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Indignação na cultura. Petição pede cancelamento de TV Fest

09 abr, 2020 - 14:59 • Maria João Costa

Já são mais de 15 mil assinaturas. O festival pensado para este tempo de confinamento custa um milhão de euros e está a gerar polémica. Nem o Ministério da Cultura, promotor da iniciativa, o divulgou no site onde coloca toda a informação para o setor.

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“Não cabe ao Estado criar eventos de cultura”, lê-se no texto da petição “Pelo cancelamento imediato do festival TV Fest”, a iniciativa do Ministério da Cultura e da RTP.

Dirigida ao presidente da Assembleia da República e lançada na quarta-feira à noite, a petição já conta com mais de 15 mil assinaturas.

O festival vai para o ar a partir desta quinta-feira à noite e tem duração prevista de um mês, com concertos diários de artistas portugueses. Pensado para ser emitido nesta fase de estado de emergência devido à pandemia de Covid-19, conta com um orçamento de um milhão de euros, financiado pelo Ministério de Graça Fonseca.

Curiosamente, o Ministério da Cultura – que criou um site onde tem concentrada toda a informação para o setor durante este período pandémico – não usou esta plataforma para divulgar este festival, que está a gerar polémica.

A ministra Graça Fonseca escolheu um direto no Telejornal da RTP, na terça-feira, para anunciar a iniciativa artística.

O TV Fest, que tem como mote “De Casa dos Artistas para a sua Televisão”, prevê quatro atuações por dia, transmitidas na RTP Play e no canal 444, em todas as operadoras nacionais (NOS, MEO, Vodafone e Nowo).

Embora reconheça que “o setor enfrenta atualmente uma grave crise financeira e uma total falta de perspetiva de futuro profissional”, devido à estagnação da atividade cultural, a petição considera “o Ministério da Cultura não pode, em qualquer instância, criar um festival de música portuguesa, para apoiar músicos e técnicos. Não cabe ao Estado criar eventos de cultura”.

No texto pode ainda ler-se que este evento “constitui uma ameaça ao ecossistema cultural português”, por eliminar “curadores, diretores artísticos, músicos, técnicos e os demais” profissionais da sua conceção.

No texto, que tem reunido muitas assinaturas a cada minuto que passa, denuncia-se “um jogo em corrente exclusivo, e de círculo fechado, aos seus participantes artísticos”.

Em declarações ao “Jornal de Notícias”, na quarta-feira, a titular da Cultura explicava que "a música foi das primeiras áreas a ter de parar, ainda antes do estado de emergência", e acrescentava que “foram os músicos que iniciaram uma dinâmica de entrar em nossas casas, através do online e das redes sociais".

No entender dos redatores da petição, o TV Fest (que prevê 120 concertos) é apontado como “uma medida antidemocrática e não inclusiva”. No texto é pedida “imparcialidade, justiça e transparência absoluta sobre todos os critérios de atribuição e distribuição de oportunidades e fundos públicos.”

O festival contará com a apresentação de Júlio Isidro, que já escolheu os primeiros quatro artistas: Fernando Tordo, Marisa Liz, Ricardo Ribeiro e Rita Guerra.

A seleção dos próximos músicos deverá ser feita pelo último artista a atuar. Ao JN, Graça Fonseca assegurava, esta quinta-feira, que a escolha "vai do pop ao fado e do hip-hop ao cante alentejano".

Na quarta-feira, em entrevista à Renascença, a ministra da Cultura referia, no final da reunião com os seus homólogos europeus, que o Estado deveria “pensar e repensar o regime de ajuda” à comunicação social.

“Não estou disponível para participar”

A comunidade artística já começou a reagi. Na sua página de Facebook, o cantor Salvador Sobral escreveu: “Embora apareça a minha fronha chapada nesta notícia, não tenho nada que ver com esta iniciativa”.



Sobral já assinou a petição e a sua cara surgiu num plano de uma peça que a RTP emitiu sobre o evento.

Também Paulo Furtado, o músico que assina com o nome The Legendary Tigerman, escreveu hoje no seu mural, em jeito de preâmbulo que “não é costume meu opinar negativamente sobre o que as pessoas fazem, e menos ainda sobre o que os meus colegas músicos fazem”, mas “o caso muda profundamente de figura quando se trata de uma iniciativa do Ministério da Cultura e da RTP1, que usa fundos públicos para patrocinar uma ação que visa reembolsar alguns destes espetáculos que os músicos têm feito de modo mais ou menos espontâneo, e cujos contornos são, no mínimo, pouco claros.”

“Não compreendo este método, ou mecanismo, do ponto de vista ético”, sublinha Furtado que termina dizendo não estar disponível para participar.



Outros músicos e agentes culturais têm recorrido às redes sociais para expressar a sua indignação. É o caso de Joana Negrão, compositora e vocalista dos SEIVA, que usou a sua página da mesma rede social para criticar a iniciativa.

“Numa altura em que milhares de artistas estão com o verão todo a ser cancelado, é uma vergonha o Estado disponibilizar orçamento a um ‘festival de música’ na TV, que vai pagar principescamente aqueles artistas que estão sempre na televisão”, condena.

A situação no setor artístico é crítica. O CENA – STE, Sindicato dos Trabalhadores de Espetáculos, do Audiovisual e dos Músicos, diz nesta quinta-feira que 98% dos trabalhadores viram o seu trabalho cancelado, 33% dos quais por mais de 30 dias.

A estrutura sindical esclarece que 85% dos trabalhadores são independentes.

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