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"No país da Geringonça"

Educação. A espera da professora Leonor – que só com 64 anos entrou no quadro

04 out, 2019 - 09:00 • Tiago Palma (reportagem, locução, sonorização e ilustração) com André Peralta (pós-produção áudio)

Foram 542 os novos professores que ingressaram em 2019 na carreira docente. Ao longo da legislatura, foram cerca de oito mil. Muito se deveu esta ida para o quadro do Ministério da Educação à chamada “norma-travão”, imposta pela Comissão Europeia para impedir a utilização abusiva dos contratos a prazo. A maioria dos professores tem 15 anos de precariedade; Leonor quase 30. A maioria terá 40 anos; Leonor, 64. Deixou, finalmente, os contratos, feitos sempre a termo certo, as trocas de escola, ano sim ano sim, um salário que rondava os mil euros, isto quando se consegue um horário completo, deixou a insegurança que tudo isso traz. "Pensei desistir, pensei. Tem-se uma vida desgraçada. Há uma altura em que tem que se decidir se vale a pena continuar ou abdicar de tudo e fazer outras coisas. Olho para trás e digo: 'Como é que eu aguentei?'" Enquanto decorrer a campanha para as legislativas, a Renascença tira a radiografia ao país em áreas-chave, com histórias na primeira pessoa. Depois da habitação, do emprego, da saúde e das finanças, segue-se, por último, a educação.

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"No país da Geringonça": Educação
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Foram de espera, e de estrada, todos os dias. Vinte e sete anos, todos os dias. Leonor, a professora Leonor, de História, tem hoje 64. Nunca foi outra coisa que não precária, de contrato em contrato, a termo certo todos, de escola em escola, sem ter a certeza de em qual ficaria – se é que ficaria em alguma – no ano que a seguir viesse. Escolas, conheceu dezenas. Alunos, centenas. Percorreu milhares e milhares de quilómetros, ida e volta, ida e volta, madrugar e regressar já de noite, de Lisboa até onde uma nova colocação a levasse, sempre mais longe que perto.

Aguentou. Quase desistiu de tanto esperar. Aguentou porque queria provar-se, e provar ao Ministério, que lhe era devida a entrada na carreira. Enfim, em 2019, sem expectativa, somente “teimosia”, diz, e resiliência, viu-se entrar no quadro do Ministério da Educação.

Entrar assim tarde, faz dela uma rara exceção. É que em média, e olhando às últimas listas da Direcção-Geral da Administração Escolar, até chegar ao quadro, um professor dá aulas durante 15 anos. E a idade média desses professores é de pouco mais de 40. Esperar, ninguém esperou tanto quanto Leonor, portanto.

“Estou cansada. Desistir? Pensei desistir, pensei. É-se mal pago, ordenados baixíssimos, tem-se uma vida desgraçada. Há uma altura em que tem que se decidir se vale a pena continuar. Ou abdicar de tudo e fazer outras coisas. Olho para trás e digo: 'Como é que eu aguentei?’ Isto é quase uma luta inglória. Mas era já uma coisa entre mim e Ministério: vou ter que efetivar, vão ter que reconhecer que algo está mal. Nem que tivesse que concorrer até aos 80 anos, tinham que reconhecer que houve alguma coisa de errado. Era pessoal. Acho que no meu caso foi a teimosia que me fez aguentar. Expectativa, nenhuma”, explica, magoada.

A culpar alguém, pelo esquecimento a que a votariam, pelo “desrespeito” de se ver esquecida, diz que culpa o ministro da Educação – este e cada um antes deste.

“A responsabilidade é do Ministério da Educação, na figura do ministro. É o maior responsável por efetivar ou não efetivar os docentes. Eu lembro-me que na altura da Troika escrevi ao senhor ministro [à época, Nuno Crato] a perguntar se ele não se tinha enganado. E responderam-me que não tinha havido engano nenhum. Naquele ano fui colocada a fazer nove horas. Eu ganhava menos do que o custo dos transportes. Não houve engano, mas de facto eu já devia era ser efetiva. E depois o regime de concursos nem sempre é… [pausa] transparente. Ou não é transparente de todo. Uma vez fui colocada numa escola em Oeiras e fui parar a outra. Eu devia ter ficado numa com horário completo e fui parar a outra com horário incompleto. Como é que se explica isto? Não há explicação a não ser… pronto. Há professores mais novos a efetivar antes – alguns bem mais novos. E questionava-me.” Sem resposta. Sem nenhuma solução.

