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Papa lamenta abusos. “Calamidade gravíssima” e “abominação”

21 dez, 2018 - 12:38 • Aura Miguel , Filipe d'Avillez

Num discurso em que criticou fortemente quem se aproveita do seu estatuto na Igreja para abusar da confiança dos fiéis, Francisco não quis deixar de sublinhar os muitos padres fiéis, esquecidos pela imprensa, mas “sem os quais reinaria a escuridão”.

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O Papa Francisco lamentou novamente, esta sexta-feira, os abusos cometidos por membros da Igreja, apelidando-as de “calamidade gravíssima” e “abominação” e desafiou os abusadores a entregarem-se. "A quantos abusam de menores, gostaria de dizer: convertei-vos, entregai-vos à justiça humana e preparai-vos para a justiça divina".

Francisco deixou ainda claro que a Igreja “não poupará esforços fazendo tudo o que for necessário para entregar à justiça toda a pessoa que tenha cometido tais delitos”.

As palavras do Papa foram dirigidas aos membros da curia romana e Francisco, como tem sido seu hábito em anos anteriores, aproveitou o discurso para sublinhar as principais falhas da Igreja e para apresentar possíveis caminhos de melhoria.

No ano em que a Igreja voltou a ser assolada por uma grave crise de abusos, espoletada por revelações de que o agora ex-cardeal Theodore McCarrick tinha sido acusado de abusos de menores há vários anos e que recrutava e mantinha uma rede de seminaristas e sacerdotes com quem mantinha relações homossexuais, o Papa não quis deixar de falar sobre esse assunto, colocando o dedo na ferida.

“Existem homens consagrados, que abusam dos fracos, valendo-se do seu poder moral e de persuasão. Cometem abominações e continuam a exercer o seu ministério como se nada tivesse acontecido; não temem a Deus nem o seu juízo, mas apenas ser descobertos e desmascarados. Ministros, que dilaceram o corpo da Igreja, causando escândalos e desacreditando a missão salvífica da Igreja e os sacrifícios de muitos dos seus irmãos.”

Francisco criticou também a metodologia dos que procuram ganhar a confiança de famílias e jovens, apenas para abusar dela. “Entram, sem pestanejar, na rede de corrupção, atraiçoam Deus, os seus mandamentos, a própria vocação, a Igreja, o povo de Deus e a confiança dos pequeninos e dos seus familiares. Muitas vezes, por detrás daquela sua desmedida gentileza, impecável atividade e angélica fisionomia, despudoradamente esconde-se um lobo atroz, pronto a devorar as almas inocentes.”

Foi neste contexto que o Papa prometeu não poupar esforços para desmascarar todos os casos de abusos, acrescentando que “a Igreja não procurará jamais dissimular ou subestimar qualquer um destes casos”.

Francisco reconhece, porém, que nem sempre assim foi: “é inegável que no passado alguns responsáveis, por irreflexão, incredulidade, falta de preparação, inexperiência ou por superficialidade espiritual e humana, trataram muitos casos sem a devida seriedade e prontidão. Isto nunca mais deve acontecer. Esta é a opção e a decisão de toda a Igreja.”

Mas o Papa vai ainda mais longe e, para além de apontar as falhas da Igreja, pergunta até que ponto ela não será reflexo de uma corrupção social maior. “A Igreja, valendo-se também da ajuda dos peritos, questionar-se-á como proteger as crianças; como evitar tais calamidades, como tratar e reintegrar as vítimas; como reforçar a formação nos seminários. Procurar-se-á transformar os erros cometidos em oportunidades para erradicar este flagelo não só do corpo da Igreja, mas também do seio da sociedade. Com efeito, se esta calamidade gravíssima chegou a enredar alguns ministros consagrados, perguntamo-nos quão profunda poderá ser ela nas nossas sociedades e nas nossas famílias? Por isso, a Igreja não se limitará a curar-se, mas procurará enfrentar este mal que causa a morte lenta de tantas pessoas a nível moral, psicológico e humano”.

Agradecimento aos jornalistas e aos padres fiéis

Francisco aproveitou ainda o seu discurso para agradecer o trabalho dos jornalistas que têm revelado muitos destes casos. “Gostaria de agradecer sinceramente aos operadores dos media que foram honestos e objetivos e que procuraram desmascarar estes lobos e dar voz às vítimas. Mesmo que se tratasse de um único caso de abuso – que por si já constitui uma monstruosidade –, a Igreja pede que não seja silenciado, mas o tragam objetivamente à luz, porque o maior escândalo nesta matéria é o de encobrir a verdade.”

Mas nem tudo é mau, disse Francisco, que quis deixar claro que não se deve presumir que os abusadores constituam uma maioria ou sequer uma grande parte dos criminosos no seio da Igreja. “Penso de modo particular nos numerosos párocos que dia-a-dia dão bom exemplo ao povo de Deus, sacerdotes próximos das famílias, que conhecem o nome de todos e vivem a sua vida com simplicidade, fé, zelo, santidade e caridade. Pessoas esquecidas pelos media, mas sem as quais reinaria a escuridão.”

A Igreja, insiste o Papa, é Santa apesar dos pecados cometidos pelos seus membros. “A força de toda e qualquer instituição não reside em ser composta por homens perfeitos (isto é impossível), mas na sua vontade de se purificar continuamente; na sua capacidade de reconhecer humildemente os erros e corrigi-los; na aptidão para se levantar das quedas; reside em ver a luz do Natal que parte da manjedoura de Belém”.

“Todos os pecados, as quedas e o mal cometido por alguns filhos da Igreja não poderão jamais obscurecer a beleza do seu rosto; antes, são até a prova certa de que a sua força não se encontra em nós, mas está sobretudo em Cristo Jesus, Salvador do mundo e Luz do universo, que ama a Igreja e deu a sua vida por ela.”

“O Natal prova que os graves males cometidos por alguns não poderão jamais ofuscar todo o bem que a Igreja faz gratuitamente no mundo”, concluiu Francisco.

[Notícia atualizada às 15h17]

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