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“Conflito de Nagorno Karabakh está congelado, mas longe de sanado”

30 set, 2016 - 10:50 • Filipe d'Avillez

Felipe Pathé Duarte, especialista em relações internacionais, ajuda a compreender a dimensão do conflito que opõe os arménios que vivem em Nagorno Karabakh ao Azerbaijão. O Papa viaja no dia 2 de Outubro para a capital azeri e leva a questão na agenda.
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Montanhas de Karabakh de olhos postos no Papa
Montanhas de Karabakh de olhos postos no Papa

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Nos anos 90 falava-se muito de Nagorno Karabakh, mas entretanto o tema raramente surge nos noticiários. É uma questão resolvida?

Ainda não. Tanto é que o próprio conceito que define o que está a acontecer neste momento naquela região é um chamado “conflito congelado”, um conflito que não está necessariamente em estado de grande agressividade, mas que está presente e que para todos os efeitos gera tensões, que impede naturalmente a resolução pacífica entre dois estados que disputam a mesma região, como é o caso da Arménia e do Azerbaijão.

De qualquer das maneiras é um conflito que existe, que está congelado e que para já está longe de ser sanado.

Que género de ameaça é que o conflito apresenta para a Europa?

Para a Europa pode representar uma instabilidade de uma região, que para a geoestrategia é uma região fundamental. Estamos a falar da Arménia, que está perfeitamente entrincheirada entre três grandes estados, que foram impérios seculares, com identidades, etnicidades e religiões muito próprias. A Turquia, antigo Império Otomano; a Rússia, antigo império Russo e Soviético, que a Arménia integrou; e por outro lado também o Irão, antigo Império Persa. Portanto a Arménia sobrevive identitariamente num processo de divergência permanente desses três grandes polos.

Ora bem, como é que isso pode afectar a Europa? O conflito de Nagorno é um conflito que pode assumir proporções também identitárias entre a Arménia e o Azerbaijão, sendo que o Azerbaijão está a ser apoiado progressivamente por parte da Turquia, eterno inimigo da Arménia, que a acusa de ser responsável pelo genocídio de 1915.

Portanto, vê-se o confronto de Nagorno Karabakh como sendo uma guerra de procuração incentivada pela Turquia, pró-Azerbaijão. Quem tem interesse na exploração deste conflito latente acaba por ser a Rússia, porque precisamente nesta tensão e neste permanente conflito congelado há um conjunto de interesses que poderão ser aproveitados, nomeadamente a relação com o Azerbaijão, esta nova relação da Rússia com a Turquia e por outro lado também poder explorar a Arménia, que não tem matéria-prima, mas que por sinal é um ponto de passagem quer de gasodutos quer de oleodutos, que provêm, quer do Azerbaijão, quer, inclusivamente, do próprio Irão, em direcção à Turquia ou em direcção à Rússia.

Temos a evidência que o Azerbaijão está a ser apoiado pela Turquia e, pelo outro lado, convém à Rússia que ela exista porque é uma forma de justificação interventiva.

Que papel é que a Turquia desempenha nesta questão, nomeadamente esta ascensão de Erdogan?

Erdogan e o Governo de Erdogan têm uma espécie de uma agenda que podemos chamar, sem qualquer tipo de receio, uma espécie de neo-otomanismo, que tem por detrás dois grandes princípios: Primeiro, o repescar para o quotidiano político e social de uma identidade islâmica, outrora perdida por causa de Ataturk, e por outro lado um aumento da influência política da Turquia na região que a circunda.

O Papa visita o Azerbaijão em breve e já disse que vai falar do assunto. Podemos esperar novidades?

Esperança há, naturalmente. Há um peso diplomático pelo que ele representa e ele próprio, em si, é um diplomata. Já esteve na Arménia, vai agora para o Azerbaijão.

Há uma possibilidade aqui de um reduzir das tensões, mas ao mesmo tempo, não obstante a esperança, acabo por fazer uma análise um pouco pragmática, porque da perspectiva de um azeri, o Papa Francisco representa sempre também um lado identitário cristão.

Como sabemos a Arménia tem uma forte identidade cristã, uma identidade cristã muito marcada, e que condiciona muito o seu quotidiano. Em particular porque reivindicam para si o Cristianismo primitivo e um Cristianismo muito próprio, é o primeiro Estado, ainda antes de Constantino converter o Império Romano ao Cristianismo, a adoptar o Cristianismo, e por isso temos esta identidade muito forte.

E para todos os efeitos, para um azeri o Papa será sempre visto como agente de uma lógica cristã que está a tentar influir em destinos identitários islâmicos. Por isso não sei até que ponto o Papa Francisco, não obstante representar a neutralidade diplomática que a figura do Papa traz, poderá ser interpretado como neutro por um azeri que tem uma identidade turcomana e uma identidade islâmica. Resta-nos a esperança e que o Papa Francisco saiba conseguir dar a volta para criar um mundo melhor.

Esteve recentemente na Arménia, com que imagem é que voltou?

O arménio é pautado por três princípios identitários. Primeiro a questão do Cristianismo. Não há espaço para o ateísmo, e portanto tem uma forte componente cristã que os marca e que leva a que eles passem para outra componente identitária que é a diáspora, e é precisamente nessa diáspora que a identidade cristã é fundamental para os unir.

Portanto primeiro são marcados por uma identidade cristã, segundo por uma diáspora e terceiro são fortemente marcados por um permanente sentido de injustiça. Se pensarmos, o arménio, comparativamente com o judeu, que tem um sentimento de injustiça por do Holocausto, o arménio tem um sentimento ainda mais forte no sentido em que não vê essa injustiça reconhecida.


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