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​Groselha-Espim

Arménia Rua, a professora de Informática que adoçou a “linha da frente” na pandemia

10 ago, 2020 - 06:40 • Ana Carrilho

Há oito anos, os cortes salariais e o nascimento do filho ditaram a necessidade de procurar outros rendimentos. Começou a fazer doces e, no início do confinamento, fez centenas de frascos que partilhou por muitos “profissionais da linha da frente” e pela Refood de Braga. Mobilizou a comunidade local com os “Doces Solidários”. E multiplicou a procura dos produtos da sua Groselha-Espim, que também já estão na Amazon.

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Não consegue estar parada e as solicitações são muitas. Mas a organização é fundamental e, com recurso a auriculares, Arménia Rua atende chamadas, regista encomendas e até dá entrevistas enquanto mexe o doce no tacho. Foi o que aconteceu com a Renascença. Ao lume estava o muito procurado doce de pêssego e maracujá.

Faz questão de contar que começou a fazer doces “mais a sério” em 2012, na época das cerejas. Foi a solução que arranjou para aumentar o orçamento familiar numa altura em que a crise já se fazia sentir e o salário de docente se mostrava insuficiente para cobrir o crescimento das despesas depois do nascimento do filho Miguel.

A Groselha-Espim começava a ganhar vida com o site, o Facebook e as vendas nos mercados locais. “O primeiro foi em dezembro. E num sábado fiz logo 200 euros. Até saltitava de contente. E descobri que gostava muito de fazer compotas – e ainda mais de as vender”, revelou Arménia.

Os frascos de doce eram convencionais, o rótulo – com uma abóbora pintada – era feito na impressora pessoal e colado com cola de stick. Mas nada era legal e, para registar a marca, Arménia estudou a legislação e gaba-se de ter sido a primeira pessoa em Braga a pedir o licenciamento de tipo 3 para uma cozinha de apartamento.

“Tudo começou na cozinha do apartamento onde vivo e lá continua. Mas em breve espero conseguir ter o meu atelier.”

De então para cá, Arménia Rua fez diversas formações e aderiu ao programa “Portugal Sou Eu” do IAPMEI - Agência para a Competitividade e Inovação, que tem como objetivo a valorização dos produtos nacionais. As últimas formações, realizadas já este ano online com o AICEP e a Universidade do Minho, mostraram-lhe a importância do “embrulho bonito”.

A partir de setembro, Arménia vai iniciar a pós-graduação em Marketing Digital e e-Business, a pensar no desenvolvimento da marca. Que acrescenta às duas licenciaturas em Matemática e Ciências da Computação e Informática, ramo educacional. Mas em primeiro lugar está a sua profissão de professora do ensino secundário e, nesta altura, já se prepara também para as novas disciplinas que vai lecionar no próximo ano.

Sozinha, mas com ajudas preciosas

É Arménia Rua que faz todo o trabalho da Groselha-Espim. Ou quase todo. Natural de Trás-os-Montes, é de lá que traz a maior parte dos produtos para a confeção dos doces, marmeladas, chutneys, vinagres ou licores.

Maçãs, marmelos, tomate coração-de-boi, morangos, mirtilos, framboesas, cerejas, ginja, melão, limões, laranjas, alperces, pêssegos e muitas outras frutas e legumes vêm da horta dos pais ou dos vizinhos, oferecidos ou comprados a preços justos.

Às vezes, só tem de apanhar, no que conta com a colaboração preciosa do “assistente mais docinho do mundo”, o seu filho Miguel. Ou da mãe, que ainda nos últimos dias descascou umas dezenas de quilos de pêssegos com a ajuda das vizinhas, que também colaboram com o espaço nas arcas congeladoras.

No regresso, recebem compotas como agradecimento, mas também as cascas da fruta para a alimentação dos animais – porque “ali nada se desperdiça”.

“Troco compotas por limões” é o anúncio que coloca quando não consegue encontrar nos produtores locais o fruto que mais usa. “Aparecem logo aqui pessoas com sacos cheios de limões. É fruta melhor, mais saudável e acabo por envolver a comunidade.”

A casa dos pais serve também de armazém para muitos frascos de doce ou vinagre. Em Braga, Arménia tem uma garagem “que dá para dois carros”, mas o espaço é já insuficiente para acomodar paletes de frascos, garrafas, tampas e caixas de cartão. Cada palete traz mais de 900 garrafas ou 1200 a 1400 frascos. Lá em casa, todos cantinhos são aproveitados: debaixo da cama há caixas de transporte; no escritório, as estantes estão ocupadas com garrafas de licor; os gavetões e os roupeiros têm frascos e tampas.

Estes são os únicos produtos não-nacionais. Com desgosto, Arménia lamenta que por cá não existam fábricas de vidro que produzam frascos e garrafas com formato diferente do “standart”. Por enquanto, e sobretudo depois de ter mudado a imagem da marca em 2017, compra os frascos em Itália e as garrafas em Espanha.

Dos mercadinhos à Amazon

Arménia começou a vender os doces nos mercadinhos, mas há muito que os deixou. O passo seguinte foi colocar os seus produtos em lojas, especialmente “gourmet”, em Portugal e no estrangeiro. “Infelizmente, muitas delas fecharam em pouco tempo. A minha primeira loja foi na Holanda e, do início, só essa se mantém.”

