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Vinte anos a ser a voz de um Papa

22 abr, 2014 • Aura Miguel

Joaquín Navarro-Valls foi director da sala de imprensa da Santa Sé durante 20 anos, sempre ao lado de João Paulo II. Duas décadas ao lado de um santo é uma experiência que deixa muitas marcas. 

Vinte anos a ser a voz de um Papa
Vinte anos a ser a voz de um Papa
No dia 16 de Outubro de 1978, Joaquín Navarro-Valls, correspondente em Roma do diário espanhol “ABC”, estava na Praça de São Pedro com outros vaticanistas. Viveu com emoção o anúncio do primeiro Papa polaco da história. Mas naquele dia, o jornalista espanhol (e médico psiquiatra de formação) estava longe de imaginar o que lhe viria a acontecer.

De facto, a sua vida mudou quando, alguns anos depois, em 1984, recebeu um telefonema: “Recordo-me muito bem. Um dia, recebi uma chamada telefónica no meu escritório de uma pessoa que me disse ‘você tem que vir almoçar com o Papa’. Naturalmente, para mim, foi uma grande surpresa. Fui e encontrei-me, frente a frente, com este homem que me queria ouvir sobre o que eu sabia, o que pensava e se tinha alguma ideia para melhorar o modo de comunicar. Não tanto de comunicá-lo a ele, mas de comunicar todos aqueles valores específicos da Igreja Católica e que a estrutura do Vaticano devia comunicar melhor.”

Navarro-Valls foi para casa pensar, até que, alguns dias mais tarde, chegou um novo telefonema: “Quando, pouco tempo depois, recebi a segunda chamada telefónica e me disseram ‘o Papa nomeou-o director da sala de imprensa da Santa Sé’, pode imaginar a minha inquietação e as dúvidas que eu tinha. Porque pensava que era uma enorme responsabilidade se fizessem aquilo que eu queria fazer e como eu achava que o Papa queria fazer. Por fim, aceitei, pensando que seria um encargo por um par de anos, mas, afinal, foi um pouco mais longo, porque acabou só no dia em que ele morreu, ou seja, mais de 20 anos depois.”

Navarro-Valls tem, por isso, muita coisa para contar. São mais de 20 anos ao lado de um homem notável, que introduziu grandes novidades no modo de ser Papa. O porta-voz de João Paulo II considera mesmo que aquele pontificado foi revolucionário, porque permitiu relacionar a Igreja com a modernidade.

“Penso, na verdade, que o pontificado de João Paulo II foi o primeiro pontificado da história da Igreja que entrou plenamente, com enorme audácia e vivacidade naquele conjunto de teorias e filosofias a que chamamos a modernidade. Ou seja, introduziu o pontificado na modernidade histórica. Por isso, em tantos momentos, o seu pontificado parecia revolucionário, que era uma coisa completamente nova; e é verdade! Ele estava-o realmente actualizando, no sentido histórico da expressão: o conteúdo daquilo que ele dizia que não mudava, mas o modo como o exprimia e o exemplo da sua própria vida era totalmente novo na história da Igreja”, considera 

João Paulo II, com as suas viagens pastorais, deu, por várias vezes, a volta ao mundo. Fez 104 viagens fora de Itália e com visitas muito variadas. Houve de tudo um pouco: desde a Polónia e Cuba, com forte pendor político, a Manila e a Jornadas Mundiais da Juventude com milhões de fiéis, mas não esqueceu pequenas comunidades, como as do Pólo Norte ou Azerbaijão.

“Recordo muito bem aquela viagem ao Azerbaijão, que muita gente na Cúria o desaconselhou a fazer, mas ele quis fazê-la. Como sabe, no Azerbaijão, na altura em que o Papa lá foi, em todo aquele imenso país, havia 122 católicos. Somente 122 católicos. E, mesmo assim, o Papa quis lá ir para se encontrar com esta pequena comunidade católica, não obstante ter sido três anos antes da sua morte e o Papa já ser idoso, doente e ter dificuldades em andar", diz o antigo jornalista.

“Recordo um pequeno episódio simpático: quando chegámos ao aeroporto de Azerbaijão, aproximei-me dele e disse ‘Santo Padre, parabéns’. E ele disse-me ‘parabéns, porquê? Você, normalmente, dá-me os parabéns no final de uma viagem e não no início’. E eu respondi ‘parabéns porque, agora, consigo aqui, o número dos católicos subiu para 123’. Ele fartou-se de rir com isto.”

