Opinião de Graça Franco
A+ / A-

Pobres diabos

15 mar, 2019 • Opinião de Graça Franco


Hoje foi na Nova Zelândia. Há dois dias foi no Brasil. Pensemos apenas no efeito mimético que pode ocorrer: ontem, alguns especialistas alertavam para o cuidado no tratamento das notícias do Brasil, porque algures no globo existiriam muitos outros ovos de serpente prontos a eclodir ao menor sinal.

Na Noruega, continua em prisão perpétua o assassino de extrema-direita que, em 2011, matou 77 jovens num acampamento político de verão. Na sua caçada de lobo solitário queria "matar o futuro". Não queria que miúdos crescessem a defender, como os pais, uma social-democracia solidária, tolerante, plural e aberta, marcada pelo respeito pela diferença e o acolhimento aos outros.

Falhou. Entre os sobreviventes existem já membros do Governo e deputados. Não voltarei a dizer o seu nome para que o possamos esquecer. Como não direi o nome do neozelandês que esta sexta-feira, assumidamente inspirado por ele, escreveu um manifesto de ódio, onde referia a sua passagem por Portugal e outros países europeus há dois anos, e transmitiu, em direto, no Facebook, a carnificina praticada em duas mesquitas com a ajuda de alguns dos seus cúmplices.

Nova Zelândia. Ataque contra duas mesquitas faz mais de 40 mortos
Nova Zelândia. Ataque contra duas mesquitas faz mais de 40 mortos

Quinta-feira foi no Brasil. Dois jovens adultos ex-alunos de uma escola regressaram às aulas para matar quem lhes fizesse frente: alunos, professores e funcionários. De seguida mataram-se. Não se sabe qual a motivação. Apenas que, num dos casos, o atirador foi abandonado pelos pais toxicodependentes e acolhido com os irmãos pelos avós. Como sempre nestas coisas, alguém o descreveu como um menino “reservado e bom”.

O rapaz tinha fascínio por armas e caveiras e fazia avisos e ameaças de morte aos colegas via redes sociais. "Fiquem espertos!" foi a sua mensagem de despedida para os ex-colegas, segundo a revista "Veja". Ninguém ligou. Depois, talvez a inspiração tenha vindo de outros massacres, de outros casos, de outros lugares e da mútua inspiração do seu cúmplice. Balanço: 10 mortos, entre atiradores, crianças, funcionários e professores e mais de uma dezena de feridos.

Sexta foi na Nova Zelândia. Três? Quatro agressores? Fixemo-nos num, assumidamente “supremacista branco”. Os alvos da carnificina: duas mesquitas. Inspiração assumida pelo atacante preso: o triste caso de Utoya em 2011, outro na Carolina do Sul em 2015. O alvo eram “os outros”. A primeira-ministra neozelandesa teve o cuidado de dizer “aqueles outros que éramos nós”. Muçulmanos recolhidos, no seu dia santo e em hora de oração. Alvejados, em direto para o Facebook, em 17 longos minutos de puro terror, para chamar a atenção do mundo para a obra do autor: um manifesto de extrema-direita-radical, com mais de 70 páginas, cuidadosamente elaborado para teorizar o seu ódio. Balanço: meia centena de mortos e outros tantos feridos, todos muçulmanos.

Por ironia salvou-se, quase por milagre, toda a equipa de críquete do Bangladesh. O desporto chique da nobreza do século XVII que se tornou um desporto popular nas velhas colónias britânicas.

A religião, aparentemente, foi só um pretexto. Na Carolina do Sul em 2015, o miúdo de extrema-direita, também ele supremacista branco e que o “inspirou”, resolveu matar, em Charleston, na Igreja Episcopal Emanuel, oito dos seus companheiros de estudos bíblicos no final de uma aula. Motivação primeira: a cor da pele. Dias depois, os membros da comunidade diziam já lhe ter perdoado, mas a justiça do Estado condenou-o à morte depois de ainda ter ponderado a prisão perpétua. Ouviu impávido a sentença, como se já estivesse à espera.

