Alemanha. Uma receita contra a AfD e outros populistas de extrema-direita

Os populistas de direita fazem sucesso na Alemanha e no resto da Europa. Um novo partido alemão de extrema-esquerda acredita ter descoberto o segredo para os destronar. A Renascença falou com o politólogo Frank Decker.

12 mar, 2024 - 08:30 • Guilherme Correia da Silva



Manifestação contra o partido de extrema-direita AfD em Berlim, 21 de janeiro de 2024. Foto: Filip Singer/EPA
Manifestação contra o partido de extrema-direita AfD em Berlim, 21 de janeiro de 2024. Foto: Filip Singer/EPA

Se quiser vestir as vestes de populista, siga estas indicações. Demora menos de 1 minuto.

Primeiro que tudo, insurja-se. Diga que "nós", o povo, trabalhamos, pagamos impostos altos, mas somos asfixiados. Segundo: aponte para as elites; diga que "eles", os privilegiados, não querem saber do nosso bem-estar, só olham para o próprio umbigo e para os interesses dos amigos. Terceiro, agite as águas ou incuta um pouco de medo: alegue que há "alguém" que nos quer roubar o salário, os benefícios, o estilo de vida. Se calhar, sugira que vem aí uma espécie de fim do mundo. Use frases do género "Querem acabar connosco!", "São todos corruptos, estão a sugar-nos o dinheiro" ou "disto é que eles não gostam que se fale!" Costuma resultar.

O populismo já foi bastante estudado. A fórmula no parágrafo acima baseia-se numa lista usada pelo investigador norte-americano James Fahey para identificar discursos populistas, tanto em políticos de esquerda como de direita.

O populismo é uma forma de fazer política usada há muito tempo, mas pode ser perigoso, segundo os politólogos: quando os populistas usam o termo "nós" para falar em nome de "toda a gente" estão a minar a democracia. Na Europa aumentam os seguidores, sobretudo, do populismo de direita.

"Estamos simplesmente num estado extremo de incerteza devido a várias crises que se sucederam rapidamente"

Porquê este sucesso? "Há desenvolvimentos que se têm vindo a acumular", resume o politólogo Frank Decker em entrevista à Renascença.

O século XXI começou com ataques terroristas; seguiram-se a crise financeira de 2007, a crise da dívida na zona euro, a chamada "crise dos refugiados", a pandemia de covid-19 e a guerra na Ucrânia. "Estamos simplesmente num estado extremo de incerteza devido a várias crises que se sucederam rapidamente". Num mundo cada vez mais interdependente, com muitas fronteiras abertas, "torna-se mais difícil para os Estados-nação manterem o controlo".

"E é esse o lema dos populistas de direita: recuperar o controlo", continua o professor da Universidade de Bona.

Extrema-esquerda combate extrema-direita

As eleições federais alemãs são já no próximo ano. A Alternativa para a Alemanha (AfD) está em segundo lugar nas intenções de voto, logo a seguir aos conservadores: um em cada cinco eleitores alemães pensa votar no partido de extrema-direita.

A AfD insurge-se contra os "comportamentos irresponsáveis" dos governantes, exige ao Estado que "volte a estar ao serviço dos cidadãos" e agita a bandeira da "cultura cristã ocidental", da língua e das tradições alemãs.

"Este Governo odeia a Alemanha", declarou Alice Weidel, co-líder da AfD, durante um debate no Parlamento federal, no final de janeiro. "O país está em chamas e este Governo de incapazes e ideólogos obstinados foi quem deflagrou o incêndio. Os trabalhadores oprimidos deste país estão a sair à rua. Agricultores, operários, pequenas e médias empresas, donos de restaurantes, comerciantes, transportadores. Continuam a protestar porque não aguentam mais, e a imprensa não fala disso".


Alice Weidel, co-líder do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD). Foto: Hannibal Hanschke/EPA
Alice Weidel, co-líder do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD). Foto: Hannibal Hanschke/EPA

Até eleitores de esquerda passaram a simpatizar com o partido de extrema-direita. Nas últimas eleições federais, em 2021, o partido Die Linke, de extrema-esquerda, perdeu dezenas de milhares de eleitores para a AfD, segundo estimativas do instituto alemão Infratest dimap. A tendência de perda de votos continua - por exemplo, nas últimas eleições estaduais em Hessen, em outubro de 2023.

