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Modificação genética de embriões. Onde pára o “Frankenstein chinês”?

03 dez, 2018 - 19:01 • Tiago Palma

Na segunda-feira, He Jiankui anunciava o nascimento de duas gémeas cujo genoma foi alterado. Seguiram-me críticas e investigações ao cientista já conhecido como “Frankenstein chinês”. A imprensa local adiantou a detenção. Mas Jiankui mantém-se em silêncio e paradeiro incerto.
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Foi uma semana alucinante para He Jiankui. Na passada segunda-feira, o cientista da Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul da China (SUSTech), em Shenzen, anunciava ao mundo que havia alterado o genoma de dois embriões humanos, por forma a torná-los resistentes à infeção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH).

Jiankui terá recorrido à técnica CRISPR/Cas9 durante os tratamentos de fertilidade de pelo menos sete casais, tendo uma das gravidezes, anunciava o cientista, sido bem sucedida: a das gémeas Lulu e Nana – que nasceram em novembro, “normais e saudáveis”, garantia.

Prontamente, a SUSTech distanciou-se do trabalho de He Jiankui, que é já apelidado de “Frankenstein chinês”, e ordenou a abertura de uma investigação ao cientista. “Podemos garantir que a investigação não foi conduzida neste hospital e que os bebés não nasceram aqui”, afirmou a porta-voz da SUSTech.

Logo depois, na terça-feira, a Comissão Nacional de Saúde da China anunciava que pretendia "investigar seriamente" as declarações de He Jiankui, condenando qualquer edição de genética em embriões, pois esta “viola a lei e a ética médica” do país.

Mesmo investigado, pela universidade e pelo Estado, mesmo acossado pelo comunidade cientifica internacional – que unanimemente declarou a experiência uma “monstruosidade” –, He Jiankui voltou ao assunto.

Na quarta-feira, Jiankui foi orador na segunda Cimeira sobre Edição do Genoma Humano, que decorreu em Hong Kong, e perante uma audiência repleta (onde se encontrava, por exemplo, Nobel da Medicina de 1975, David Baltimore), anunciava, dizendo-se “orgulhoso” do seu trabalho, outra “potencial gravidez” de um embrião geneticamente modificado.

O objetivo, reforçou então, não é criar bebés “mais inteligentes, mudar a cor dos olhos ou a aparência”, mas, sim, “curar uma doença” como o VIH.

No fim-de-semana, na imprensa local, circularam notícias de que o cientista fora detido, permanecendo em prisão domiciliária. Da parte de He Jiankui, nenhuma outra declaração se escutaria. E continua sem escutar.

Mas soube-se entretanto que a notícia da sua detenção era, afinal, falsa. Quem o garante é a Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul da China, citada pelo jornal "South China Morning Post", de Hong Kong. Mas o paradeiro do cientista é, por ora, incerto, e a mesma porta-voz recusou-a a adiantá-lo. “Se houver alguma informação, esta será atualizada pelos canais oficiais”, concluiu.

Em Portugal, o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) condenou esta segunda-feira o anúncio da modificação genética com embriões humanos, classificando-a como “eticamente inaceitável” e “moralmente irresponsável”, implicando riscos “imprevisíveis”.

“Embora não existindo prova científica suficiente e fiável de que o anúncio feito pelo investigador corresponda à efetiva concretização do que afirma ter sido realizado, a gravidade do propósito levou a comunidade científica internacional, através de instituições idóneas e respeitadas, a condenar os ‘resultados científicos’ e a essa condenação associa-se o Conselho”, refere o documento hoje divulgado pelo CNECV.

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