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“Que o Espírito Santo nos ajude a lidar com casos de poligamia”

22 out, 2015 - 13:55 • Filipe d'Avillez

Enquanto os países ocidentais se concentram muito em questões como os divorciados recasados, noutros países as preocupações são de outra natureza e as soluções não são tão simples como podem parecer.

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O patriarca latino de Jerusalém pôs o dedo na ferida, esta semana, quando recordou que a esmagadora maioria dos cristãos no Médio Oriente não se preocupam com o assunto do acesso aos sacramentos para quem se divorciou e voltou a casar civilmente, até porque nos países onde vivem não existe casamento civil, mas apenas religioso.

No mesmo tom, o arcebispo de Bombaim afirmou esta quinta-feira que se fosse europeu também se preocuparia com essas questões do acesso aos sacramentos, mas na Índia a grande preocupação é ajudar os casais e dar-lhes apoio nos primeiros dois anos do casamento.

Para outros bispos existem preocupações que na Europa e noutros países ocidentais nem sequer se põem e que estão a ser pouco discutidos. A poligamia, por exemplo, ainda é praticada com alguma frequência em certos lugares.

O cristianismo não aceita a poligamia, mas o bispo George Dodo, da diocese de Zaria, na Nigéria, explicou à Renascença que o problema não é tão simples como possa parecer à primeira vista. “Há uma classe de polígamos a que chamo os polígamos deliberados, que pertenciam à Igreja há muito tempo, mas que, por várias razões, acabam por casar com uma segunda mulher e isso impede-os de aceder aos sacramentos”.

Entre essas razões, incluem-se factores fortemente culturais, difíceis de combater, explica. “Se a primeira mulher só tiver tido filhas, e na sua cultura a sua casa não está completa sem um filho varão que possa herdar o que ele deixar e usar o nome da família.”

Depois, há uma segunda categoria. “Aqueles por quem sinto maior simpatia são os que já eram polígamos antes de se tornarem cristãos”, explica o bispo, que não está a participar no sínodo, mas esteve em Portugal a convite da fundação Ajuda à Igreja que Sofre.

O problema não é novo e historicamente a Igreja tem recomendado que o marido escolha uma das mulheres com quem continue a viver maritalmente, mas sem ignorar as suas obrigações morais, sociais e financeiras para com as restantes e os seus filhos, que até poderão continuar a viver na mesma casa, mas sem ter relações sexuais.

Contudo, a solução nem sempre é fácil de aceitar. “Para eles é difícil, porque há casos em que o marido diz: ‘Sei em consciência que nunca tive qualquer problema com qualquer uma das minhas mulheres, nenhuma delas me ofendeu, nem eu as ofendi a elas, como é que digo simplesmente para partirem?’ Em vez de ofender as suas consciências e mandarem embora as suas mulheres, continuarão a viver da mesma forma.”, explica o bispo.

“Espero que um dia o Espírito Santo revele alguma coisa à Igreja para a ajudar a lidar com estes casos de poligamia”, diz George Dodo, que, por outro lado, não revela qualquer simpatia por “aqueles que sabiam em que é que se estavam a meter no dia em que casaram e que rompem com esse compromisso apenas por razões sociais e culturais". "Aí há algo de errado”, reforça.

No "instrumentum laboris", que serviu de base para os trabalhos no sínodo para a família, a poligamia merece apenas uma referência, no parágrafo 28, juntamente com “outros desafios especiais”.

O "instrumentum" tem sido alvo de discussão ao longo das últimas semanas e o sínodo apresentará no domingo um documento final que incorporará as alterações propostas pelos padres sinodais, mas ainda não se sabe se essa versão tratará o assunto com maior profundidade.

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