A “nórdica” que “caiu de para-quedas” em Oeiras

O pai como a mãe eram professores. Mas Leonor não pensou logo em ser. No fim da década de 1970 viajou para a Suécia, passaria lá a seguinte também, formou-se, constituiu família, queria ser investigadora universitária mais até do que professora, até que, em 1992, mudou de plano e regressa a Portugal. E regressa de “jeans, sapatilhas, rabo de cavalo no cabelo e mochila às costas”. Chegada à sua primeira escola, em Oeiras, estranharam-na e estranhou ela uma realidade (bem) diferente da nórdica. Nos costumes. Nos métodos.

“Senti que tinha aterrado de para-quedas. Lembro-me que os meus alunos estavam sentados à porta e disseram: 'Temos uma colega nova?' Eu era a colega! [Risos] As minhas colegas andavam todas de saltos altos, tudo era muito formal. Senti imensas dificuldades de adaptação. Os métodos de trabalho… aqui é tudo feito em cima do joelho. Estamos a falar de alunos que não tinham muita preparação. Havia muita, muita burocracia. Trabalhava muito, às vezes 10 horas por dia, e ainda levava muito trabalho para casa. O choque de realidade com a Suécia foi de tal maneira grande que cometi o erro, dezenas de vezes, de comparar. E não se pode estar a viver numa realidade estando sempre a comparar com outra”, recorda.

Diz que progredimos, daquela década para os dias presentes. Mas há erros, lamenta, que se repetem. E aponta: “O problema de Portugal é que Portugal ainda não acertou com nenhuma reforma. As reformas não são para toda a vida. Mas têm que ter um período em que são experimentadas, tem que se dar esse período, e depois corrigir o que correu mal e manter aquilo que correu bem. E não, sempre que muda o Governo, fazer uma nova reforma. Outro problema é que, idealmente, um professor deve acompanhar os alunos durante algum tempo. E não é assim. Eu mudei de escola todos os anos. Às vezes tenho alunos que chegam ao pé de mim e que me dizem 'foi minha professora' e olho para eles e não os conheço.”

Enquanto manteve o contrato a termo, chegou, num mesmo ano letivo, a dar aulas em cinco escolas diferentes. No último ano foram três. Sempre de substituição em substituição. Diz que é só o tempo de se apresentar e despedir, sem nunca criar laços. Os alunos, mais até do que ela, são quem paga a fatura deste quase desapego. E, assim, retiram-se séculos à História.

“Já me aconteceu num ano ter que dar aquele programa e o passado. Num ano, dois. Isto para crianças não é bom. Não se pode ficar no século XIII, quando se devia ficar no século XVII. E depois dizer assim: 'Pronto, o XIV, o XV e o XVI, isto não foi nada, passaram-se umas coisas, houve umas guerras e umas desgraças, e agora vamos para o século XVIII, que é um século bom, vem aí o ouro do Brasil...’ Isto cada vez acontece mais.” Porquê? “Porque no ano anterior tiveram quatro ou cinco professores diferentes. E o programa foi sendo retalhado, retalhado, retalhado. E entre uma colocação e outra, há sempre uma fase em que os alunos não têm aulas e é preciso recuperar, em contra-relógio, o que ficou para trás. E como é que eu avalio um aluno em oito semanas? Não avalio. É impossível. Dá tempo para dizer 'olá, sou a vossa nova professora de História' e 'adeus, vou para outra escola'. Os alunos são prejudicados. E desmotivam”, explica, crítica.

Trezentos-e-sessenta mil

Perguntaram-lhe um dia qual era a sua profissão. Respondeu “camionista”. Nunca precisou de um tacógrafo; traça, de memória, o tanto que percorreu já. “Por onde andei? Andei – longe, longe, longe –, a fazer diariamente isso, em Minde, em Alcalena, Tomar, Vila Franca de Xira, Torres Vedras.” Não é uma memória que deseje esquecer. “Eu gostei de trabalhar nessa zona, gostei das pessoas da ruralidade, achei que se trabalhava melhor, desde logo porque as turmas eram mais pequenas, e isso faz toda a diferença, mas também porque são alunos que, de certa forma, dão mais valor àquilo que têm.”

