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Moçambique. Bispo critica autoridades por causa de ataques em Cabo Delgado

22 jul, 2019 - 13:35 • Filipe d'Avillez

Dom Luiz Fernando Lisboa questiona a falta de respostas, mais de um ano após o início de uma alegada insurreição jihadista que já fez mais de 200 mortos.

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O bispo de Pemba, diocese que abrange a região de Cabo Delgado, em Moçambique, critica duramente o Governo e as autoridades moçambicanas por não serem capazes de dar resposta à população que tem sofrido com uma onda de ataques, alegadamente levados a cabo por jihadistas.

Numa carta aberta divulgada na passada sexta-feira, D. Luiz Fernando Lisboa começa por perguntar porque é que não se investiu tanto esforço em ajudar a população de Cabo Delgado como se fez antes do ciclone Kenneth, que matou cerca de 40 pessoas. A comparação leva o bispo, de naturalidade brasileira, a chamar ao que se passa no norte de Moçambique “ciclone humano dos ataques”.

“Essa solidariedade local, nacional e internacional, que é de louvar e agradecer, deixa ainda mais visível o silêncio e o abandono no qual se encontram as vítimas”, lamenta.

Mas o bispo não se fica por aí. Na mesma carta, D. Luiz questiona a estratégia do Governo em pôr cobro à insegurança, começando pelo silêncio inexplicável, que segundo ele inclui intimidação aos jornalistas. “Depois de muito silêncio por parte do Governo Central, as pessoas, as comunidades e de maneira especial os jornalistas, sentem-se ameaçados e coagidos a silenciar o que veem e escutam. A imprensa fala do encontro de autoridades com os jornalistas, como um encontro de intimidação e ameaça”, refere, apontando mesmo exemplos de jornalistas detidos sobre os quais “as acusações mudam a cada dia.”

“O que pretendem as autoridades civis e militares criando este clima de secretismo e silêncio?”, pergunta o bispo, “porque não se deixam ajudar nas investigações por jornalistas corajosos, sérios e responsáveis?”

De seguida, D. Luiz repete um elenco de perguntas que, diz, são colocadas pela população e que incluem a possibilidade de haver mesmo envolvimento oficial nos ataques. “Há quem reporte que, em algumas situações, os atacantes levam fardamento de militar. Outros ainda se questionam como é que os insurgentes têm armas de fogo. E outros ainda se queixam de que, após os insurgentes, ainda têm de suportar o abuso de alguns militares. Sem esquecer de que alguns dos insurgentes detidos ou assassinados foram identificados como ex-polícias ou ex-militares.”

Perante todas estas dúvidas, as respostas de governantes têm variado. A dada altura foi detido um empresário sul-africano, acusado de financiar a insurreição com o objetivo de impedir a prospeção de gás natural na região e que viria a morrer enquanto nas mãos das autoridades, contudo, os ataques continuaram. Outras teorias ligam os ataques ao tráfico de pedras preciosas. A reação do bispo é de revolta. “Mas isto não é um jogo de adivinhações! É a vida das pessoas que está em risco e é necessário mais do que ‘revelações oficiais’ para dar esperança ao povo”, diz.

D. Luiz não se mostra sequer convencido de que os insurretos sejam, de facto, jihadistas. “Há uma ligação com o tráfico de órgãos? Faz parte do branqueamento de capitais? Os ataques estão ligados a comércio de pedras preciosas? A nossa província está sendo um corredor de traficantes de bens diversos?”

E conclui, fazendo uma ligação à visita do Papa Francisco ao país, em setembro, cujo lema é “Esperança, paz e reconciliação”.

“Seja o que for, levamos mais de um ano e meio num ambiente no qual é difícil pensar falar para o povo de ‘esperança, paz e reconciliação’ quando vamos receber a visita do Santo Padre. Enquanto o povo estiver instrumentalizado por poderes ocultos que pretendem impor os próprios interesses, não haverá paz, nem reconciliação, muito menos esperança”.

A visita do Papa a Moçambique insere-se numa viagem que abrange também as ilhas Maurícias e o Madagascar, entre os dias 4 e 10 de setembro.

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