Apesar de lamentar a burocracia e a pequena margem de lucro para quem vende pouco, há dois anos Arménia decidiu aventurar-se na Amazon. “É preciso gastar muito em publicidade, o que não faço. Mas um dia destes pode aparecer um cliente diferente.” Durante a pandemia, o número de encomendas para o Reino Unido aumentou e, para já, todos os meses seguem cerca de setenta encomendas. Apesar de uma oferta variada com vinho do Porto, curiosamente, os doces de abóbora e de tomate são os mais requisitados pelos britânicos.

O ensino será sempre a prioridade

“Sou professora, essa é a minha atividade principal e nunca deixarei a docência para me dedicar só à empresa”, afirma Arménia Rua. Para além de gostar de ensinar, é o que lhe garante estabilidade económica.

“Este negócio não é fácil, não é barato e não dá milhões, é preciso muito investimento. Para comprar uma palete, esgano-me um bocado, são oitocentos-e-tal euros. Depois ganho e a seguir vou comprar outra.” Refere, por exemplo, o sacrifício financeiro que ainda suporta por conta da mudança da imagem da marca, que fez há três anos, obrigando-a a um empréstimo bancário de dez mil euros. “Para mim, é muito.”

Mas foi um investimento que lhe trouxe mais clientes de todo o lado. Ainda assim, e apesar de já ter recebido propostas nesse sentido, garante que nunca terá “clientes de paletes”. “Eu faço este trabalho sozinha, ou quase, à medida das minhas possibilidades e com os produtos da época. Se passasse a produzir em quantidade, desvirtuava o negócio. O meu produto é artesanal e será sempre. Não sei o que é trabalhar com conservantes ou pectinas”, garante.

Não são só doces, são presentes

Costuma-se dizer que os “os olhos também comem” e o cuidado que Arménia coloca na preparação de cada encomenda, cativa quem vê antes de provar. As garrafas, os frascos de doce com um botão/mensagem na tampa, os rótulos com todas as descrições, a disposição na caixa de transporte e o presente perfumado que segue em cada uma delas, atraem. “Eu não quero só vender doces, quero fazer presentes. Todos gostam de receber um miminho”, justifica.

As maçarocas de alfazema que a mãe de Arménia faz todos os anos para oferecer às amigas e que este ano também perfumaram algumas das caixas, são o presente mais desejado por quem encomenda. De tal forma que Arménia decidiu fazer um vídeo que divulgou nas redes sociais e que tem sido amplamente comentado e partilhado, captando ainda mais clientes.

O confinamento mostrou claramente o poder das redes sociais e das vendas on-line. Sem poderem visitar os mais velhos, no Dia da Mãe, muitas foram as pessoas que lhe pediram para fazer chegar um presente doce às suas mães, com a ajuda das transportadoras.

E ainda há tempo para os Doces Solidários

Porque não consegue ficar parada e porque há sempre quem lhe ofereça fruta, “muitas vezes para não se estragar”, logo nos primeiros dias do confinamento Arménia Rua lançou um desafio aos seus seguidores: “Tragam-me fruta para eu transformar em compotas para entregar nos hospitais, aos profissionais de saúde”.

A resposta não se fez esperar. No dia seguinte já estava a receber tanta fruta que acabou por a partilhar também com algumas famílias vizinhas.

Uma verdadeira organização: Arménia fazia os doces e havia sempre “transportadores” que recolhiam as caixas à porta do prédio e as faziam chegar a diversos hospitais do país, nomeadamente de Braga, Viana do Castelo, Famalicão, Santo António e S. João, no Porto, hospitais universitários de Coimbra ou de S. José, em Lisboa. Quando não havia quem levasse diretamente, havia quem pagasse os portes na transportadora.

Quase 300 frascos depois, e já preocupada com o seu stock, começou a receber também frascos e sacos de açúcar. Os doces solidários de laranja do quintal ou de tamarilho da quinta chegaram igualmente às mais de 60 famílias apoiadas pela Refood de Braga, “um miminho no cabaz que passaram a preparar para as famílias, já que os restaurantes estavam fechados”. O filho Miguel, além de ajudar a colar os rótulos, mandava também um desenho e palavras de esperança. Quem recebia, fazia questão de tirar fotografia e mandar, a agradecer. “Uma atitude que ajudou a que muitas mais pessoas quisessem participar porque viam quem realmente recebia os doces”, diz Arménia.

O confinamento terminou, mas a solidariedade não. Arménia Rua continua a receber fruta, açúcar, frascos e a fazer os doces solidários. Agora, os destinatários são aqueles que mais precisam e as compotas podem chegar a instituições que trabalhem com famílias carenciadas. Espera sugestões e voluntários para fazer as entregas.

É entre tachos que vai passar os primeiros dias de férias escolares; nas férias propriamente ditas, há leituras para pôr em dia. E daqui a um mês começa o corrupio de aulas, de maior produção da Groselha-Espim e o aumento das encomendas até ao Natal.

“Acredito que este ano, com o vírus e o medo que as pessoas têm de estar em sítios com muita gente, vai haver mais encomendas online”, diz.

Os próximos objetivos são: fazer a pós-graduação, arranjar o seu próprio atelier e contratar uma pessoa para a ajudar nalgumas tarefas.

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