Votar AfD é tido como uma forma de protesto - é um voto contra os chamados "partidos tradicionais", seja por causa do aumento do custo de vida e da pobreza na Alemanha, ou por causa da política externa, incluindo no que toca ao apoio de Berlim à Ucrânia depois da invasão russa.

"A melhor forma de contrariar o sucesso da AfD é com uma política que não desiluda as pessoas nem as ofenda"

Com o crescimento da AfD na mira, a deputada alemã Sahra Wagenknecht deixou o partido Die Linke e criou uma nova formação política, a Aliança Sahra Wagenknecht.

"A melhor forma de contrariar o sucesso da AfD é com uma política que não desiluda as pessoas nem as ofenda", disse Wagenknecht ao diário "Berliner Morgenpost". "Claro que espero que consigamos convencer muitos eleitores, incluindo da AfD", acrescentou.

Copy-paste da AfD?

À semelhança da AfD, a Aliança Sahra Wagenknecht promete lutar contra as desigualdades na Alemanha e critica as baixas reformas e a falta de apoios às famílias. Também há semelhanças com a AfD na política externa: o partido de Wagenknecht defende o apaziguamento em vez da guerra, em nome dos interesses alemães - é por isso que, como a AfD, é a favor de negociações com a Rússia para um cessar-fogo na Ucrânia.

Sobre a migração - um tema que, há quase dez anos, fez disparar a popularidade da extrema-direita com o seu discurso anti-migrantes - a Aliança Sahra Wagenknecht parece adotar uma posição ambígua, até conservadora. O programa do partido frisa que "a migração não é a solução para o problema da pobreza no mundo".


Sahra Wagenknecht, fundadora do partido Aliança Sahra Wagenknecht (BSW). Foto: Filip Singer/EPA
Sahra Wagenknecht, fundadora do partido Aliança Sahra Wagenknecht (BSW). Foto: Filip Singer/EPA

À primeira vista, a estratégia está a resultar: a Aliança Sahra Wagenknecht cresce nas intenções de voto enquanto a AfD perde pontos, embora não seja possível ver nas sondagens se uma coisa está relacionada com a outra.

"Acredito que Wagenknecht possa ter sucesso, conquistando parte do eleitorado da AfD e possivelmente eleitores de esquerda", comenta o politólogo Frank Decker.

"Há, por exemplo, eleitores de centro-esquerda que não partilham algumas posições mais 'humanitárias' sobre o tema migração. Há também questões como o subsídio de desemprego, que o SPD [o partido do chanceler Olaf Scholz] subestimou, porque o subsídio não difere muito de um salário normal". A este propósito, os críticos chegaram até a perguntar se vale a pena trabalhar.

Uma fórmula contra o populismo

O SPD venceu as eleições federais em 2021 com 25,7% dos votos, mas nas últimas sondagens não vai além dos 16%. Os parceiros de coligação têm piores resultados: os Verdes oscilam entre os 12% e os 15%; os liberais (FDP) não conseguem mais do que 6%. Será possível a estes partidos combater o populismo? Ou até mesmo aos conservadores da CDU/CSU, que lideram as sondagens com 30%?

Há cinco anos, o politólogo alemão Timo Lochocki publicou um livro intitulado "A fórmula da confiança: Como a nossa democracia pode recuperar os seus eleitores". Lochocki escreveu que os "partidos tradicionais" são confrontados com um grande obstáculo: "encontrar respostas adequadas para desafios internacionais e comunicá-las de forma atraente para eleitores que sejam tanto contra como a favor da globalização", sem desconsiderar a cultura e a identidade nacionais.

Os "partidos tradicionais" não se podem dar ao luxo de ignorar estas questões, refere o professor Frank Decker, da Universidade de Bona. Ele deixa três conselhos:

1. Ouvir os eleitores. Se há problemas por resolver, é preciso reconhecer isso, sem filtros nem subterfúgios. O politólogo exemplifica: "É, de facto, um problema quando os refugiados são alojados em ginásios e esses ginásios deixam de estar disponíveis para aulas escolares. Isso não pode acontecer, e os partidos têm de sinalizar à população que têm isso sob controlo".

