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Não era dia de recordar um passado que divide

29 mar, 2012 • Filipe d’Avillez

Liturgia, leitura, pensamento e décadas a lutar por causas diametralmente opostas cruzaram-se num instante fotográfico que marca a viagem do Papa a Cuba.

Não era dia de recordar um passado que divide
A visita de Bento XVI a Cuba ficará sempre ligada às imagens do encontro com Fidel Castro. Quem vê as fotografias do Papa a agarrar a mão de Fidel com as suas duas, enquanto conversam calma e simpaticamente sobre os mais diversos assuntos, dificilmente compreenderá a dimensão do fosso ideológico que separa os dois homens.

De um lado, vestido com fato de treino preto, barba e cabeça descoberta, estava um dos mais antigos líderes comunistas ainda vivos, que se retirou da vida política em 2006, responsável directo pela ruína económica de um povo e pela instauração de um regime oficialmente ateu que perseguiu duramente a Igreja Católica.

Do outro, de roupa imaculadamente branca, o líder da maior religião do mundo, opositor do comunismo e do ateísmo, que dedicou grande parte da sua vida à defesa da doutrina católica e que aceitou, mais ou menos na mesma altura em que Fidel se retirava da vida pública, um cargo que tudo indica cumprirá até à morte e que não hesitou, até mesmo ontem, em criticar o falhanço do sistema comunista.

Sobretudo desde que se reformou, Fidel dedica grande parte do seu tempo à leitura e ao pensamento. Demonstrou-o esta quarta-feira quando perguntou ao Papa sobre um tema que lhe é particularmente caro - as mudanças litúrgicas. Fidel, que foi educado em escolas católicas, recorda-se de uma missa bem diferente daquela a que pôde assistir na televisão esta quarta-feira. E garantiu a Bento XVI que acompanhou a visita toda.

Fidel pediu livros ao Papa e o Sumo Pontífice disse que iria pensar em algo para enviar. Falaram da insuficiência da ciência para responder às grandes questões da vida e Bento XVI alertou para o perigo de uma visão do mundo sem Deus.

A dada altura, numa conversa aberta e franca, Fidel colocou uma pergunta. Afinal de contas, “o que é que um Papa faz?” perguntou.

O Papa respondeu. Falou das viagens e do seu ministério. Não retribuiu a pergunta. O que Fidel fez, enquanto ditador de Cuba, o Papa sabe-o bem. Está patente na pobreza do país, no atraso endémico, nas histórias dos estudantes católicos que gritavam "Viva Cristo Rei" antes de serem fuzilados por ordem do mesmo Che Guevara que ontem supervisionava a missa que teve lugar na Praça da Revolução.

Mas Bento XVI não falou de nada disso. À sua frente não estava um inimigo. Estava um homem que, como ele, tem 85 anos e está curvado pela idade e pelos anos ao serviço de uma causa. Ontem não era dia de recordar um passado que divide. Ontem era dia de dar as mãos.