António Costa fez um exercício difícil, mas conseguido. Na abertura, Costa afastou de uma penada o fantasma da governação socrática polémica e despesista e a acusação de uma excessiva deriva esquerdista com a criação da “geringonça”.

Cada frase selecionada na homenagem a Soares foi abrindo o caminho e estendendo a passadeira vermelha, terminando numa passagem de testemunho que parecia tão inevitável quanto natural. Costa era afinal o novo Soares dialogante, aberto, pronto a cumprir a herança histórica de um partido feito para “falar para todos e com todos” cuja vocação natural é a governação “sem cair em utopias de amanhas que cantam” e capaz de desafiar o mito de que as boas contas se fazem à direita.

Pelo caminho de um discurso em tom de clímax de comício permanente, Costa foi recolhendo os louros e prometendo fidelidade à governação de Guterres, herdando-lhe a paixão da educação, e à opção Europeia que nunca o país nem o PS puseram em causa: desde a assinatura do Tratado de Adesão (com direito a uma encenação cantada do velho tema “quero ver Portugal na CEE”) à breve referência ao Tratado de Lisboa que ainda hoje está em vigor “dos tempos do engenheiro Sócrates” (não fosse imaginar-se que o nome era proibido).

No entretanto, Costa tirava a conclusão que melhor lhe serviria para encerrar a noite em beleza: “Chegamos a este congresso orgulhosos da nossa história, tranquilos por termos podido assegurar a estabilidade necessária. Não temos de antecipar o programa de governo nem o programa europeu que discutiremos em duas convenções próprias". (ficavam assim defraudadas as expectativas do que queriam já ouvir o debate se medidas concretas!).

Em contrapartida, considerava muito positivo que se estivesse em condições para “olhar para o médio e longo prazo e os desafios a que nesse quadro iremos reagir”.

Estava feita a introdução à moção de estratégia que amanhã levará a votos e que, genericamente, ninguém rejeitará. Tudo sem que a questão da recentragem do partido seja sequer tida como necessidade académica que fosse; “estamos onde sempre quisemos da mesma forma que podemos dizer que estaremos onde sempre estivemos”.

O Congresso ainda tinha presentes as palavras de Soares com a força que lhe era conhecida na hora da chegada vitoriosa ao país “saudamos todas as formações e partidos democráticos que estão aqui presentes sem nenhuma exclusão e sem nenhuma discriminação”. E mais adiante outra voz inesquecível “para nós só há a liberdade de dizer sim ou não nunca mais vamos estar divididos... que ninguém nos grite o ódio aos ouvidos”.

Geringonça? Apenas a mesma história de liberdade, dialogo, pluralismo e concertação, a mesma em que tantos os “ex” mas ou menos lembrados ou esquecidos sem esquecer até António José Seguro foram lembrados enquanto fieis depositários e legítimos herdeiros. Para futuro todas as portas permanecem naturalmente abertas. Porque afinal não há nenhum partido socialista a “recentrar”. Porque sempre nascido e crescido à esquerda, nunca saiu afinal do centro e nasceu para governar.