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​“Terra Nova”. Filme retrata vida dura dos pescadores de bacalhau

28 out, 2021 - 06:30 • Maria João Costa

Estreia esta quinta-feira o filme “Terra Nova” de Artur Ribeiro, que tem Virgílio Castelo num dos principais papéis. Rodado durante três semanas no mar, o filme mostra a dureza da vida dos pescadores de bacalhau nos anos 30.

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A ideia deste filme nasceu de um sonho do ator Nicolau Breyner. “Terra Nova” tem por base o livro “O Lugre”, de Bernardo Santareno, que chegou a ser representado no Teatro Nacional D. Maria II. Agora chega às salas de cinema.

Em entrevista à Renascença, o ator Virgílio Castelo, que encarna a personagem do Capitão Silva que comanda o bacalhoeiro, explica como foi a rodagem, o tempo que estiveram embarcados e como desconhecia a dureza da vida destes pescadores de bacalhau.

“Terra Nova” relata a história dura de muitos marinheiros portugueses. Como é que o filme do Artur Ribeiro conta a vida destes pescadores de bacalhau?

É a partir de uma história verdadeira que aconteceu nos anos 30 e que deu origem a uma peça de teatro do Bernardo Santareno, que estreou nos anos 50 no Teatro Nacional e que deu agora este filme do Artur Ribeiro. É a história de um lugre, de um barco de pesca de bacalhau que foi para a Terra Nova, para a zona do Canadá, como ia todos os anos.

O que aconteceu nesse ano, é que havia pouco bacalhau. O capitão decidiu ir mais para norte, mais para próximo do Polo Norte, mais para o frio, para uma zona do mar que não se conhecia. Eles tinham absolutamente que pescar bacalhau.

Era quase um caso de vida e morte?

As pessoas não sabem, mas estes pescadores ganhavam à percentagem. O dinheiro que ganhavam quando chegavam a Portugal, era em função do bacalhau que tinham pescado. Todos eles, desde o capitão, até ao marinheiro mais humilde. Se não pescassem era um drama para esta gente. Então o capitão resolve arriscar, ir mais para norte e há um motim a bordo porque os marinheiros têm medo do resultado da viagem.

A atitude deste capitão tem alguma semelhança com as atitudes que terão tomado alguns navegadores portugueses no século XVI para fazerem as descobertas. O que acontece é que o capitão acaba por ter razão, eles conseguem chegar a outros bancos de bacalhau e, a partir dessa altura, os portugueses começaram a ir pescar para esses bancos que foram descobertos nessa altura.

Como foram as rodagens? Tiveram algum tempo embarcados, foi muito exigente?

Sim, foi um bocadinho. Enfim, não apanhamos as condições que esta gente apanhava, coitados! Mas mesmo assim, tivemos três semanas num barco na Noruega. Fomos bem para cima, para zonas frias e difíceis. Apanhamos mar complicado, sobretudo depois no Mar do Norte.

Essa viagem e a rodagem a bordo foi essencial para criar um entrosamento entre nós, atores, que ia para além da representação. Já nos conhecíamos, mas aqui tínhamos que passar para o espetador aquilo que acontece quando os homens estão no mar muito tempo. Criam-se laços que vão para além do que se verbaliza. Desse ponto de vista foi essencial passarmos estas três semanas juntos e conviver uns com os outros e trazer para o filme, a camaradagem dos bastidores.

O elenco conta com nomes como o seu, o Vítor Norte, o João Reis e muitos outros. É uma equipa de luxo?

Tem atores muito bons, passo a imodéstia (risos), mas são atores com provas dadas, quer os mais velhos e os mais novos. Somos colegas que se admiram uns aos outros. Por isso mesmo foi fácil trabalharmos juntos, com o acréscimo deste companheirismo que criamos no barco. Dormimos nas camaratas, comíamos juntos, criou uma unidade que se nota no filme e é importante para o filme.

A concretização deste filme era um sonho antigo de Nicolau Breyner?

