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Sínodo da família procura resposta para católicos divorciados e recasados

02 out, 2015 - 19:01 • Filipe d'Avillez

É um dos temas quentes do sínodo dos bispos, que começa no domingo. Mas, para o cónego Carlos Paes, que trabalha com estes casais, focar só numa solução é “começar pelo fim”.

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O sínodo da família começa no domingo e o tema dos divorciados e recasados e o respectivo acesso aos sacramentos estará inevitavelmente em cima da mesa.

No sínodo de 2014 não foram apresentadas soluções para o problema, mas sim compromisso de o analisar mais a fundo. Este é um dos temas mais fracturantes, no verdadeiro sentido da palavra, uma vez que motivou o mais aceso debate entre os bispos.

Do lado de fora, milhares de casais que vivem numa situação canonicamente irregular, aguardam com expectativa as decisões dos bispos, sabendo todavia que é sempre o Papa quem tem a palavra final. O cónego Carlos Paes, que é assistente das Equipas de Santa Isabel, um movimento reconhecido pela Igreja que acompanha casais neste estado, confirma que há muito sofrimento.

“Uma pessoa que está privada do acesso à comunhão, nomeadamente, mas também à absolvição sacramental, acaba sempre por ter o sentimento de alguma exclusão, de alguma penitência, que lhe é imposta. Às vezes, as pessoas têm a sensação que fizeram uma coisa má e agora têm de suportar o castigo. Também não estão castigadas”, explica.

Desde o Papa João Paulo II que se tem procurado respostas e Francisco não é excepção: “Este Papa sugere caminhos de integração, de participação, de inclusão, dessas pessoas, para que não se sintam marginalizadas.”

As actuais regras da Igreja ditam que quem vive numa união irregular, seja porque o próprio ou porque o esposo já foi casado pela Igreja, não pode receber os sacramentos da comunhão, da absolvição ou, se for caso disso, do baptismo. Isto só se aplica a quem vive numa segunda união, pois estar meramente divorciado ou separado não é em si motivo de afastamento dos sacramentos.

O cerne da questão é a indissolubilidade do casamento cristão, segundo as palavras de Cristo no Evangelho, quando disse que o homem não deve separar o que Deus uniu. Em caso de segunda união, e partindo do princípio que não foi declarada a nulidade da primeira, na prática é como se a pessoa estivesse num estado de adultério – e, por isso, em pecado grave.

A confissão não é solução – a não ser que haja propósito de emenda, o que levaria ao fim da segunda união ou, como acontece em alguns casos, o compromisso sincero de os seus membros se absterem de relações sexuais – e a doutrina da Igreja dita que quem não está em estado de graça não deve comungar.

A “abordagem misericordiosa”

No sínodo, de um lado está a proposta encabeçada pelo cardeal Walter Kasper, que prevê uma “abordagem misericordiosa” que possibilite aos bispos de cada diocese decidir em alguns casos, onde há prova de uma caminhada sincera de aproximação aos ensinamentos cristãos, readmitir as pessoas aos sacramentos. Do outro lado estão vários crentes, e não poucos bispos, que não vêem como é que isto seria possível sem mudar a doutrina.

Sem se comprometer com uma posição ou outra, o cónego Carlos Paes ajuda a entender o que significa a abordagem misericordiosa, dizendo que não se trata de passar um pano sobre a questão. “A abordagem misericordiosa é, sobretudo, uma abordagem criativa, uma abordagem medicinal, uma abordagem transformadora, uma abordagem reveladora.”

“Às vezes, pensamos que é simplesmente passar um pano, para limpar, sem mais. Não. A abordagem misericordiosa é sempre reconstrutiva, porque o Deus que é misericordioso, antes de o ser, é criador. E todos os gestos de Deus trazem a marca da criação e Deus cria e recria constantemente o seu povo e os membros do povo de Deus em geral e também individualmente, exactamente oferecendo uma possibilidade de reconstrução e regeneração.”

Comunhão espiritual?

Perante o impasse e o aceso debate, alguns bispos propõem uma terceira via, da comunhão espiritual.