2. Copiar estratégias dos populistas não funciona. Estudos indicam que, "quando o discurso dos partidos tradicionais entra em 'território' dos populistas de direita, os populistas são quem sai mais beneficiado", menciona Decker. Sendo assim, cada partido teria de encontrar soluções "à medida" dos seus princípios e valores: "Os partidos de esquerda podem focar tópicos sociais. Na migração, por exemplo. Esta é uma questão que não tem a ver com migrantes contra nativos. Isto é algo que, no fundo, está relacionado com o fosso entre os mais ricos e os mais pobres".

3. Melhorar a comunicação. Apostar mais nas redes sociais, como faz a Alternativa para a Alemanha, que até tem um canal online de TV, além de centenas de milhares de seguidores na plataforma TikTok. Além disso, seria preciso perceber que, no discurso político, emoções não se "combatem" com lógica; emoções "combatem-se" com emoções, notam Timo Lochocki e Frank Decker. O foco dos populistas, explica Decker, tem sido uma "emocionalização" negativa que alimenta medos e inseguranças. Porém, os chamados "partidos tradicionais" podem ripostar com mensagens positivas e mostrar que não vem aí o fim do mundo. "Nós ficamos com a impressão de que está tudo a ficar pior, mas não é verdade. Em diversos aspetos, vivemos num mundo melhor do que antigamente, com mais prosperidade", apesar de se manterem injustiças na distribuição da riqueza, conclui o professor.

Em junho, há eleições para o Parlamento Europeu. Acredita-se que os populistas de direita, eurocéticos, como a AfD, deem um salto significativo, a avaliar pelo crescimento destes movimentos em países como a Alemanha, França, Itália, Espanha ou Portugal. Os "partidos tradicionais" seriam empurrados para posições bastante menos cómodas.

O Conselho Europeu sobre Relações Internacionais, um centro de pesquisa, avisou no início do ano que "esta forte guinada à direita pode ter consequências significativas nas políticas europeias, que afetarão as escolhas na política externa", particularmente no combate às alterações climáticas. Por outro lado, a guerra na Europa persiste, tal como a incerteza socioeconómica.


Hitler disfarçado de membro da Afd inspira carro alegórico no Carnaval de Dusseldorf. Foto: Christopher Neundorf/EPA
Hitler disfarçado de membro da Afd inspira carro alegórico no Carnaval de Dusseldorf. Foto: Christopher Neundorf/EPA

O sucesso da AfD

A Alternativa para a Alemanha (AfD) foi criada em 2013. Começou como partido anti-euro. Queria provar que a ex-chanceler Angela Merkel estava errada quando disse que "não havia alternativa" ao apoio financeiro à Grécia durante a chamada "crise das dívidas". Nesse ano, a AfD quase entrou no Parlamento.

Depois, o partido focou-se no tema "migração". A Alemanha acolheu, em 2015, mais de um milhão de refugiados, muitos deles fugidos da guerra na Síria, e a AfD exigiu um travão. Nas eleições seguintes, o programa do partido referia que era necessário "pôr termo ao abuso maciço do direito de asilo". Declarava ainda que a "propagação do Islão" estava a ameaçar "grandemente" o Estado, a sociedade e o "sistema de valores" da Alemanha. À segunda tentativa, em 2017, a AfD entrou no Parlamento federal com 94 deputados (foi a terceira maior força).

Em 2023, a popularidade do partido voltou a crescer à medida que aumentava a insatisfação dos alemães por causa da vida mais cara ou da política migratória do governo - a maioria dos eleitores quer menos refugiados. Em janeiro, o consórcio de jornalistas Correctiv noticiou que membros da AfD participaram numa reunião, em Potsdam, onde teriam discutido um plano para expulsar imigrantes e "cidadãos não assimilados". Em reação, centenas de milhares de pessoas foram para as ruas protestar contra a AfD.

Atualmente, o partido de extrema-direita está em primeiro lugar nas sondagens para as eleições estaduais na Saxónia, Turíngia e Brandemburgo, agendadas para setembro. A AfD está a ser vigiada pelos serviços secretos alemães por suspeita de extremismo.


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