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D. António Marto já é cardeal

28 jun, 2018 - 15:40 • Filipe d'Avillez , Aura Miguel , Tiago Mendes

No consistório em que instituiu 14 novos cardeais, o Papa Francisco recordou-os da importância de verem o serviço aos pobres como a única honra pessoal que devem procurar.

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O Papa Francisco entregou esta quinta-feira as insígnias aos 14 clérigos que escolheu para se juntarem ao Colégio Cardinalício.

Entre estes está D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima, que assim se torna o primeiro bispo daquela diocese a receber este cargo, deixando Portugal com quatro cardeais vivos, dois dos quais ainda eleitores, o próprio D. António Marto e o Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente.

A cerimónia na Basílica de São Pedro começou com uma saudação em nome dos novos cardeais, feita pelo patriarca da Igreja Caldeia, Louis Sako, do Iraque, o único responsável por uma igreja católica oriental a receber o barrete cardinalício neste consistório.

O patriarca disse ao Papa que os novos cardeais têm noção de que o facto de serem feitos cardeais não é uma honra pessoal, mas sim um apelo ao serviço.

Foi precisamente nesse sentido que o Papa dirigiu as suas próprias palavras, comentando a passagem do Evangelho em que Jesus diz aos discípulos que a sua lógica não deve ser a do mundo, das intrigas e da busca do poder.

“Que adianta ganhar o mundo inteiro, se se fica corroído por dentro? Que adianta ganhar o mundo inteiro, se todos vivem prisioneiros de asfixiantes intrigas que secam e tornam estéril o coração e a missão? Nesta situação – como alguém observou –, poder-se-iam já vislumbrar as intrigas de palácio, mesmo nas cúrias eclesiásticas”, disse o Papa.

“‘Não deve ser assim entre vós’: é a resposta do Senhor, que constitui primariamente um convite e uma aposta para recuperar o que há de melhor nos discípulos e, assim, não se deixarem arruinar e prender por lógicas mundanas que afastam o olhar daquilo que é importante.”

Francisco insistiu com os novos cardeais que devem estar sempre disponíveis para os outros, sobretudo os que mais precisam. “A conversão dos nossos pecados, dos nossos egoísmos não é, nem será jamais, um fim em si mesma, mas visa principalmente crescer em fidelidade e disponibilidade para abraçar a missão; e isto de tal maneira que na hora da verdade, especialmente nos momentos difíceis dos nossos irmãos, estejamos claramente dispostos e disponíveis para acompanhar e acolher a todos e cada um e não nos transformemos em ótimos repelentes por termos vistas curtas ou, pior ainda, por estarmos pensando e discutindo entre nós quem será o mais importante.”

Entre os cristãos, avisou Francisco, o esquecimento do sentido de missão corrompe tudo o resto. “Quando nos esquecemos da missão, quando perdemos de vista o rosto concreto dos irmãos, a nossa vida fecha-se na busca dos próprios interesses e seguranças. E, assim, começam a crescer o ressentimento, a tristeza e a aversão. Pouco a pouco diminui o espaço para os outros, para a comunidade eclesial, para os pobres, para escutar a voz do Senhor.”

A mais alta condecoração

Ao contrário da lógica do mundo, não são as honras pessoais que dignificam o homem, conclui Francisco, e um cristão nunca deve olhar alguém de cima para baixo, exceto numa situação.

“Esta é a mais alta condecoração que podemos obter, a maior promoção que nos pode ser dada: servir Cristo no povo fiel de Deus, no faminto, no esquecido, no recluso, no doente, no toxicodependente, no abandonado, em pessoas concretas com as suas histórias e esperanças, com os seus anseios e deceções, com os seus sofrimentos e feridas. Só assim a autoridade do pastor terá o sabor do Evangelho e não será ‘como um bronze que soa ou um címbalo que retine’. Nenhum de nós se deve sentir ‘superior’ a outrem. Nenhum de nós deve olhar os outros de cima para baixo; só podemos olhar assim uma pessoa, quando a ajudamos a levantar-se.”

O Papa terminou o seu comentário ao Evangelho com um elogio à pobreza, retirado do Diário Espiritual do Papa João XXIII. "Nascido pobre, mas de gente honrada e humilde, sinto-me particularmente feliz por morrer pobre, tendo distribuído, segundo as várias exigências e circunstâncias da minha vida simples e modesta ao serviço dos pobres e da Santa Igreja que me alimentou, tudo o que me chegou às mãos – em medida, aliás, muito limitada – durante os anos do meu sacerdócio e do meu episcopado. Aparências de fartura encobriram, muitas vezes, espinhos ocultos de aflitiva pobreza que me impediram de dar sempre com toda a largueza que gostaria. Agradeço a Deus por esta graça da pobreza, de que fiz voto na minha juventude, pobreza de espírito, como Padre do Sagrado Coração, e pobreza real; e por me sustentar para nunca pedir nada, nem lugares, nem dinheiro, nem favores, nunca, nem para mim nem para os meus parentes ou amigos."

O novo cardeal D. António Marto tem 71 anos e é bispo de Leiria-Fátima desde 2006. Natural de Tronco, perto de Chaves, a sua nomeação para cardeal causou surpresa, uma vez que é a primeira vez que a sua diocese tem um bispo no colégio cardinalício, mas encaixa na lógica do Papa Francisco, que desde que foi eleito tem escolhido novos cardeais de locais inéditos, incluindo a Papua Nova Guiné e o Madagascar, entre outros.

Como é tradição, e para simbolizar a ligação à igreja de Roma de que o Papa é bispo, D. António Marto recebeu a responsabilidade de uma igreja naquela cidade. Neste caso trata-se da igreja de Santa Maria Sopra Minerva, uma das mais bonitas de Roma, bem no centro histórico. O facto de D. António ser bispo da diocese que inclui o Santuário de Fátima já tinha levado a especulações de que a sua igreja teria uma ligação à devoção mariana, o que se veio a confirmar.

[Notícia atualizada às 16h05]

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