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Turismo

"Há muitas empresas a pagar o salário mínimo e com isso não se vive, sobrevive-se"

15 abr, 2019 - 16:46 • Ana Carrilho

AHRESP rejeita que haja salários baixos no setor. "Se fechamos contratos coletivos é porque os sindicatos se sentem confortáveis com eles”, garante dirigente.
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Marília Morais está inquieta, não pára de falar com os colegas, todos mais novos que ela. No XV Congresso da ADHP - Associação de Diretores de Hotéis de Portugal, que decorreu em Viseu, falava-se de salários e condições de trabalho no setor do Turismo.

Apesar de vários intervenientes terem sublinhado o crescimento do setor e a criação de emprego que continua a gerar, o próprio presidente da ADHP, Raul Ribeiro Ferreira, salientou logo na abertura do encontro "a necessidade de não encarar os alunos das escolas de hotelaria como mão de obra barata mas sim qualificada, que é preciso remunerar devidamente”.

Aos 47 anos, com dois cursos superiores – de Sociologia e Antropologia – e conhecendo o mercado de trabalho, Marília desabafa em entrevista Renascença: “Estou um pouco apreensiva porque as pessoas que estão aqui das entidades oficiais acham que isto é um mar de rosas. E não é!”

A frequentar um Curso de Especialização Tecnológica (CET) em Turismo Cultural e Património, da Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra, Marília destaca, em primeiro lugar, a dificuldade de arranjar estágios fora de hotéis. Para esta área seria mais adequado museus, monumentos, animação turística, ligação a operadores ou a agentes de viagens, mas esses, garante "ainda não estão muito abertos para nós”.

Depois, os salários são geralmente baixos. “As entidades gostam muito de fazer estatísticas, mas temos de ver o mais alto e o mais baixo. Há muitas empresas a pagar o salário mínimo e com isso não se vive, sobrevive-se”.

É preciso mais do que salários para captar talentos para o turismo

No Congresso da ADHP, perante uma assistência de diretores e responsáveis de Recursos Humanos, além de representantes de entidades como o Turismo de Portugal e outras associações empresariais, não foram apenas os alunos a mostrar-se apreensivos com o emprego no setor.

À Renascença, Paulo Morais Vaz, diretor da Escola de Hotelaria e Turismo do Douro/Lamego e da Escola de Hotelaria de Coimbra, da rede de escolas do Turismo de Portugal, reafirma a preocupação com o futuro dos alunos.

“Alertei que é preciso fazer mais para encontrar outras soluções para atrair novos colaboradores. Os empresários querem mão-de-obra qualificada e as compensações têm de ser atrativas, ir além do salário que até pode não ser tão alto.”

Formação, planos de desenvolvimento de carreiras, seguros de saúde para o trabalhador e até família, apoio no transporte ou organização de horários que permitam a conciliação com a vida pessoal e familiar são apenas alguns exemplos que dá. “Se continuarem a apostar apenas no salário base, o problema que hoje existe tenderá a agravar-se, porque muitos tentam a sorte fora do país.”

É o caso de Janet Martins, da mesma turma de Turismo Cultural e Património que Maríalia. Apesar de ainda faltarem seis meses para terminar o curso, já decidiu que vai sair do país.

“Disseram-nos que a lista de estágios não tinha muitas opções. As que havia eram no Interior e para lá ninguém quer ir, porque falta tudo e mais alguma coisa. Quando terminar, vou para fora porque lá há oportunidades. Já tenho propostas”, assegura à Renascença.

Cerca de 20% dos alunos da Escola do Douro/Lamego e pouco menos da de Coimbra acabam por emigrar, revela Paulo Morais Vaz. Nalguns casos a decisão surge porque já há uma tradição migratória na família, noutros porque a diferença salarial e o potencial de carreira não deixam ninguém indiferente. “Estamos a falar de salários base e de entrada na ordem dois mil euros ou mais.”

AHRESP nega salários baixos mas admite que é preciso organizar melhor os horários

Ana Jacinto, secretária geral da AHRESP – Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal - rejeita a ideia de que haja salários baixos no setor.

“Não é por uma mentira ser repetida muitas vezes que se torna verdade”, justifica em declarações à Renascença. “Só se fala da remuneração base mas este é um setor que trabalha 24h/dia e 365 dias/ano. Isso implica obviamente compensações por trabalho noturno, em folgas e feriados, sem contar com o subsídio de alimentação, valor que nunca é contabilizado quando os trabalhadores comem nas empresas e, às vezes, o dia todo.”

A dirigente associativa argumenta que, todos os anos, a AHRESP fecha contratos coletivos e “se o fazemos é porque os sindicatos se sentem confortáveis com eles”. Ainda assim, admite que é um trabalho pesado e pouco atrativo.

“Ninguém gosta de trabalhar quando os outros estão a descansar e de passar o dia inteiro na empresa. Por isso temos de ajustar a organização de trabalho e dar oportunidades de evolução e valorização da carreira”, refere.

Segundo um estudo da AHRESP, faltam cerca de 40 mil trabalhadores no Turismo em Portugal. Ana Jacinto lembra que, no ano passado, além do aumento acordado com os sindicatos, a associação subiu um nível em todas as carreiras consideradas pouco atraentes: empregado de mesa, de self-service e barman.

Alguns empresários revelam resistência em aplicar boas práticas e por isso a AHRESP é um dos parceiros do Turismo de Portugal no programa BEST para a capacitação e empresários, empreendedores e gestores de turismo.
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