O esforço foi imenso. “Foi. Foi, foi. Eu ia de comboio. Só ia de carro quando tinha reuniões até muito tarde. Ia e vinha todos os dias. Esse meu carro, que já não tenho, tinha trezentos-e-sessenta mil quilómetros. Isto só contando os da segunda volta! [Risos] No comboio, de manhã, dormia. Aprende-se a dormir sentada. Eu apanhava o comboio das cinco e meia da manhã, na Gare do Oriente – levantava-me às quatro e meia. E regressava por volta das nove da noite. O tempo da vinda era todo para trabalhar, preparar aulas, corrigir testes. Eu costumava dizer, em tom de brincadeira, quando me perguntavam o que é que eu fazia, que era camionista, porque passava a vida na estrada. Não se tem vida pessoal. E não é uma escolha, é uma imposição”, garante.

Motivação, recolheu-a sempre nos alunos. “Acaba por ser isso o gratificante, apesar de tudo o resto. Não era certamente o ordenado.” Até porque um professor que tenha contrato a termo, além de não progredir na carreira, mantém sempre o mesmo vencimento, que atualmente rondará os 1.000 euros líquidos. E que vai sendo retalhado se o professor não estiver colocado em horário completo, de 22 horas de aulas por semana. Nem sempre Leonor esteve.

Foi sindicalizada. Já não é. É que pese embora reconheça que a luta é uma luta válida, não compreende que os sindicatos se debrucem quase por inteiro na reposição do tempo de serviço, ignorando, diz, os que como ela são precários.

“Dá-se muito peso a uma coisa e pouco a outra. Isso é das coisas que me parece mais injusta dentro da mesma classe profissional. Um professor que está nessas condições, de contrato a termo certo, tem que fazer exatamente o mesmo, e muitas vezes mais, do que os outros que estão em carreira. E ganha um terço daquilo que os outros ganham. E no final do ano não sabe se vai ter trabalho para o próximo. Eu nunca vi, com a força que é preciso, os sindicatos a dizer que as escolas não funcionam sem professores a termo certo. Eu trabalhei em escolas onde havia metade do corpo docente com contratos a termo certo”, denuncia.

Leonor, e outros 541 professores, entraram em 2019 no quadro devido à chamada “norma-travão”, que foi imposta pela Comissão Europeia para impedir a utilização abusiva dos contratos a prazo – ainda assim, abrange somente aqueles que, nos últimos três anos, mantiveram contratos sucessivos em horários anuais e completos. Nesta legislatura entraram perto de oito mil professores, muitos por via da “norma-travão”; outros, menos, por via de concursos extraordinários destinados essencialmente a professores que tivessem pelo menos 12 anos de tempo de serviço. Importa perguntar a quem sabe e lá anda: oito mil professores são professores suficientes?

“Não, claro que não. Seria preciso uma renovação grande da classe. Vai ser preciso gente nova para substituir os que vão saindo, que se vão reformando. E se deixar de haver alunos que ingressem em cursos da área educacional, não se vão substituir. E porque é que se insiste em formar tantos professores em certas áreas, sabendo-se que o mercado de trabalho não absorve esses professores e os obriga a ir procurar outras profissões ou entrar nesta situação de precariedade? Isto tem que ser reestruturado, tudo. O pior é que, não havendo professores suficientes, os que há, desgastam-se. Há muitos casos de esgotamento em professores, sobretudo nos precários. Não será já altura do Ministério da Educação olhar e perceber a razão de haver tantas baixas médicas? Não será por causa das condições de trabalho?”, questiona.

Leonor não pensa já, ou para já, regressar à Suécia. Pensaria durante muito tempo. E durante um curto período, em que não obtivera colocação, foi mesmo até lá dar aulas.

“Quando entrou a Troika em Portugal, eu retomei os contactos com a Suécia. Em 2015 houve aquele grande fluxo de refugiados, muita gente queria ir para a Escandinávia, nomeadamente a Suécia, fiz uma entrevista e disseram-me 'ficou'. Estive até há três anos, mas, no entretanto, continuei sempre a concorrer ao Ministério da Educação. Custou-me um bocado. Porque eu sei que efetivava primeiro na Suécia do que cá. Concorria, mas sentia-me como se estivesse a fazer uma asneira: se me maltrataram durante tanto tempo, vão continuar a maltratar. Mas lá efetivei este ano. Não chego ao topo da carreira, porque não vou ter tempo útil. Nem vou querer ter tempo útil. Depois disto... não vou.”



Esta reportagem faz parte de uma série de cinco, intitulada "No país da Geringonça", que se debruçará sobre os temas da habitação, emprego, saúde, finanças e educação.

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  • Cátia
    09 out, 2019 Lisboa 09:55
    Desculpem, mas há aqui qualquer coisa que não está bem. Qual a habilitação desta professora?? Se consultarem as listas, percebem que há algo decertado. A docente tem nome... parece-me uma história inventada.