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“Visita do Papa a Marrocos vai mostrar que há compreensão entre muçulmanos e cristãos”

26 mar, 2019 - 13:20 • Aura Miguel

O embaixador de Marrocos em Portugal realça a importância histórica da ida do Papa Francisco ao seu país, destacando a visita à escola de imãs e a dimensão do diálogo religioso.

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No próximo fim de semana, Francisco cumpre uma visita de dois dias a um país milenar e ancestral, com uma monarquia constitucional, em que o rei Mohammed VI é também o Chefe dos Crentes. Trinta e quatro anos depois da visita-relâmpago de João Paulo II a Casablanca, Francisco parte ao encontro de um país jovem e de um islão aberto ao diálogo

A Renascença conversou com o embaixador de Marrocos em Portugal Othmane Bahnini, que não hesita em dizer que esta será uma viagem histórica.

Como encara a próxima visita do Papa a Marrocos?

É uma visita histórica, é o encontro entre o Chefe dos Crentes, Sua Majestade Mohammed VI, descendente do Profeta, com o supremo representante da Igreja Católica, Sua Santidade o Papa Francisco. É um encontro importante cujo alcance é enorme, como mensagem e como símbolo.

Será uma ocasião para mostrar ao mundo que há uma compreensão mútua entre os fiéis das duas religiões. E também pela promoção dos valores da paz, da tolerância e de saber viver juntos. Por isso, é uma visita que confirma o caracter de abertura e tolerância do meu país e, de um ponto de vista mais geral, também confirma que o Islão é uma religião de paz e de abertura.

Que aspetos do programa considera mais relevantes?

Considero todos os momentos importantes. Quer se trate do encontro entre os dois chefes de Estado, quer da intervenção perante o grupo dos participantes de várias comunidades que vão ouvir os discursos de Sua Majestade e de Sua Santidade. Sublinho também a dimensão social da visita, sobretudo, no que se refere é a questão das migrações. Cada momento tem a sua importância e será simbolicamente muito rico.

Uma das vertentes desta visita assenta no diálogo inter-religioso. É uma dimensão também importante para Marrocos?

O diálogo religioso é importante, a começar na nossa própria religião. Há vários versículos e passagens do Corão que insistem e falam do diálogo. O que lá se diz, no fundo, é que sempre que nos dirigimos às pessoas das Escrituras, do Livro, é preciso fazê-lo com grande cortesia e dizer-lhes que o nosso Deus é o mesmo e que acreditamos no que nos foi revelado e no que lhes foi revelado.

O Islão insiste muito na relação com o outro, com as outras religiões e com a troca de ideias. No que se refere diretamente ao meu país, o diálogo foi sempre uma constante. Recordam-se, certamente, da primeira visita – até então nunca realizada – de um soberano muçulmano, Chefe dos Crentes ao Vaticano, Hassan II, em 1980. E, cinco anos depois, Sua Santidade João Paulo II foi a Casablanca, para falar aos jovens de Marrocos. Foi a primeira visita de um Papa a terras muçulmanas.

Nessa altura, com o mundo em mudança, foi um sinal de que Marrocos estava a ser percursor e aberto ao outro. Esta tradição de diálogo e de abertura foi prosseguida por Sua Majestade Mohammed VI que, logo no primeiro ano do seu reinado, foi ao Vaticano e alegra-se agora em receber o Papa Francisco.

Também pela primeira vez na história, um Papa vai visitar uma escola de imãs…

Sim, temos em Marrocos um instituto de formação de imãs, que realiza um trabalho extraordinário, quer diretamente no país, quer no prolongamento natural de Marrocos em África, junto dos países vizinhos e amigos. Acolhemos, em Marrocos, imensos imãs, ou futuros imãs, para partilhar com eles este islão de tolerância, de abertura e de diálogo. Será por isso extraordinário o encontro do Papa nesta escola, pois confirma, quer do lado da Igreja, quer do lado de Marrocos, que somos abertos, queremos o diálogo e que podemos aprender com os outros, com Sua Santidade, e partilhar experiências com ele. Vai ser extraordinário. E depois, a mensagem do Papa será divulgada através deste Instituto e também através dos pregadores e pregadoras marroquinos e africanos.

Sabemos que a presença dos cristãos em Marrocos é muito reduzida. Como comenta alguns protestos que denunciam a falta de liberdade religiosa para as minorias cristãs?

A liberdade de culto está garantida na Constituição. A lei suprema do país diz que o exercício do culto é uma liberdade constitucional e que cada um tem o direito de praticar livremente o seu culto. Além disso, Sua Majestade, que é o Chefe dos Crentes – não apenas dos muçulmanos, mas de todos os crentes que vivem no território marroquino – é quem garante o livre exercício do culto e é o protetor destas minorias. Assim, do ponto de vista institucional, esta liberdade está garantida em Marrocos. Como embaixador é o que posso dizer.

A liberdade está hoje garantida e você vai poder verificar isso mesmo quando for a Marrocos: que todos os cultos exercem, que as igrejas e sinagogas estão abertas de modo permanente e que as diferentes comunidades praticam livremente o seu culto.

Outro dos destaques desta visita será a situação dos migrantes que Marrocos acolhe – uma realidade que o Papa vai encontrar quando visitar o centro de acolhimento da Caritas Internacional.

Marrocos acolheu, em espírito de solidariedade, uma grande quantidade de migrantes que vieram para o nosso país porque queriam ir para a Europa. Alguns deles conseguiram, outros não e outros, infelizmente, morreram na travessia, o que é um drama terrível para a humanidade.

A maioria deles vem dos países subsarianos. Chegam e param em Marrocos em grandes quantidades. Como africanos que somos e em espírito de solidariedade, acolhemo-los como fazemos com o resto dos marroquinos, portanto, temos feito processos de regularização.

Neste momento há cerca de 50 mil migrantes africanos já regularizados em Marrocos, com bilhete de identidade, carta de residência, o que lhes permite trabalhar e ter acesso aos cuidados de saúde e à educação. É um esforço considerável do lado de Marrocos que ainda não terminou e para o qual procuramos soluções.

Quais são os principais desafios que Marrocos enfrenta hoje?

Os desafios são numerosos. Alguns, são de ordem interna, relacionados com a integração e a imigração, entre outros. Mas, sobretudo, é preciso assegurar uma boa educação, o acesso à saúde e ao trabalho. No fundo, queremos assegurar o crescimento económico para permitir o acesso ao trabalho e ao desenvolvimento. São estes os desafios intrínsecos a Marrocos.

Mas há outro tipo de desafios, ligados ao nosso enquadramento e ao contexto internacional, como são os desafios da segurança, da estabilidade, desafios ligados à religião, como combater todo o tipo de extremistas, combater o radicalismo e a instrumentalização da religião para outros fins e para desestabilizar um país. São estes os desafios externos que somos chamados a enfrentar. Neste sentido, a visita do Papa é muito importante e salutar.

[Notícia corrigida às 14h00]

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