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Pastoral da Família

Henrique Leitão. “Os pais têm de se aproximar da escola dos filhos, não só para reivindicar”

04 dez, 2020 - 01:02 • Filipe d'Avillez

A relação entre os pais e as escolas nem sempre é fácil, mas urge insistir nela para bem dos alunos, sublinham os intervenientes no terceiro de quatro webinars dedicados à educação e organizados pela Pastoral da Família do Patriarcado de Lisboa.

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Os pais têm a obrigação de se envolverem nas escolas dos seus filhos e de os acompanhar na sua vivência escolar, considera Henrique Leitão.

O historiador e Prémio Pessoa foi o orador convidado do terceiro webinar da Pastoral da Família do Patriarcado de Lisboa para falar, na dupla qualidade de pai e de professor, sobre “O valor dos adultos para crianças e jovens”.

Grande parte da conferência de Henrique Leitão focou a relação entre a família e a escola, com o historiador a concluir que “os pais têm de se aproximar da escola dos filhos, não só para reivindicar. É muito desagradável se os pais só aparecem quando há problemas. Os pais devem conhecer os professores, devem estabelecer laços de amizade com os professores, participar da vida da escola e saber o que acontece, estar nas festas, ir às reuniões, estar presentes”.

Sublinhando sempre que os pais são os primeiros educadores dos seus filhos, Henrique Leitão explicou que isso não tem nada a ver com os conhecimentos técnicos, mas com o tipo de relação que existe.

“A educação também tem uma parte de transmissão de conhecimentos e competências entre o educado e o educador, mas não há maneira de reduzir a educação a este passo de transmissão de conhecimentos. A tarefa educativa tem uma dimensão muito maior. É por isso que os pais são os primeiros educadores das crianças, porque é na família que se encontra o ambiente ideal.”

“Não é porque os pais sabem mais do que os outros, mas porque a relação educativa é mais profunda e mais intensa, tornando o momento educativo mais forte e mais pleno”, explica.

Esta função educativa dos pais é, por isso, mais do que um direito, é um dever, considera e desse dever advém a obrigação de tentar ter uma boa relação com a escola. “Mais do que reclamar direitos o que se pede aos pais é o reconhecimento desta relação entre pais e professores. A relação pode ser difícil, tensa ou de discórdia. A escola pode intervir com propostas educativas que os pais acham que não são aceitáveis e os pais devem manifestar isso muito claramente, relembrando que são os primeiros educadores, mas isso exige dos pais intervenção na escola.”

Escola. Um desafio enorme, giro e bom

A intervenção de Henrique Leitão neste terceiro webinar foi precedida de umas curtas palavras de D. Daniel Henriques, bispo auxiliar de Lisboa.

D. Daniel sublinhou também o papel dos pais no ambiente escolar. “Depois da família a escola é o espaço físico e humano onde os nossos jovens mais tempo passam e que mais os ocupa e absorve. Muito do seu carácter estrutura-se nas relações com os professores e colegas em ambiente escolar, para o melhor e para o pior.”

“A presença dos pais, nomeadamente dos pais cristãos, no ambiente escolar, não pode ser descurada”, concluiu.

E foi precisamente esse o testemunho dado pelo casal Joana e José Quintela, que também participaram no webinar na qualidade de pais de família numerosa e muito ativos na sua vida escolar, nomeadamente através da Associação de Pais.

O casal insiste que aborda sempre a relação com a escola de uma forma positiva. “A escola é um desafio enorme, giro e bom. Partimos sempre de um pressuposto de confiança na escola e nos professores e a base é essa”, explica Joana Quintela.

Falando da sua participação na associação de pais, insiste que “estamos lá para ajudar, nunca para controlar. Quando temos de intervir os professores sabem com quem estão a falar. É esse o ponto principal, dar-nos a conhecer e sermos conhecidos para trabalharmos para o objetivo comum”.

É esta também a experiência de Filipa Carvalho, de 50 anos, que tem uma larga experiência na escola a dar aulas, para além de ser também mãe. A professora tem sobretudo boas experiências das suas relações com os pais dos alunos, mas admite que por vezes pode ser complicado, especialmente quando os pais só aparecem – ao contrário do que sugere Henrique Leitão – para se queixarem.

“Às vezes são as famílias que viram as costas à escola e outras é a escola que vira as costas às famílias. É difícil aceitar que todos temos algo de positivo a dar ao processo. É difícil às vezes aceitar a intervenção dos pais na escola”, admite.

“Todos nós, os professores em geral, acham que os pais podem participar na vida da escola, mas sentimos sempre que estão a entrar no nosso território, porque muitas vezes entram na escola não para ir às festas, nem para participar nas reuniões, mas sim para reivindicar e essas reivindicações nem sempre caem bem quando estamos cansados e aborrecidos.”

A outra oradora neste webinar foi Maria Patrocínio, de 24 anos, que falou na qualidade de ex-aluna na escola pública, em Torres Vedras, que durante anos teve de encontrar forma de viver a sua fé num ambiente escolar onde estava em minoria.

Da experiência guarda apenas boas memórias. “Noventa por cento dos meus colegas não iam à missa, eu era a única, ou talvez outro colega meu. Toda a minha vivência da fé foi muito guiada pelos meus pais e depois por pessoas de outros grupos em que estava inserida.”

“Os meus pais não eram reivindicativos na escola, nem eram muito interventivos, mas eram muito interventivos em casa. Sempre tive esta liberdade de ser eu própria, de olhar para a escola e decidir o que queria retirar dali para mim, porque em casa podíamos olhar para isso em família e era importante sentir que me davam essas ferramentas em casa e depois davam-me essa liberdade de retirar para mim e para a minha formação”, afirma a jovem, que descreve ainda o ambiente que sentia em casa como um “porto seguro”.

Este foi o terceiro de quatro webinars organizados pela Pastoral da Família. O objetivo destas sessões, para além da formação pessoal e em família, é de contribuir para as jornadas da Pastoral da Família e para a criação, mais tarde, de uma Escola de Pais para ajudar as famílias, correspondendo assim à solicitação feita por D. Manuel Clemente, na abertura da primeira sessão.

O ciclo termina no dia 10 de dezembro com uma conferência dedicada ao tema a “Liberdade de Educação”, que contará com a presença de Miguel Assis Raimundo, Catarina Teixeira Duarte, Pedro Morais Vaz e a Inês e o Jaime Forero.

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