Esqueçamos os países porque, em rigor, o massacre de Columbine, nos Estados Unidos, talvez tenha sido o mais “inspirador” no novo género desde curioso culto da ignorância e do mal, inimigo de qualquer outro culto ou religião que promova o respeito pelo outro ou o bem. Naquele primeiro massacre escolar de grandes dimensões não havia motivo além do ódio em estado puro. Tão brutal que se transformou em jogo de computador, em que os níveis sobem por intrínseca capacidade demonstrada na estratégia para matar cada vez mais.

Pensemos apenas no efeito mimético que pode ocorrer: ontem, alguns especialistas alertavam para o cuidado no tratamento das notícias do Brasil porque algures no globo existiriam muitos outros ovos de serpente prontos a eclodir ao menor sinal.

Gente em busca de se vingar da vida através da idealização dos seus momentos de glória pós-morte, ou ansiosos por zombar com a frieza imperturbável do assassino de Utoya da maior fragilidade da sociedade plural: se não quisermos ceder à maldade dos piores, teremos de os tratar como eles nunca mereceram mas como sabem que serão tratados.

Como eles nunca pensariam tratar os seus supostos inimigos. Os nossos agressores terão de ser tratados por nós segundo os nossos valores, que eles odeiam. E como fica provado até à exaustão, não é a ameaça de pena de morte ou prisão perpétua que faz recuar o agressor preparado para acabar com a própria vida.

Dar-lhes-emos direito a defesa e a um julgamento justo, não os condenaremos à morte, nem nos renderemos à sua incivilidade. Não lhes retiraremos a humanidade e continuaremos a chamá-los pelo seu próprio nome. Mas não o publicaremos, não o fixaremos, não o repetiremos. Hoje, Google e Facebook prometeram eliminar na totalidade os 17 minutos de tiroteio transmitidos em direto. A Reuters, infelizmente, umas horas passadas tinha-os recuperado, pelo menos em parte.

Resistamos a vê-los.

Esforcemo-nos por os ignorar e esquecer os que querem ser lembrados pelas suas tristes obras. Sem lhes chamarmos monstros, porque era assim que queriam ser lembrados. Como monstros sagrados da sua suposta pureza cultural. Evoquemos os heróis que lhes fizeram frente. Recordemos as vidas perdidas às suas mãos. Mas esqueçamo-los tão rápido quanto conseguirmos. Lembremos apenas o que efetivamente foram: uns pobres diabos.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Julia
    16 mar, 2019 lisboa 14:55
    Serao apelidados monstros por uns herois por outros.Estes fenómenos existem por todo o mundo inclusiVé nos EUA.O seu aparecimento é multifctoril e tem a ver com orientaçoes politicas,pressao anti cultur pelos governos,culturas assassinadas pelas elites fraturantes ou dominantes,convicçoes,eliminaçao de alvos adveros,bulling permitido no trbalho,escolas sob disfarce mts vezes de praxes etc etc.A restriçao de armas nao resolve pois qem tiver meios facilmente. adquire.A SUIÇA q tem o maior numero de armas militares em casa dos civis ,uma especie d reservas militares estes fenómenos nao se têm verificado.Há algo na açao politico social a falhar e depois acontecem estes terriveis acontecimentos.Resumindo a pressao violenta anti cultura ancestral paga-se pois cria levntamentos e ódios.Veja-se escola Birminghan e fecho de programa LGBT pela geraçao de ódio q criou dos pais contra escola .O q se sguiria seriam atos terroristas.
  • Arm
    16 mar, 2019 Porto 12:18
    'Ovos da Serpente'? Quem lhes deu origem?
  • Sasuke Costa
    16 mar, 2019 11:36
    Bom dia. Agradecia que não publicassem o comentário enviado por mim. Obrigado.
  • Luísa Meireles
    15 mar, 2019 Lisboa 19:09
    Parabéns Graça!