente com o seu clube e com o Liverpool, clubes que descreveu como “do povo” e que escolhem agora uma liga sem competição, de onde não podem ser relegados.

Essa é a questão principal também para Alan Shearer, lenda do Newcastle e antigo capitão inglês. Para Shearer, o problema não é os clubes começarem uma competição nova, é fazerem-no “numa loja fechada” e defende que “não se pode ter uma “competição onde mais ninguém pode entrar”.

Ninguém está mais insatisfeito, no entanto, que os adeptos. Os adeptos dos "Big Six" e de todos os outros. Ontem por todo o país houve protestos fora dos estádios. Em Anfield Road, casa do Liverpool, os adeptos subiram uma tarja preta que dizia simplesmente: “Tenham vergonha”. Em baixo, as letras R.I.P. e as datas 1892-2021, como se o clube tivesse morrido no momento em que virou as costas ao mérito desportivo.

Os grupos oficiais de representantes de adeptos dos clubes foram inundados por pedidos de entrevistas e não havia mãos a medir. Alguns não conseguem sequer dar resposta. Do Tottenham respondem-nos, encaminhando-nos educadamente para o comunicado que publicaram. Afinal, ser adepto não é um trabalho a tempo inteiro e há contas para pagar. Mas ao final do dia as coisas acalmam e falamos enquanto Pete Haine, um dos representantes oficiais de adeptos do Tottenham, passeia o cão aproveitando a chegada da Primavera a Londres.

Pete tem 50 anos de sócio e lida com a direcção do Tottenham muitas vezes, mas acredita que se enganaram redondamente. Vamos por partes. O adepto inglês é fã de uma viagem ao estrangeiro e Pete não é excepção: “Todos gostamos de ir a um jogo fora, em Barcelona ou Madrid, mas se jogares contra essas equipas 6 ou 7 anos de seguida, onde é que está a motivação nisso? Principalmente porque não tiras nada disso, uma equipa pode ganhar, mas não há nenhum prejuízo, não podes ser relegado porque és um membro fundador.”

Porque tem o futebol tantos e tantos fãs pelo mundo todo? Porque conta uma história, a 90 minutos ou a uma época inteira. É David contra Golias, é tragédia, comédia e suspense. Parte disso também se pode perder neste novo modelo, acredita Pete, que diz que com a “estrutura atual pelo menos há a hipótese de uma surpresa, de um clube pequeno ganhar a um clube grande. Num grupo só de grandes clubes, vamos ter alguma vez isso?”

No meio do turbilhão, outro choque elétrico: a saída de José Mourinho. Pete diz que Mourinho herdou um legado difícil, porque Mauricio Pochettino era muito apreciado no clube quando Mourinho o substituiu. Admite que não era fã do português, mas acreditou que trouxesse títulos.

18 meses depois da chegada, tem pena que as fases “muito boas tenham alternado com outras muito más”. Depois da eliminação da Liga Europa, contra o Dinamo Zagreb, Pete diz que sentiu que Mourinho já não ia “conseguir dar a volta e que o tempo dele tinha chegado ao fim”, mas não deixa de ficar surpreendido pelo "timing" da saída, até porque esperava que tivesse pelo menos oportunidade de liderar a equipa contra o Manchester City, na final da Taça da Liga no domingo.

No maior rival, nada de novo

Também no Norte de Londres, os adeptos do Arsenal, grandes rivais do Tottenham, estão revoltados com a adesão à Superliga Europeia. Akhil Vyas é membro da direcção dos representantes oficiais dos adeptos dos "gunners" e diz que o grupo está contra a Superliga porque o desporto é “sobre mérito e sem isso não tem sentido”.

Akhil Vyas dá-nos um exemplo de como a garantia de futebol europeu pode afetar a competição interna: “O Arsenal vai jogar contra o Everton. Estão os dois a lutar pelos lugares europeus, mas qual é o sentido do jogo se já soubermos que o Arsenal vai estar na Superliga de qualquer forma e o Everton não? Para que é que vamos jogar este jogo?”

Para Ahkil, ao tirar um dos maiores objetivos da época da equação, o “resto da época não existe, podes acabar em segundo ou em 15 que não há diferença". Ou seja, apesar da Superliga se apresentar como uma alternativa à Liga das Campeões, para Ahkil ela põe em causa tudo o resto porque, neste momento, “há a luta pelo título, pelo acesso à Liga dos Campeões, à Liga Europa, há mérito desportivo e esta nova proposta mata a liga interna".

"Os clubes dizem que não estão a fugir da liga, e não estão no papel. Mas estão a matá-la. Porque se fores adepto do Leicester ou do West Ham, que estão a fazer uma excelente época, não vale a pena ver os jogos, porque no final podes não ser convidado para a Superliga. É tudo sobre o dinheiro, não sobre os adeptos. Está a matar o jogo", adiciona.

Esse também é um dos problemas que Pete Haine aponta, apesar de querer jogar contra equipas de topo, entende que deve ser uma “competição justa, para jogar na Europa, para jogar contra os melhores. E quando se organiza desta forma tira-se o potencial de contos de fadas como o do Leicester quando ganhou a Premier League”.

Segundo o modelo atual e o que diz a tabela classificativa, se a época acabasse agora, tanto o Tottenham como o Arsenal ficariam fora das competições europeias. Akhil, do Arsenal, prefere esse cenário a ser sócio de uma espécie de "gentlemen's club".

