|

"No país da Geringonça"

Saúde. Quantos utentes pode um médico de família ter? Se a "sôtora" for João: 2.063

27 set, 2019 - 09:00 • Tiago Palma (reportagem, locução, sonorização e ilustração) com André Peralta (pós-produção áudio) e Rui Barros (dados)

O Governo prometeu-o vezes sem conta: em breve, todos terão médico de família. Mas o primeiro-ministro, ao prometer, não conta, por ora, as centenas de clínicos prestes a reformar-se (e ficarão 484.937 utentes sem nenhum), nem conta, tão pouco, com a recusa dos jovens médicos agora formados, que preferirão (e estão a preferir já) o privado a um SNS onde se trabalha muito e paga pouco. Poucos terão tantos utentes a cargo (os que são dela e os que o Governo “reformulou” mas continuam a ir ao gabinete dela) como Maria João Palma. E a um ritmo de quase meia centena de consultas por dia, dificilmente algum atenderá tanto. Apesar de gostar do que faz e de, assim, nem se dar pelo cansaço, garante: “Isto não é a regra e não tem que ser a regra. Teria que haver outra solução”. Enquanto decorrer a campanha para as legislativas, a Renascença tira a radiografia ao país em áreas-chave, com histórias na primeira pessoa. Depois da habitação e do emprego, segue-se a saúde.

A+ / A-
"No país da Geringonça": Saúde
"No país da Geringonça": Saúde
Clique na imagem para ouvir esta reportagem

Leia também:


Pouco passa da hora de almoço. No piso de cima do Centro de Saúde de Sete Rios, se na sala de espera vaza uma cadeira, logo alguém dela se abeira. Senta-se, de pés no assento, uma rapariga de penteado à moicano, senta-se um homem bem-posto, de gravata e fato, e sentam-se idosas, várias.

Outras como elas, sem vez, cirandam pelo corredor, impacientemente espreitam o horário daquela a que carinhosamente apelidam de “sôtora João”, esperam, bate o pé a rebate se a espera se alonga, e logo que a porta, nunca fechada, só levemente encostada, se entreabre, o “dá licença” é pergunta retórica, e avançam, corpo meio de fora, a cabeça para lá da ombreira.

A promessa é a de que é só o tempo de uma “palavrinha” – e de palavrinha em palavrinha, passa um quarto de hora –, entram, recebe-as a “sôtora” como quem recebe um ente seu, entram-lhe no gabinete como em casa. Levam mazelas e dores, cambaleiam entre lamentações, regressam de credencial em riste, orgulhosamente em riste, aliviadas no rosto e no cambaleio que é já menor.

A “sôtora” é Maria João Palma. É do Centro de Saúde Sete Rios há 30 anos, desde que ali abriu. De vida, tem 63. Diz que só entende a medicina desta forma, próxima e afetuosa, “dar e receber, receber e dar”.

“A relação médico-doente tem mesmo que existir para as coisas funcionarem bem. Às vezes somos quase confidentes. Os portugueses em geral estão pouco habilitados para lidar com o que é negativo, há muito aquela ideia do fatalismo, ‘é assim porque tem de ser’, e acomodam-se. Às vezes a pessoa entra... ‘Como é que está?’ ‘Ai, estou muito mal!’ E começo a brincar: ‘Então, mas você entrou aqui a andar, a ver, a falar comigo e a ouvir...’”, graceja.

E explica: “Nós temos que usar afeto. O que faço muitas vezes é abraçar as pessoas. Porque as pessoas precisam muitas vezes de um abraço naquela altura em que se veem mais frágeis. E depois eu também sou um bocadinho mariquinhas, a pessoa começa a contar-me alguma coisa, e ‘ai-ai-ai', lá estou eu, 'vamos os dois chorar...’ Eu gosto muito de fazer esse papel aqui."