O episódio é revelador da intensidade com que João Paulo II cumpria a sua missão de pastor universal, uma vez que o seu critério não dependia da quantidade de fiéis: “O critério era sempre o mesmo: cada pessoa em particular. Ou seja, quer fossem 120, como no Azerbaijão, ou milhões, noutro país qualquer, ele ia sempre. Penso que esta sua característica de, perante uma grande multidão, não olhar para a multidão como tal, mas para cada uma daquelas pessoas em particular, é aquilo que explica a experiência de muita gente que ainda hoje diz: ‘eu senti que ele estava mesmo a olhar para mim, para mim concretamente, e não para aquela enorme massa de duas ou três milhões de pessoas’. Isto é porque o seu critério era o valor humano e espiritual de cada pessoa”.

Óptimo sentido de humor
E, no dia-a-dia, como era trabalhar com João Paulo II? “Era estupendo. Porque uma característica do seu carácter era o óptimo sentido de humor que ele tinha. Humanamente falando, era uma pessoa muito simpática. Por isso, trabalhar com ele era uma delícia, mesmo quando havia problemas sérios da Igreja universal ou de um país, mesmo assim, havia sempre espaço para o bom humor quando se trabalhava com ele.”

O facto de João Paulo II ter sido um comunicador nato ajudava, claro: “Naturalmente. Ele era um grande comunicador, mas a expressão ‘João Paulo II grande comunicador’, que é verdadeira, pode levar ao engano, porque, normalmente, quando se diz que uma pessoa é boa comunicadora, falamos de uma pessoa que tem uma boa voz, que tem um estilo de comunicar eficaz. Mas eu penso que a sua virtude como comunicador não estava principalmente no seu modo de comunicar, mas no conteúdo daquilo que comunicava. Eram aquelas verdades que ele comunicava que convenciam as pessoas e que faziam dele uma pessoa muito ouvida e muito seguida em todo o mundo.”

Tanto que, no fim do pontificado, mesmo sem conseguir falar, o Papa continuava a comunicar: “Do meu ponto de vista, nos últimos anos da sua vida estava a escrever a encíclica mais bela do seu pontificado, ou seja, uma encíclica ainda mais bela porque não a escrevia com palavras, mas com a sua própria vida. E as pessoas viam isso, o que não o afastava as pessoas mas aproxima-se delas ainda mais.”

Mas a forma como o Papa se expôs no seu estado mais debilitado, não agradou a todos e mereceu críticas inclusivamente de dentro da Igreja: “Isso são os teóricos, não as pessoas que vivem a vida mas os teóricos da existência! Sabe que a experiência humana mais universal, aquela experiência que, mais tarde ou mais cedo, conhecemos ou havemos de conhecer é o sofrimento. E desta experiência humana tão universal ele estava a dar o sentido que também a dor, os limites físicos, o não conseguir andar ou até mesmo no fim não poder falar, tudo tinha um sentido, nada daquilo era absurdo, mas tinha um grande sentido. E isso era a grande mensagem que Deus lhe tinha confiado para os seus últimos anos de vida.”

Ski às escondidas
Ao longo de quase 27 anos de pontificado, muitas foram as peripécias, quebras de protocolo, episódios divertidos, até então, pouco habituais na vida de um Papa. Navarro-Valls teve o privilégio de os testemunhar na primeira pessoa: “Agora penso que se pode contar tudo, já passaram tantos anos. Havia dias em que ele precisava, pela enorme quantidade de trabalho e pelo cansaço, tirar um dia da semana em que não havia audiências nem compromissos. Então, na véspera à noite, escolhíamos um carro não blindado, nem com a matrícula do Vaticano e saíamos por uma porta lateral do Vaticano em direcção à montanha. Pode imaginar às 18h, num dia de trabalho, como é o trânsito romano em hora de ponta? Aquele carro parava em todos os semáforos vermelhos da cidade e eu, que ia sentado ao lado do condutor, dizia: ‘De certeza que nos descobrem!’. E no entanto ninguém nos descobriu”.

Ainda por cima, explica o antigo director da sala de imprensa, o Papa pouco fazia para se disfarçar: “Ia vestido de branco com uma capa negra por cima, que era a capa que ele conservava desde que era jovem padre na Polónia. E isso tapava-o um pouco. Íamos para uma pequena cabana, relativamente próxima de Roma. Dormíamos lá e, na manhã seguinte, depois das orações matinais e da missa, íamos para a montanha fazer ski durante algumas horas. Como pode imaginar, eram ocasiões magníficas para estar com ele, para o acompanhar, para rir muito com ele e, depois, regressávamos tendo assim conseguido repousar um pouquinho. Agora, com o passar dos anos, a única pena que tenho é a de não ter feito isto mais vezes com ele.”

