Tempo
|
A+ / A-

Da pobreza a uma comunidade escolar atípica. Chumbos e abandono preocupam no Algarve

07 jun, 2022 - 06:15 • Rafael Duarte

A Renascença falou com as escolas onde as taxas de retenção são mais alarmantes, a Sul, para perceber os números.

A+ / A-

A elevada taxa de abandono escolar precoce preocupa no Algarve, onde a média em 2019 foi superior em quase 10% à média nacional. A Renascença falou com as escolas onde as taxas de retenção são mais alarmantes para perceber os números.

Há uma evolução positiva, mas os números continuam a preocupar. Esta foi a principal mensagem passada pelas escolas. Segundo os dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), em 2019 a taxa de abandono escolar precoce em Portugal fixava-se nos 10,6% e no Algarve nos 19,9%.

Quanto às taxas de retenção e à percentagem de alunos que concluíram os estudos nos anos previstos, identificámos as escolas que se destacam pela negativa.

Começando pelos mais novos. Na Escola Básica Coca Maravilhas, em Portimão, apenas 46% dos alunos concluíram o 1.º ciclo em quatro anos, quando a média nacional foi de 89%.

Ana Alves, diretora do Agrupamento de Escolas Engenheiro Nuno Mergulhão, onde se insere esta escola, lamenta à Renascença que o pré-escolar não seja muitas vezes entendido como relevante para o percurso académico dos alunos e acredita que, depois, isso se nota no 1.º ciclo.

"Como passam todos do 1.º para o 2.º ano, quando chegam ao 2.º sentem aquele corte. Daí a que seja complicado fazerem os quatro anos do 1.º ciclo nos quatro anos", afirma.

"Uma comunidade escolar um bocado atípica"

Também a Escola Básica Engenheiro Nuno Mergulhão apresenta números preocupantes. 61% dos alunos concluiu o 3.º ciclo em três anos e a média nacional foi de 86%.

A diretora do Agrupamento aponta a flutuação de alunos como uma das razões: "Há uns anos consegui apurar que se nós quiséssemos analisar os alunos que tinham feito o percurso todo no Agrupamento, desde o pré-escolar ao 9,º ano, em 50 alunos eu tinha dois".

Ana Alves explica ainda que o Agrupamento dá resposta aos bairros menos favorecidos da zona e a crianças de instituições.

Conta à Renascença que há alunos que não são educados para a importância da escola e, para além disso, há muitos que chegam de outros países a meio do ano letivo.

"Temos uma multiplicidade de fatores a nível de convivências familiares, sociais, económicos e culturais que é diferente das outras escolas do concelho", garante.

Considera que olhar só para percentagens é redutor porque o Agrupamento é o mais pequeno em Portimão e pede que se vá além dos números.

Quem faz o mesmo apelo é Carlos Agostinho, um dos representantes dos pais no conselho geral do Agrupamento, que garante existirem muitos bons exemplos entre os alunos e considera que o trabalho feito pela direção já é sobre-humano.

"Temos uma comunidade escolar um bocado atípica, numa zona que carece de algumas dificuldades. Infelizmente uma das coisas que nos batemos todos os dias é no sentido de chegar às famílias de alguma forma."

Da pobreza à baixa escolaridade das mães

No Ensino Secundário as duas escolas a sul do país com números mais alarmantes estão situadas em Lagos.

Na Escola Secundária Júlio Dantas, 53% dos alunos concluíram o secundário em três anos quando a nível nacional a percentagem era de 67% e a taxa de retenção no 12.º ano fixava-se nos 27%.

Contactada pela Renascença, a direção da escola explicou que tem "um elevado número de alunos beneficiários da Ação Social Escolar (cerca de 50%) no Agrupamento", "um baixo nível de escolaridade das mães (principal fator preditor quanto ao sucesso)" e que o Agrupamento "tem todos os percursos formativos diferenciados, acolhendo todos os alunos".

A direção aponta ainda para a evolução positiva conseguida nos últimos anos através das "medidas adotadas pelo Agrupamento".

Ainda em Lagos, na Escola Secundária Gil Eanes a taxa de retenção mais elevada estava no 10.º ano com 22% e a percentagem que concluiu os estudos nos anos previstos foi apenas de 49%.

Paula Couto, diretora da escola, explica que os exames nacionais estão na origem destes números. "Naquele ano tínhamos 100 alunos e 49 ficaram com uma disciplina por fazer, por isso, não deram por concluído o ano, mas certamente terminaram no ano seguinte".

Quanto a soluções, em Portimão, o Agrupamento de Escolas Engenheiro Nuno Mergulhão defende a continuação do trabalho conjunto com diversas entidades como a CPCJ e a Segurança Social. Um trabalho que a direção garante já estar a dar frutos.

Em Lagos, a Escola Secundária Gil Eanes tem trabalhado com os alunos uma série de competências como a criatividade e resolução de problemas e acredita que quando saírem os números de 2021/22 vai haver uma grande melhoria.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

Destaques V+