Doutora dois milhares. Fora os do "limbo"

Poucos médicos de família há, como Maria João Palma, com tantos utentes a seu cargo. Na teoria, e de acordo com os números do Ministério da Saúde, na Grande Lisboa é mesmo a segunda que mais tem: 2.063 utentes. Mas isso é a teoria, lembra; na prática, e como resultado de um “depurar” de utentes governamental, terá bem mais que os 2.101 do primeiro da lista.

“O número 2.063 é um número que não é correto. Eu cheguei a ter aqui 2.500 utentes. Entretanto, a lista foi reformulada, porque tentou-se, do ponto de vista político, fazer chegar médicos a mais doentes. Ora, a única hipótese era mesmo tirar os doentes que não eram activos, como lhes chamamos, doentes que não frequentavam normalmente a consulta, para depois dar lugar aos outros que vinham cá mais vezes. No entanto, há uns que foram colocados num ‘limbo’ e que, de vez em quando, quando se lembram, porque precisam, voltam outra vez à consulta. Portanto, o número é mais alto do que esse que está aí”, explica.

Impõe-se fazer a pergunta: conhece-os a todos? A todos esses 2.063? Ou mais… “Eu tenho noção, mais ou menos, dos meus doentes todos. É engraçado: estou aqui desde que abriu o centro de saúde e, portanto, eu já tenho aqui terceiras e quartas gerações de famílias. E realmente é outra maneira de abordar a medicina. Há um fio condutor que não se tem num hospital”, garante.

A todos, os que são os dela e os do “limbo”, que vão e vêm, Maria João Palma procura responder. E responde. Faz dezenas e dezenas de consultas diárias. Às vezes chega a fazer meia centena delas. Mesmo que possa ver nisso algo “incorreto”.

Porquê? “Eu estou a fazer um trabalho, que já me tenho questionado, e que já fui questionada, que acaba por ser um bocadinho 'incorrecto'. Em relação aos colegas. Em relação aos doentes, não propriamente. Aí a prioridade é mesmo dar resposta aos utentes. Eu tento fazer o máximo que posso e o máximo que posso não é correto. Estou a passar além de situações que devem ser resolvidas a outro nível [Governo]. E para se dar resposta a toda a gente da maneira que deve ser dada, eu consigo fazer 40 consultas num dia, que é uma coisa completamente maluca, ou 50 até, mas é um esforço grande que eu consigo gerir, porque me habituei a trabalhar assim. Mas as pessoas não têm que ser obrigadas a trabalhar assim. É uma pressão grande. E há muitos casos de ‘burnout’ entre médicos. Sobretudo a nível hospitalar, há realmente um acumular de trabalho que é complicado."

Todos terão médicos de família? “Duvido”

Consultados pela Renascença, os dados das listas na Saúde referem que em Portugal há 10.256.764 utentes inscritos. Destes, o número daqueles que não tem médico de família é no presente de 624.155 utentes. O Governo garante – e a promessa é do próprio primeiro-ministro – que até ao fim do ano 98% dos portugueses vão ter o seu próprio médico. E mais garantiu o Executivo: durante a próxima legislatura, todos terão.

Maria João Palma não crê na promessa de António Costa. Ri-se até. “Em cinco anos todos vamos ter médico de família? Duvido, duvido. Duvido...”

Segundo a Renascença apurou, analisando dados ministeriais *, e olhado só a medicina familiar, há atualmente 302 médicos portugueses que já atingiram a idade da reforma. O mesmo é dizer que, caso todos eles médicos decidam pedir a reforma ao mesmo tempo, há 484.937 portugueses que ficam imediatamente sem médico de família.

António Costa, apesar da promessa feita, ressalvou sempre: tal só se conseguirá “se todos os candidatos [que vão, por exemplo, substituir os médicos que terminam a carreira] aceitarem as posições”. E o primeiro-ministro acrescentou, durante um debate quinzenal na Assembleia da República, em junho: “O Governo tem consciência de que não basta abrir vagas, é necessário que as vagas sejam suficientemente atrativas para que haja um número de candidatos suficiente para que elas possam ser completamente preenchidas”.

