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Rohingya. Uma tragédia que “não é tão clara como parece”

28 nov, 2017 - 08:48 • Filipe d'Avillez

Centenas de milhares de muçulmanos que vivem no estado birmanês de Rakhine têm procurado refúgio no Bangladesh. As notícias de atrocidades cometidas pelas forças armadas são chocantes, mas o historiador Miguel Castelo Branco ajuda a ver o outro lado da questão e compreender as raízes do problema.

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As imagens têm feito várias vezes manchetes aos longo dos últimos anos e com a visita do Papa Francisco, que chegou na segunda-feira ao Myanmar, os olhos do mundo voltaram-se novamente para o estado de Rakhine, onde segundo organizações como a Amnistia Internacional a minoria muçulmana vive numa situação de apartheid.

O nível de violência exercido contra os Rohingya é “inaceitável”, diz o historiador Miguel Castelo Branco, mas as raízes deste problema são complexas, explica.

Durante o império inglês na Ásia era habitual haver transferências de população. “Os ingleses levaram para a Malásia milhares – que agora são milhões – de chineses, como levaram para o Uganda indianos, como levaram chineses também para a actual Singapura e levaram bengalis para o ocidente de Myanmar. Para o Governo eles não são birmaneses, isto é, não são cidadãos do Myanmar. Chamam-lhes bengalis, porque vieram do Golfo de Bengal.”

Quando os britânicos abandonaram a região, dando independência às suas antigas possessões, não perdoaram o facto de os birmaneses terem apoiado o Japão durante a Segunda Guerra Mundial e “entregaram todas as armas que tinham aos muçulmanos, ditos rohingyas. Acontece que entre 1948, data da independência da Birmânia, e os anos 60, estes muçulmanos desenvolveram uma guerrilha intensíssima que foi, finalmente, vencida pelo Exército birmanês.”

O historiador, que viveu largos anos na Tailândia e conhece bem a região, diz que a imprensa internacional só tem mostrado um lado da questão. “Têm morrido milhares de budistas empalados, queimados vivos, com templos destruídos, pelo chamado Exército de Salvação Rohingya, que é outro nome para a Al-Qaeda”.

O tema é naturalmente sensível no Myanmar e o próprio Cardeal de Rangum, Charles Bo, já pediu ao Papa para não utilizar o termo rohingya durante a visita. A primeira-ministra e Nobel da Paz Aung San Su Kyi, tem sido acusada de complacência com os abusos humanitários cometidos pelas Forças Armadas, mas Miguel Castelo Branco diz que os especialistas ocidentais que conhecem o país não vêem a questão como sendo a preto e branco.

“Há um problema de populações, um problema de sofrimento humano, mas não me parece que da parte da primeira-ministra e da parte da grande maioria da população – e sobretudo dos agentes políticos birmaneses – haja qualquer expressão de ódio em relação aos muçulmanos.”

“Não está em curso uma guerra religiosa, ao contrário do que muitas pessoas julgam. A situação não é tão clara como parece e há, no caso dos rohingyas, um fantasma que é a Al-Qaeda, que também está em Mindanao nas Filipinas e que está nas províncias muçulmanas do Sul da Tailândia. Portanto a questão não é tão linear como alguns pretendem fazer crer”, diz.


Católicos já viveram dias piores

O birmanês católico James Swe, que como a maioria dos católicos no Myanmar é descendente de portugueses, mostra-se claramente reticente em falar do problema dos rohingya, nome que também rejeita.

“Não queremos falar muito do assunto, mas a Igreja tem tentado ajudá-los”, explica. “Os cristãos tentam ser neutros nestes conflitos religiosos e culturais”.

Também os cristãos são uma pequena minoria no Myanmar, e os católicos uma minoria dentro do universo cristão. James Swe diz que as relações com a maioria budista já foram mais complicadas. “Durante o regime militar nacionalizaram 32 escolas e seis hospitais que pertenciam à Igreja Católica. Nunca foram devolvidos. Também durante esse tempo estávamos proibidos de construir ou até manter as nossas igrejas, nem as podíamos pintar. Mas agora, com o governo novo, já nos deixam”, explica.

Os bayingyi, como são conhecidos os descendentes dos portugueses naquele país, orgulham-se da sua herança de bravos guerreiros, que ajudaram os reis birmaneses a consolidar e expandir a sua influência. Mas actualmente, diz James, os católicos não têm caminho aberto nas Forças Armadas que, segundo especialistas ainda dominam verdadeiramente o país. “Hoje só se pode chegar a capitão, não se é promovido mais. O último militar influente católico foi o general Abel, mas isso foi há 20 anos. Agora já se reformou”, explica James Swe.

O Papa Francisco chegou na segunda-feira ao Myanmar. Depois de passar alguns dias no país segue para o Bangladesh e no sábado regressa a Roma.

Comentários
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  • José Saraiva
    28 nov, 2017 Viseu 11:24
    o "politicamente correcto" ESCONDE muitas VERDADES em várias partes do Mundo....ultimamente os MUÇULMANOS são os "COITADINHOS" e grande parte do "rebanho ocidental" embarca (e quando não é obrigado a tal) neste "suicídio"....o PAPA FRANCISCO que se preocupe com o seu "rebanho" e deixem as outras ovelhas para os demais pastores...
  • Gabriel Monchique
    28 nov, 2017 Baucau , Timor 10:12
    Portugal deveria dar algum apoio cultural as comunidades de luso-descendentes na Ásia,e até ganharia influência regional. So em Bangkok há quatro paróquias “portuguesas”! O primeiro congresso dessas comunidades foi organizado em 2016 em Malaca pela comunidade portuguesa local e em 2018 o segundo será organizado em Timor. De Portugal participaram o Dr Fernando Nobre, da AMI, e o Dr Carlos Carreiras,pela Findacao D. Manuel II, e uma Senhora voluntaria representando o Instituto Camões nessa região..