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Análise

Ventura olhou tanto para cima que se esqueceu de olhar para baixo

10 jun, 2024 - 01:48 • Tomás Anjinho Chagas

Pediu uma vitória nas europeias mas acabou em quase em quarto lugar. Chega perdeu o Algarve e fracassou em demonstrar que acabou o “bipartidarismo em Portugal”. Ventura protege Tânger e chama a si a responsabilidade da derrota eleitoral.

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Em período pré-eleitoral e durante toda a campanha, o Chega não hesitou em estabelecer a sua meta: vitória nas europeias. Ainda que o partido já tenha habituado toda a gente a insuflar expectativas, também tem somado vitórias eleitorais que – mesmo não sendo sempre cumpridoras – são afirmativas. Esta noite foi diferente.

André Ventura queria aproveitar o ímpeto ganho nas eleições legislativas – onde passou de 12 para 50 deputados – e assumir-se como partido pronto para fazer sombra ao PS e PSD. Mas (pelo menos nas Europeias) o Chega foi devolvido à condição de partido médio e por pouco não foi ultrapassado pela Iniciativa Liberal – que conseguiu eleger os mesmos dois eurodeputados.

O travão a fundo pode ter várias razões, desde a possibilidade de os eleitores do Chega estarem desligados das eleições europeias, à (auto) assumida fraca capacidade política do cabeça de lista do Chega, António Tânger Corrêa.

Marcha-atrás: afinal ainda há bipartidarismo em Portugal

Foi o grande grito do Ipiranga nas últimas legislativas de 10 de março: Ventura proclamava o “fim do bipartidarismo em Portugal”. Mas no seu primeiro teste eleitoral na Europa, o Chega foi devolvido à sua condição de partido médio, que bate de ombro na concorrência à direita da AD e tem os liberais à espreita.

O PS venceu as eleições e suplantou a AD, os dois maiores partidos formaram um pelotão que soma 15 dos 21 eurodeputados portugueses. Este fim-de-semana voltaram a afirmar Portugal como um partido que se divide entre os partidos do ‘centrão’.

As perdas estão distribuídas por todo o território e manifestam-se com a queda no Algarve, onde passou de partido mais votado para terceira força política.

O Chega cai de mais de 18% nas legislativas para quase metade (9,79%), mas apesar de ter assumido a derrota eleitoral com todas as letras, o líder do Chega também olhou para o copo meio cheio para lembrar que o partido passou de zero para dois eurodeputados.

Ventura protege Tânger e personaliza derrota

A campanha foi marcada pelas sucessivas declarações exuberantes do cabeça de lista pelo Chega às europeias. O experiente diplomata António Tânger Corrêa denunciou a sua falta de experiência política nos poucos momentos em que falou ao público.

Do “plano secreto com amigos americanos” ao assumir publicamente que não estava numa ação de campanha porque lhe tinha caído a “capa do dente”, passando pelo momento em que, em tom jocoso, disse que queria ir sozinho para Bruxelas por ser “mais confortável” quando lhe perguntavam pelo objetivo destas eleições, Tânger mostrou-se pouco habituado ao ambiente duro que uma campanha exige. Mas Ventura segura-o.

O líder do partido pessoaliza a derrota: “Para o bem e para o mal, o André Ventura é sempre o responsável pelo que acontece”, protege. Já antes tinha dito que não estava "nada arrependido" de ter escolhido o antigo embaixador para encabeçar a lista.

Na senda de encontrar o copo meio cheio, o presidente do Chega recusou extrapolar o resultado destas eleições para as legislativas e deixou claro que vai procurar dar a volta no próximo ato eleitoral: “Ninguém se intrometerá num caminho que vai culminar com a vitória do Chega nas eleições”, repetiu André Ventura.

As razões para o travão do seu crescimento não foram bem explanadas pelo próprio, mas Ventura rejeita que na origem esteja uma eventual leitura dos portugueses de que o PS e o Chega estejam a votar juntos no Parlamento.

Ventura, que tantas vezes tem olhado para a piscina dos grandes e apontou à vitória eleitoral, esqueceu-se de olhar para baixo e ver que a Iniciativa Liberal estava a trepar lugares e a roubar votos à direita.

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