O problema, denuncia Maria João Palma, é precisamente esse: são poucos, muito poucos, os que, agora formados, optam por ingressam na medicina familiar, sobretudo porque não é “atrativo” trabalhar, hoje, no Serviço Nacional de Saúde.

“Nós temos efetivamente falta de médicos. Realmente, saíram poucos médicos durante muito tempo. E, entretanto, há muitos médicos que estão a atingir a idade de reforma e que não conseguem ser substituídos. Nem todos os jovens médicos querem fazer medicina familiar. Este ano as vagas de medicina familiar não foram sequer todas ocupadas. Porquê? Em termos de Estado, é evidente que não estão a ser bem pagos os médicos. E realmente há muita gente que vai optar pelo privado. Porque tem outra maneira de remunerar e de valorizar o trabalho que se faz. [O Governo] não consegue obrigar as pessoas a ser aquilo que elas não quiserem ser.”, lamenta.

Sem dar pelo cansaço, apesar de tudo (ou do muito pouco)

À falta de novos médicos, outros, como Maria João Palma, desdobram-se em consultas. Apesar de tudo, da remuneração que afasta mais do que o que atrai, apesar das muitas horas dispensadas para lá da hora, do ritmo de atendimento que disfarça males na saúde mas que a Saúde não resolve, Maria João Palma continua a atender. Outro e outro utente. Como nenhum outro médico.

“Eu como tenho fama de ‘facilitadora’, normalmente tudo me vem cá parar. Às vezes digo, por brincadeira, que sou a bombeira de serviço. Porque realmente qualquer coisa que seja preciso, procuram-me primeiro a mim. Agora, isto não é a regra e não tem que ser a regra. Teria que haver outra solução. E acho que a outra solução passa realmente por remunerações diferentes. Porque um médico aqui, a 35 horas, que esteja há 30 anos, ou vinte-e-tal, a fazer serviço aqui, aquilo que recebe é ridículo: são 1.500 euros por mês talvez”, atira.

Explicando como faz para tudo fazer bem, ao Ministério da Saúde deixa um desabafo em jeito de lembrete: não é OK.

“Muitas vezes o que eu consigo, e o tempo pode parecer pouco, mas acaba por render, é deixar a pessoa ir conversando um bocadinho sobre alguma situação que precise de conversar e eu vou tentando resolver coisas que são puramente administrativas. Isto pode, ao nível do Ministério da Saúde, aparentar: 'OK, é fácil de fazer, e se ela se aguenta assim, os outros também'. Não. Não é nada, nada fácil. Agora, que eu vou ter sempre tempo para os doentes que precisam, isso vou. Se um doente precisa de estar aqui comigo meia-hora à conversa, está. Posso sair daqui às oito da noite, às nove, às horas que for preciso”, garante.

Ao cansaço, mal dá por ele: “Eu realmente não tenho essa perspetiva, que já ouvi noutros colegas, de cansaço. Porque a medicina familiar sempre foi a minha opção. É sempre diferente, todos os dias vai ser diferente. E faço isto com muito gosto. Estou sempre a sorrir. Porque realmente as coisas positivas são mais do que as negativas. E habituei-me sempre a valorizar isso.”

* Todos os dados e código da análise feita estão disponíveis no Portal de Dados Abertos da Renascença.



Esta reportagem faz parte de uma série de cinco, intitulada "No país da Geringonça", que se debruçará sobre os temas da habitação, emprego, saúde, finanças e educação.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Agostinho Ribeiro
    27 set, 2019 Camarate 11:06
    O GRUPO RR ,CONTINUA A SER O GIGANTE DA RADIODIFUSÃO EM PORTUGAL!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!UM ABRAÇO AMIGO!!!!!!!!!!!!! Agostinho Ribeiro