“Se a tua equipa não é boa o suficiente então não mereces estar na melhor competição, mais vale jogar na 'Playstation'. Se a equipa não é boa o suficiente, então tens de a melhorar, tens de recrutar bem, tens de fazer mais, mas não podes só garantir o teu lugar na Superliga porque és o fundador. Até como adepto do Arsenal, não quero estar numa competição onde não merecemos estar", diz.

Os adeptos pedem acção e apoio da Federação e do Governo e esse apoio está a caminho.

O Principe William, presidente da Federação de Futebol Inglesa, diz também estar preocupado com os danos que a Superliga pode “causar ao jogo que amamos” e que mais que nunca é preciso “proteger toda a comunidade do futebol e garantir os valores da competitividade e justiça”.

Já a Premier League ameaça expulsar os seis clubes envolvidos, com o próprio Governo britânico e o Primeiro-Ministro Boris Johnson a envolver-se e a dizer que fará “o que for preciso” para impedir a criação da Superliga Europeia. Para o ministro da cultura, Oliver Dowden, os Big Six estão a “ir contra o próprio espírito do jogo”.

Depois de uma reunião entre Governo, Federação, Premier League e os representantes oficiais dos adeptos para trabalhar numa estratégia de combate à Superliga, os 14 clubes da Premier League que não se juntaram à Superliga censuram os Big Six e pedem-lhes que parem “imediatamente o seu envolvimento na competição proposta”. O objetivo é garantir que se mantém o critério do mérito desportivo e de proteger a chamada pirâmide do futebol inglês.

Segundo o conceito da pirâmide, há um sistema que envolve 140 ligas individuais, a maior parte das quais amadoras, e que inclui o princípio de que qualquer equipa pode ascender ao primeiro escalão. Ocasionalmente há clubes que fazem o seu caminho da quarta ou quinta divisão até à Premier League, e daí para as competições europeias.

O caso mais famoso é o do Leicester, que renasceu das cinzas passando da League One - terceiro escalão -, para a Liga dos Campeões em sete anos depois de ser campeão em 2016 sob o comando de Claudio Ranieri. Pete Haine também refere isso, dizendo que “por exemplo o Norwich pode estar muito bem e subir do Championship para a Premier League mas depois não ter hipótese real de evoluir ou de ter sucesso na Europa.”

Os intervenientes

Longe da decisão estão os intervenientes. Aqueles que fazem milhões sonhar e outros tantos sofrer. Caso a Superliga avance, é sobre eles que recai uma das grandes ameaças: a da exclusão da participação em provas internacionais. Ao mesmo tempo, são também eles quem menos se pode expressar. Bruno Fernandes foi o primeiro jogador dos 12 clubes fundadores da nova competição a fazê-lo, ao partilhar uma publicação do também internacional português Daniel Podence e acrescentar a frase “os sonhos não se compram”.

Por muito que se mantenham em silêncio, os jogadores terão certamente muito a dizer. Em conferência de imprensa Thomas Tuchel, o treinador do Chelsea, um dos clubes fundadores, não abriu o jogo quando à sua opinião, dizendo confiar no seu clube para “tomar as decisões certas”, mas admitiu que a situação mexia com os jogadores. Dito assim, abertamente, deu a entender que a agitação no balneário seria grande.

O sempre informado site desportivo "The Athletic" reporta que uma fonte próxima dos jogadores do Manchester United garante que os “rapazes não estão felizes” e se sentem “expostos pelo clube” e que não terão sido informados ou consultados durante o processo.

A ideia confirmada no rival Liverpool, onde o treinador Jurgen Klopp se mostrou contra a Superliga e reforçou que “nem eu nem os jogadores fomos envolvidos no processo”. Para Klopp, é importante o lado “o competitivo do futebol” e haver a “hipótese do West Ham poder jogar na Champions League”, mesmo que isso signifique que o Liverpool não o possa fazer.

E agora?

As negociações para a criação da Superliga duraram anos e certamente os clubes esperavam algum tipo de resistência. No Tottenham, quando Pete e outros membros do grupo de adeptos tiveram a última reunião com Daniel Levy, o dono do clube, perguntaram desenvolvimentos da Superliga e Levy disse que um “estudo mostrou que 85% dos adeptos estavam contra. Mas para não nos preocuparmos, porque ele também era adepto do clube e que podíamos confiar nele para tomar a decisão certa. Bem, eu acho que os últimos dias mostram que a maior parte dos adeptos não concorda”.

Mas será que esperavam uma reacção tão forte? Ahkil acredita que os clubes podem dar a voltar e “virar as costas à Superliga, porque se um ou dois clubes desistirem talvez todos os clubes ingleses desistam e sem os clubes ingleses não há Superliga, não quero ser arrogante mas sabemos que o futebol inglês é importante”.

Mas pode o futebol inglês ser vítima do seu próprio sucesso? Os adeptos do Arsenal e do Tottenham já não vivem só no norte de Londres. Estão na China, na Índia, na Nigéria e o potencial para acordos televisivos globais ultrapassa em grande escala o das bancadas.

Falta saber se com os estádios ainda vazios, os clubes vão ouvir o barulho que os adeptos estão a fazer fora deles. Akhil diz que que os donos do Arsenal raramente se encontram com os adeptos por isso “provavelmente não, mas 'bloody hell', vamos fazer muito barulho porque nós amamos o nosso clube e custa-nos fazer isto mas eles estão a tomar decisões sem ouvir os principais acionistas: os adeptos.”

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