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Crise política no Brasil

Sérgio Moro demite-se: “Bolsonaro quer ter acesso a relatórios confidenciais”

24 abr, 2020 - 14:39 • Sérgio Costa

Ministro da Justiça do Brasil abandona o governo e não poupa críticas ao Presidente. Moro discorda de alterações na cúpula da Polícia Federal e acusa Bolsonaro de “interferência política” e de “ofensa”. Antes de abraçar carreira política, Moro foi o juiz titular do processo “Lava Jato”. Analistas acreditam que ex-ministro ganha força como candidato presidencial.

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O ministro brasileiro da Justiça, Sérgio Moro, apresentou esta sexta-feira a demissão do Governo liderado pelo Presidente Jair Bolsonaro.

A demissão de Sérgio Moro do cargo de ministro da Justiça e Segurança Pública do Governo de Jair Bolsonaro não poderia ser mais tumultuosa. Adensa a crise política no momento em que o país mergulha no que muitos descrevem como o caos da pandemia de Covid-19 (o ministro da Saúde já havia sido demitido por contrariar o Presidente) e expõe, cada vez mais, a radicalização da política de Bolsonaro.

Na base do pedido de demissão está a insistência na alteração do comando da Polícia Federal.

Sérgio Moro critica o Presidente por não apresentar razões aceitáveis que justifiquem a exoneração de Maurício Valeixo do cargo de director daquela força policial, considerando mesmo “ofensiva” a forma como o processo foi conduzido.

O agora ex-ministro acentua as críticas ao identificar na decisão uma vontade de interferir para “ter acesso a informações e relatório confidenciais da PF”, exclama, acrescentando “não ter condições de trabalho”.

Sérgio Moro, o juiz que conduziu o processo “Lava Jato” com profundo impacto na política brasileira, diz mesmo não ser aceitável qualquer interferência ou “indicação política” falando, assim, numa “violação de promessa de Bolsonaro de que teria carta branca para atuar”. Para Moro é essencial garantir a autonomia da Polícia Federal e sublinha ter sido uma característica essencial da PF durante os governos PT.

De ministro demissionário a candidato?

Depois de ter sido convidado para o Governo como tradução da vontade de combater a corrupção no Brasil, agora, ao demitir-se, Sérgio Moro poderá ter aberto uma ferida profunda no executivo liderado por Jair Bolsonaro.

Esse é, pelo menos, o entendimento de vários analistas citados pela imprensa brasileira para quem a demissão do ministro da Justiça abre a porta ao “impeachment” de Bolsonaro.

Em causa está, não só o facto de arruinar uma das alegadas premissas do governo, o combate à corrupção, mas sobretudo o facto de insinuar um crime de responsabilidade que pode comprometer a presidência Bolsonaro.

Ao explicar as razões da saída do Governo, Sérgio Moro foi concludente ao afirmar estar “sempre à disposição do país”. Mais do que uma expressão clássica, os analistas concluem ser uma frase que lança as bases de uma possível candidatura à presidência do Brasil em 2022. Pesquisas recentes colocam mesmo Sérgio Moro, ainda visto como herói da “Lava Jato”, num nível de popularidade superior ao do próprio Bolsonaro.

Militares perplexos com acusações

Mas esta é também uma oportunidade para Bolsonaro radicalizar a sua política e chamar para o governo figuras que lhe são próximas.

De acordo como jornal “Folha de São Paulo”, o Presidente aproveitará o momento para separar as pastas da Justiça e Segurança Pública. Jorge Oliveira, o chefe da Secretaria-Geral da Presidência e figura muito próxima de Jair Bolsonaro, é apontado como futuro titular da Segurança Pública. A confirmar-se, será mais um passo para reforçar a presença militar no Governo brasileiro.

Já para o cargo de ministro da Justiça são apontados dois nomes: o secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, Anderson Torres, personalidade cada vez mais próxima do Presidente, ou o ex-deputado federal e amigo pessoal de Bolsonaro, Alberto Fraga.

Contudo, as reações dos militares não se fizeram esperar e estão longe de agradar ao inquilino do Palácio do Planalto. Citados pelo Estadão, oficiais-generais afirmam estar perplexos com as acusações de Sérgio Moro e defendem que o capital político perdido por Bolsonaro é irrecuperável.

[noticia atualizada às 18h15]

Comentários
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  • mewmew
    25 abr, 2020 14:15
    Lamento que vocês não sejam brasilienses
  • Diva Correa Santos
    24 abr, 2020 Guarulhos/sp 16:01
    Parabéns Sergio Moro, eu esperava essa atitude de sua parte. Que sirva de exemplo a todos os políticos do Brasil. Muito obrigada