O termo data de São Tomás de Aquino e o padre Bernardo Aranha ajuda a decifrar o seu significado. “Qualquer sacramento que uma pessoa recebe tem um efeito espiritual. A comunhão tem um efeito espiritual, a união com Cristo, a união na fé e na caridade com Cristo. Portanto toda a comunhão é comunhão espiritual.”

Pode acontecer, contudo, o fiel querer comungar mas não poder: “Este desejo por vezes não é possível concretizar, porque não tenho acesso aos sacramentos, não posso ir à missa, estou doente, inválido, longe de uma igreja, numa circunstância que, independentemente da minha vontade, me impede de comungar.”

“O problema que se põe com os divorciados e recasados é um problema diferente. Quando o Papa Bento XVI e o Papa João Paulo II falam na comunhão espiritual, o que querem dizer é que os divorciados e recasados devem procurar as disposições interiores para poder unir-se espiritualmente a Cristo, embora não o possam fazer porque a sua vida, livremente escolhida, contradiz de alguma maneira o mistério a que a comunhão nos une”, explica.

“No fundo, a comunhão espiritual vivida desta segunda maneira é um apelo à conversão, que é feito a todos e cada um de nós, que cada vez nos aproximemos mais de uma verdadeira comunhão espiritual com Cristo.”

Começar pelo fim

Independentemente das conclusões a que o sínodo chegar, o cónego Carlos Paes teme que se comece pelo fim. “Há todo um trabalho a montante que será a melhor solução para uma reintegração positiva dessas pessoas e até para que esses casos não se multipliquem, como parece continuar a acontecer.”

O sacerdote acredita que é preciso fazer muito mais em termos de educação e formação. “Há muita ignorância acerca da beleza do matrimónio e da família como célula base e mais importante, quer para a sociedade civil, quer para a comunidade religiosa, seja cristã ou de outra religião.”

“Há toda uma riqueza que se pode perder no meio dessa discussão, se vão ser admitidos ou não, se podem receber absolvição ou não, isso não é o principal com certeza e ficaria desiludido se a tónica principal fosse essa e não fosse exactamente revalorizar o matrimónio na sua dignidade natural e sobrenatural”, diz.

O sínodo dos bispos começa no domingo e decorre até ao dia 25 de Outubro. No final serão apresentadas ao Papa as conclusões dos trabalhos, mas cabe sempre a este qualquer decisão final.

Comentários
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  • joão ferreira
    05 out, 2015 carcavelos 20:41
    a Igreja é feita de Homens, mas de Homens que querem representar o Cristianismo, Homens que querem ter sempre neles um pouco dos sinais de um Deus vivo e ativo junto dos outros. Julgar e muito mais condenar, não converge com esses sinais e muito menos direitos (juridicos ou canónicos), feitos por Homens pecadores a substituir as leis do Amor de Deus por todos nós.
  • paul sants
    03 out, 2015 portugal 11:31
    a verdadeira misericórdia é Cristo, a igreja deve perguntar o que quer Cristo, não os homens, qualquer outra abordagem é mundana. Há aqui muito desejo de mudar a igreja de acordo com os sentimentos do mundo, mas na bíblia se repararmos, é o único momento em que há uma tensão, muito , muito grande, entre Cristo e os apóstolos, quando Jesus disse, o que disse sobre o casamento, e o repetiu várias vezes. Como eles ficaram desanimados, escandalizados, e o que disse Jesus, nenhum homem, nenhum sínodo, nenhum papa o pode alterar. Estes temas sempre foram na igreja , ao longo dos séculos, alvo de debate, sempre houve a tentação de mudar, alegando várias teorias. mas por trás havia sempre o desejo secreto, de tornar tudo mais fácil, mais de acordo com a vontade humana, a igreja católica sempre resistiu, milhares de mártires morreram por não quererem fazer a vontade de reis, príncipes e senhores do mundo, até que após várias ameaças, prisões etccc... o patriarca de Constantinopla, eleito pelo imperador, aceita recasá-lo, no sec. IX, foi aí que começou a prática ortodoxa de permitir o divórcio, milhares de padres foram encarcerados e mortos, por defenderam a verdade, como é grande a tentação...

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