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Papa compara Buda a Francisco de Assis em encontro com conselho budista

29 nov, 2017 - 10:32 • Filipe d'Avillez , Aura Miguel

O budismo é mais que apenas uma religião no Myanmar, desempenha um importantíssimo papel social e, como tal, encontra-se politizado e nalguns casos instrumentalizado pelo regime.

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Papa compara Buda a Francisco de Assis em encontro com conselho budista
Papa compara Buda a Francisco de Assis em encontro com conselho budista

O Papa Francisco encontrou-se esta quarta-feira com o Conselho Supremo dos Monges Budistas do Myanmar e apelou a um esforço conjunto pela paz, comparando as palavras de Buda às de São Francisco de Assis.

O Myanmar é um país de esmagadora maioria budista e o número de monges desta religião é quase igual a toda a população católica no país. Mas as relações entre as diferentes comunidades religiosas nem sempre têm sido pacíficas, com o regime e alguns sectores budistas a promover um nacionalismo assente no budismo, que vê outras confissões, mas sobretudo o islão, como ameaça.

Contra esta mentalidade, o Papa disse que “se devemos estar unidos, como é nosso propósito, ocorre superar todas as formas de incompreensão, intolerância, preconceito e ódio. Como podemos consegui-lo? As palavras de Buda oferecem a cada um de nós uma orientação: ‘Vence o rancor com o não-rancor, vence o malvado com a bondade, vence o avarento com a generosidade, vence o mentiroso com a verdade.’”

“Sentimentos semelhantes se expressam nesta oração atribuída a São Francisco de Assis: ‘Senhor, fazei-me instrumento da vossa paz. Onde houver ódio fazei que eu leve o amor, onde houver ofensa que eu leve o perdão, onde houver trevas que eu leve a luz, e onde houver tristeza que eu leve a alegria’. Que esta sabedoria continue a inspirar todos os esforços para promover a paciência e a compreensão e curar as feridas dos conflitos que, ao longo dos anos, dividiram pessoas de diferentes culturas, etnias e convicções religiosas.”

Francisco realçou que este esforço não é responsabilidade única das religiões. “Tais esforços não são em caso algum prerrogativa apenas de líderes religiosos, nem são de competência exclusiva do Estado. Mas é a sociedade inteira, são todos aqueles que estão presentes na comunidade que devem partilhar o trabalho de superar o conflito e a injustiça.”

Mais que meros religiosos

Os monges budistas desempenham um papel social importantíssimo no Myanmar. Há 500 mil monges, numa imensidão de mosteiros espalhados pelo país. Todos os dias os monges e monjas fazem rondas para recolher ofertas de comida, estando impedidos de receber dinheiro. A oportunidade de poder oferecer esmola, sobre a forma de comida, a um religioso é essencial para os budistas leigos obterem mérito e progredirem no seu caminho espiritual.

Em 2007 muitos monges começaram a protestar contra o regime naquilo a que se veio a chamar a “revolução do açafrão”, devido à cor dos mantos usados por estes religiosos. Os monges começaram por exigir reformas ao regime militar e quando as forças armadas foram enviadas para a rua os religiosos passaram a virar ao contrário as tijelas de esmola ao passar por eles. Este gesto simbólico significava que não estavam dispostos a aceitar as esmolas dos militares, o que numa sociedade budista equivale a uma excomunhão.

Precisamente para tentar controlar melhor o clero, o regime militar criou em 1980 o Conselho Supremo, conhecido como “Shanga”, que é composto por 47 membros. Todos eles são nomeados pelo Estado, tornando o conselho um instrumento político e politizado. Em 2007 o Shanga condenou os participantes da Revolução de Açafrão e desde essa altura já condenou e até mandou deter outros críticos do Governo.



Esta dimensão política não passou despercebida no discurso do Papa, que saudou a presença na sala do ministro dos Assuntos Religiosos e da Cultura.

De resto, Francisco preferiu concentrar-se naquilo que une católicos e budistas, duas religiões muito diferentes e com visões diametralmente opostas da realidade, mas que acabam por ter muitas semelhanças práticas na forma como realçam a importância da compaixão, do amor e do perdão.

“O nosso encontro é uma ocasião importante para renovar e fortalecer os laços de amizade e respeito entre budistas e católicos. É também uma oportunidade para afirmar o nosso empenho pela paz, o respeito da dignidade humana e a justiça para todo o homem e mulher. E não é só no Myanmar, mas em todo o mundo, que as pessoas precisam deste testemunho comum dos líderes religiosos.”

969 contra 786

Para além da instrumentalização política do budismo por parte do regime, existe ainda um problema de nacionalismo budista protagonizado por monges radicais que incentivam à violência contra o islão, sobretudo em estados com comunidades significativas muçulmanas, como é o caso de Rakhine, onde centenas de milhares de muçulmanos de etnia rohingya – termo que o regime rejeita, apelidando-os de bengalis – têm fugido para o Bangladesh após aquilo que tem sido descrito como limpeza étnica por parte das forças armadas.

Um grupo em particular, conhecido como o Movimento 969 tem estado na linha da frente deste nacionalismo budista. Liderado pelo monge Bhikkhu Wirathu, que foi considerado pela revista “Time” a “face do terror budista”, este grupo apela à violência contra muçulmanos e promove iniciativas legislativas para limitar a liberdade religiosa. Uma das leis propostas proibiria mulheres budistas de casar com não-budistas sem autorização das autoridades religiosas.



O nome do grupo deriva de um número da simbologia budista, que se refere aos nove atributos de Buda, os seis atributos dos seus ensinamentos e os nove atributos da comunidade monástica.

Os nacionalistas utilizam-no para se oporem ao hábito islâmico, particular aos muçulmanos desta zona da Ásia, de usarem o número 786 como símbolo do islão. Neste caso 786 é o somatório do valor numérico de todas as letras da frase “Em nome de Alá, o compassivo e misericordioso”. Os muçulmanos exibem frequentemente este número nos seus carros, telemóveis ou nas montras das suas lojas.

Mas segundo os budistas radicais os números 786, quando somados, dão 21, mostrando uma conspiração para que o Islão domine o Myanmar durante o Século XXI.

A visita do Papa ao Myanmar prossegue esta quarta-feira com um encontro com os bispos católicos. Quinta-feira de manhã - madrugada em Portugal - Francisco celebra missa com os jovens e depois parte para o Bangladesh. O regresso a Roma está marcado para sábado.

A Renascença com o Papa em Myanmar e no Bangladesh. Apoio: Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

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