Sim! Aliás, lembro-me que estava a fazer um filme alemão com o Nico, um ou dois anos antes dele falecer. Estávamos a rodar em Berlim, e estava eu, ele e o João Lagarto, e lembro-me dele falar deste projeto que queria muito levar para a frente e queria que eu fizesse esta personagem. Nunca pensei que depois da morte dele este projeto fosse para a frente e que acabássemos por o fazer. Era um grande projeto do Nico que ele queria muito fazer.

O bacalhau é um prato habitual nas mesas dos portugueses. Muitos desconhecem a história dos primeiros pescadores de bacalhau, da dureza que era pescar nestas condições?

Era muito dura, eu não tinha a noção. Sabia que era duro, mas não tinha ideia que fosse tão duro! A questão é que, nesta altura em que se passa o filme, os barcos portugueses nem sequer tinham motor, eram à vela. As campanhas duravam seis meses. Estes homens levavam para aí 50 dias a chegarem ao Canadá. Depois ficavam naqueles bancos a pescar e, depois, eram mais 50 dias para voltarem. Iam a terra uma ou duas vezes. Punha-se sempre o problema da sobrevivência.

Era muito dura, a vida destes homens que embarcavam nos dory e, por vezes, ficavam perdidos no mar?

O dia a dia era terrível. Cada marinheiro saia nos seu dory, eram botes pequenos e cada pescador levava uma linha com vários anzóis e, depois, ia remando na direção dos bancos e ia deixando essa linha. Na volta, quando voltavam para o barco, iam levantando essa linha com os anzóis e iam vendo quantos bacalhaus tinham pescado.

O problema é que quantos mais bacalhaus pescassem, mais ganhavam. E se não pescassem bacalhau nenhum, era um problema para eles. Alguns tinham-se endividado em terra para ir no barco, deixavam dinheiro às famílias, se não ganhassem dinheiro, era terrível porque a miséria já era muito grande. O drama destes homens era, para além de um drama físico de terem de pescar, havia um lado psicológico porque se não ganhassem as famílias ficavam na miséria.

Havia muita pobreza em Portugal. Muitos embarcavam sem saber nadar, sem nunca terem ido ao mar.

Exatamente. Acho que isso ainda acontece em alguns setores da pesca em Portugal. Mas nessa altura era terrível. A maior parte dos pescadores era das terras marinheiras, de Vila do Conde, Peniche, Nazaré, e não havia, para além da pesca, outros meios de sobrevivência. Em terra era muito difícil. Tinham pequenas hortas, mas não havia emprego, indústria.

O mar era a sobrevivência para esta gente. Quando queriam embarcar, não tinham experiência do mar. Iam porque era a única maneira de ganharem dinheiro. Houve muitos dramas de gente que não sabia nadar e que não tinha condições para trabalhar no mar que resultou em muita tragédia.

É um filme importante, para se valorizar esta pesca e esta memória?

Acho que sim, vale a pena ver. Primeiro tomamos conhecimento da realidade dura como era para conseguir chegar ao bacalhau. Hoje em dia não é assim. Hoje os barcos estão apetrechados e os marinheiros preparados.

Tudo isso é muito diferente, mas vale a pena ver o que foi o sacrifício destes homens, como imaginar através deles e deste filme, imaginar o que foi a aventura dos portugueses no século XV e XVI. Ainda deveria ser mais duro chegar a algum lado. Este filme mostra-nos um bocadinho do que terá sido essa realidade, através da pesca nos anos 30, 40 e até aos anos 50.

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  • Francisco Sousa Rodrigues
    29 out, 2021 Paranhos, Porto 09:03
    Ver este filme e visitar o Navio-Hospital Gil Eanes, ancorado em Viana do Castelo, são duas atividades culturais que se complementam. Para quem não sabe, o navio-hospital prestava assistência à frota de bacalhoeiros e era dotado de recursos extraordinários, para a época.

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