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Conferência Nacional

Jerónimo. O caderno de encargos a Raimundo e o tiro ao alvo ao PS "cada vez mais inclinado para a direita"

12 nov, 2022 - 12:35 • Tomás Anjinho Chagas , Susana Madureira Martins

No último discurso de Jerónimo de Sousa como líder comunista ficaram os alertas sobre a maioria absoluta do PS "alcançada na base de uma operação de chantagem e mistificação". O ainda secretário-geral do PCP define ainda o caderno de encargos do sucessor: reforço do partido ou "a ligação e o trabalho com outros democratas e patriotas".

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Último discurso de Jerónimo de Sousa como líder do PCP - Reportagem de Tomás Anjinho Chagas
Reportagem de Tomás Anjinho Chagas

No último discurso de Jerónimo de Sousa não houve um "adeus", nem um "até já" aos camaradas, mas houve um Pavilhão Alto Moinho à pinha, em Corroios, e a saudar de pé a intervenção do ainda líder do partido.

O secretário-geral comunista, que este domingo será substituído por Paulo Raimundo na liderança, fez da maioria absoluta do PS o alvo de todas as críticas, colando a governação socialista a toda a direita parlamentar: "sim, camaradas, a sua governação mostra um PS cada vez mais inclinado para a direita".

O líder comunista ignora todos os outros partidos com representação parlamentar - Bloco de Esquerda, Livre e PAN -, coloca toda a direita no mesmo saco e mete o PS dentro desse saco, sem distinções.

"Comprova-o o fazer costas com costas do PS com o PSD, o CDS, a IL e o Chega no que era decisivo para garantir os interesses do grande capital, fosse para inviabilizar as propostas do PCP de reposição na plenitude, como era justo dos direitos laborais e sociais extorquidos aos trabalhadores", despacha Jerónimo.

A preocupação centra-se na "nova situação da expressão institucional e ampla promoção das forças e projetos reacionários, designadamente PSD, CDS, IL e Chega, com agendas de natureza retrógrada, demagógica, neoliberal ou fascizante, num quadro em que o PS e estas forças empolam e encenam uma oposição entre si, quando na verdade desenvolvem, em aspetos essenciais, uma ação convergente na defesa dos interesses do grande capital".

Os últimos dias comprovam isso também, diz o líder socialista, com a abertura do processo de revisão constitucional por parte do Chega e que "a olhar para a experiência passada de concertação entre o PS e o conjunto das forças reacionárias, inimigas da Constituição de Abril não nos pode deixar descansados".

O partido ainda não está resolvido com o resultado das eleições legislativas de janeiro, em que ficou reduzido a seis deputados. Nem resolvido com o resultado, nem com a campanha eleitoral que levou a esse resultado.

Jerónimo fala da "obtenção de uma maioria absoluta pelo PS - acompanhada da redução da expressão parlamentar do PCP - alcançada na base de uma operação de chantagem e mistificação". Mais um tiro ao antigo parceiro de geringonça ou da "solução de governo" como os comunistas gostam de chamar-lhe.

A partir daí, conclui o líder comunista, "se alguém tinha dúvidas dos verdadeiros objetivos dessa operação, que tinha muito de maquiavélica pelo cálculo e o sofisma que transportava, a realidade está a comprová-lo".

O caderno de encargos de Paulo Raimundo

No autêntico toque a rebate que constitui esta conferência nacional de Corroios, Jerónimo de Sousa definiu o caderno de encargos para o futuro líder, Paulo Raimundo, entronizado este domingo pelo Comité Central, com o reforço do PCP e a ligação dos comunistas às múltiplas esferas da sociedade.

É no fundo o que já estava desenhado no projeto de resolução da conferência nacional, assumindo como "indispensável o caminho da intensificação e alargamento da luta de massas", sendo prioritário o envolvimento de "trabalhadores e as populações, tal como camadas e sectores específicos".

Os comunistas querem colocar gente na contestação social, fortalecer as organizações e o movimento sindical, com destaque para "a organização da classe operária e dos trabalhadores em geral, a sindicalização e a organização sindical nas empresas, os sindicatos, o movimento sindical unitário, a CGTP-IN e as comissões de trabalhadores".

Mas os comunistas não querem ficar fechados no seu próprio círculo. Jerónimo avisa Raimundo que é preciso "desenvolver a ligação e o trabalho com outros democratas e patriotas com a dinamização pelo Partido, como força agregadora que é a favor da convergência e unidade, de um amplo trabalho junto de outros democratas e patriotas, seja no âmbito da CDU, seja num plano mais largo".

É preciso ir ao terreno, embora os comunistas recusem a tese que alguma vez tenham saído dele, "assumindo a realização de contactos regulares a partir de cada uma das organizações com aqueles que se destacam na vida coletiva, tal como com personalidades e sectores muito diversos, da cultura à ciência, do desporto ao movimento associativo".

Raimundo é, de resto, tido pelo partido como um timoneiro do diálogo e é nisso que o PCP aposta as fichas todas, com Jerónimo de Sousa a pedir-lhe o "reforço do Partido" e "a responsabilização e formação de quadros, questão decisiva para alargar a capacidade de resposta e desenvolver a acção partidária". No fundo, pedem-se mais e outras caras para o partido.

O caderno de encargos existe, já estava definido há vários meses, desde que o projeto de resolução da conferência foi dado a conhecer e o futuro secretário-geral do PCP também existe, mas curiosamente nunca é referido, nem uma vez, no discurso, que significa a última intervenção de Jerónimo de Sousa como secretário-geral. O nome é Raimundo, Paulo Raimundo. Mas só a partir de domingo será, efetivamente o sucessor do operário metalúrgico. Operário sucede a operário, reforça muito o partido.

O caminho é difícil e isso não é tabu. No final dos mais de 40 minutos de discurso, Jerónimo de Sousa improvisou: "Sim, camaradas. O vento está duro e muito forte. Fustiga-nos o rosto. Mas nunca hão de ver o vento a apanhar-nos de costas, porque estaremos sempre virados para a frente", prometeu.

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