O fascínio de João Paulo II passava também pela sua normalidade. Continuou a fazer ski e montanhismo como na Polónia, mandou construir uma piscina para praticar desporto, convidava amigos para tomar refeições com ele, no Vaticano: “Ele era completamente normal. No processo de beatificação, que são cinco volumes enormes com os testemunhos de todas as pessoas que foram chamadas a depor e a dizer algo sobre a sua vida, há uma daquele presidente da Checoslováquia que era o Vaclav Havel, que já morreu. Ele não era um cristão praticante, mas faz uma declaração muito interessante, muito bonita. E diz no fim: ‘Eu não sou especialista em santidade mas, se eu tiver que dizer como era a sua santidade, eu diria que ele era humanamente santo’. É uma expressão quase ambígua e, no entanto, penso que ele queria dizer que a santidade de João Paulo II era muito humana, era ver uma pessoa, nas suas circunstâncias de cada dia, fazer tudo perfeitamente bem; não fazer nada de extraordinário nem de estranho.”

Amigo de Portugal
É sabido que o Papa tinha uma relação especial com Portugal, que começou no dia do atentado, a 13 de Maio de 1981. Por causa disso, gostava de repetir que a sua vida tinha sido salva por milagre de Nossa Senhora de Fátima. Foi nesse contexto que João Paulo II visitou três vezes o santuário da Cova da Iria.

Mas a grande admiração por Portugal não ficava por aí: “Ele via Portugal como um grande país com uma grande história que ele conhecia perfeitamente porque tinha lido muito sobre Portugal. Depois, havia a particularidade de Nossa Senhora de Fátima e a certeza que ele tinha de que a Nossa Senhora de Fátima lhe tinha salvo a vida num atentado que, segundo a lógica da medicina, devia tê-lo morto e, no entanto, não aconteceu assim.”

“Por isso, das vezes em que ele veio a Portugal, sentia-se em sua casa: antes de mais, como um filho que vem agradecer a Nossa Senhora, à sua ‘mamã’, mas ao mesmo tempo a um país com uma grande história que ele conhecia bem e que apreciava muito, quer os lugares de Portugal, quer fora do âmbito geográfico do país: a sua presença em África, no extremo Oriente, etc. Tudo isso estava bem presente nele.”

20 anos ao lado de um santo
Uma vida ao lado de João Paulo II, vivida ao longo mais de 20 anos, é uma experiência difícil de definir? “Naturalmente uma experiência extraordinária, uma experiência fora do comum; mas muitas vezes digo a mim mesmo que ter vivido ao lado de um santo não foi só uma coisa bonita, foi também uma grande responsabilidade. É uma grande responsabilidade porque não podes deixar que, tudo aquilo que viste, que viveste e que ele comunicou, fique arrumado na tua vida. É um desafio permanente a viver isto na própria vida.”

Um desafio de que tipo? “Um desafio ético, um desafio moral, um desafio para se aproximar mais de Deus, ou seja, penso que não podemos dizer de ninguém, nem de coisa nenhuma, que ‘isto é bom’, se esta afirmação não nos mudar por dentro; e deve mudar-nos por dentro senão não acreditamos, de verdade, que isso era bom e isto, por maioria de razão, pode-se dizer de João Paulo II: se acreditas a sério que ele era santo, esta convicção deve-te mudar por dentro, no teu interior.”

É isto que, segundo Navarro-Valls, explica a emoção que se sentiu quando João Paulo II morreu: “Naturalmente. Dantes, na história da Igreja até há poucos séculos, os santos eram proclamados por aclamação popular; era o povo que determinava quem era santo. Nos últimos séculos, a Igreja exigiu um processo de beatificação e de canonização. Mas, se a antiga tradição da Igreja ainda hoje vigorasse, João Paulo II teria sido santo no dia a seguir à sua morte e não tantos anos depois.”

Agora, Joaquín Navarro-Valls, hoje com 77 anos, prepara-se para viver o grande momento da canonização “Vivo, como direi, sem nenhuma surpresa porque eu já tinha a certeza de que ele era santo. Às vezes, aqui em Itália, oiço dizer a algumas pessoas que ‘a Igreja faz de João Paulo II santo’. Mas eu digo: ‘Não, a Igreja não faz João Paulo II santo; a Igreja confirma e ratifica que a vida deste homem quando era vivo, era a vida de um santo’. Porque, afinal de contas, ou um santo o é enquanto é vivo, ou nunca o será. Por isso, não é que agora o faça um santo, simplesmente confirma e ratifica que a vida desta pessoa - quando era viva - era a vida de um santo. É com este espírito que estarei na Praça de São Pedro”.

“E até já posso adiantar o que decidi dizer nesse dia a João Paulo II na minha oração, durante a canonização. Vou-lhe dizer: ‘Obrigado João Paulo II pela obra-prima que fizeste da tua vida, com a ajuda de Deus. Mas fizeste-a com a tua vida!”. Penso que será essa a minha oração nesse dia.