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Coronavírus, festas de verão e arraiais

"Isto parece um filme de terror". Pandemia deixa artistas de música popular portuguesa sem palco

24 abr, 2020 - 15:30 • Luís Aresta

Como o novo coronavírus virou o verão de pantanas e arrastou com ele os artistas. "Chegamos a um ponto em que o elástico não estica mais", assume Nel Monteiro. Preocupação é generalizada e não há luz ao fundo do túnel.

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Desta vez o caso é sério e o "Fico à Rasca", de Nel Monteiro, tem toda a razão de ser. Não por causa do "fio dental, no lugar de um biquini na praia de Carcavelos", com que o artista costuma arrancar sorrisos e aplausos cá e lá fora, mas por culpa do novo coronavírus.

Quando contactado pela Renascença, o compositor e cantor natural de Barrô, Resende - nesta vida de artista desde os anos 70 - apressa-se a desmentir que esteja "na miséria", como há dias leu numa revista à qual tinha dado uma entrevista. Mas, porque gosta "de falar com o coração e de dizer a verdade", sempre vai admitindo que "a coisa não está fácil" porque "chegamos a um ponto em que o elástico não estica mais".

O verão que se avizinha era uma aposta forte de Nel Monteiro, depois ter brilhado entre os "famosos" num programa da SIC em que o público-alvo não andará muito longe daquele que o aplaude nas festas populares.

"Não sou famoso, mas chamaram-me famoso e entrei nessa", justifica, para complementar que "estava a ter muita procura em relação aos outros anos; isto ia ser um ano maravilhoso e eu já estava a ver o filme à distância", confessa, entusiasmado, para logo a seguir reconhecer que, afinal, o filme mais parece "de terror" e que "isto não está bom", nem para ele nem para ninguém do mundo das artes.

Que o diga José Carlos Monteiro, que trabalha com vários artistas habituados a ter "vida de cigarra", cantando no verão e folgando no inverno, neste caso não por preguiça, mas por força da sazonalidade das festas em cidades, vilas e lugares do Portugal mais profundo.

"Vocês, jornalistas, conhecem-se todos uns aos outros. Na música é a mesma coisa e eu estou a ver toda a gente preocupada sem saber o que fazer", diz à Renascença o autor e produtor, com estúdio de gravação em Águeda.

"Isto é tudo malta que trabalha a recibo verde" ou que "nem descontos faz". José Carlos - a quem não costuma faltar trabalho - dá como certo que a crise acabará por lhe bater à porta.

"Se a malta não for para cima do palco este ano, também não vai gravar músicas novas", explica. Habituado ao sossego para juntar uns quantos sustenidos à clave de sol, José Carlos Monteiro confessa estar a conviver com um outro problema, este, com origem no confinamento social: "Tenho a mulher em casa, tenho os filhos em casa, isto é todos dias e está difícil um gajo concentrar-se para trabalhar", desabafa.

O "pé-de-meia" como último recurso

Passaram já algumas semanas desde que José Carlos recebeu Saul no seu estúdio. Saul, esse mesmo, o que, por exemplo, em setembro de 2012, subia ao palco da feira de São Mateus, em Elvas, para agitar as fãs com a "Fábrica de Chouriça", tema baseado numa ideia simples: juntamente com a namorada, por "Portugal a produzir, para sair da crise".

Com o país outra vez enlatado, sem palcos onde brilhar, Saúl olha agora para outra forma de resolver o problema. “Se isto se complicar, a solução é o pé-de-meia", afirma. O artista aproveita estes dias para preparar novas músicas e não exclui a possibilidade de regressar aos palcos inspirado pelo novo coronavírus.

O mesmo que inspirou Marcus para o refrão "sem abraço, sem carinho sem aperto de mão; não é desprezo, é apenas proteção". Rima e é verdade. Marcus, há mais de 30 anos radicado em Portugal, já percebeu que "este ano não há concertos para ninguém" e que terá que esperar por 2021 para subir ao palco com "Ritmo Quente" e outros sucessos da sua já longa carreira.

Não fora a Covid-19 e, por esta altura, já Marcus estaria a faturar nas festas e romarias. “Não é só a questão financeira", diz o cantor nascido na pequena cidade de Cornélio Procópio, no sul do Paraná, e que, como bom brasileiro, confessa sentir "a falta do convívio, daquele abraço de quem nos convida". Porque não consegue viver sem o calor do público, na antecâmara de um "verão triste" Marcus tem andado pelas redes sociais "fazendo uns diretos, para esse pessoal não esquecer que a gente existe".

O mesmo tenta fazer Amândio Cruz, que, no Facebook, se apresenta como "general manager" do "Grupo Music Fax", banda musical que habitualmente vive das festas que juntam à volta de mesas compridas, bifanas e canecos, centenas de emigrantes que, verão após verão, marcam o ponto nas praias de Mira e de Vagos. Este ano será diferente. “As câmaras municipais nem querem ouvir falar de festas; isto foi-me dito por um presidente de câmara", revela o empresário, admitindo que outra coisa não seria de esperar, face às atuais circunstâncias.

A banda que Amândio promove, junto das comissões de festas, é composta por oito elementos. “Não tenho solução para eles, da mesma forma que não tenho solução para mim; é o que me preocupa porque sei que eles vão passar por dificuldades", confessa, num tom de voz revelador de uma certa angústia, na expectativa de que a segurança social "dê uma ajuda".

Apesar de nas redes sociais prometer em parangonas "muitas novidades em breve", é certinho que este verão a "Fax" não vai comunicar em palco com os fãs. A última comunicação, que teve a assinatura do "general manager “Amândio Cruz, foi um pedido de moratória dirigido ao banco, para evitar o incumprimento do empréstimo que contraiu para investir na melhoria da banda. Amândio conclui, com pragmatismo, que "isto não vai ficar tudo bem".

Do mesmo se queixa António Pereira, no mundo da música o "Tozé Pisco", proprietário da "Audio Atlântico". Há vários anos que a empresa, com sede na Batalha, especializada na organização de todo o tipo de eventos musicais, vive dos bastidores da música popular e não só. Aquilo que Tó Zé e os colaboradores fazem é garantir que cantores, bailarinas e músicos brilhem no palco, com a agitação dos feixes de luz, e com os decibéis, mais do que suficientes para que a voz do artista e o som de baterias, órgãos e guitarras elétricas chegue bem aos ouvidos de todos e, se possível, se perpetue entre a orelha e a almofada, na ressaca da noite.

Mas, desta vez, microfones, mesas de som, luz e robótica de iluminação, "está tudo empilhado" a um canto, confessa com desalento. A crise deste verão já atinge diretamente dez trabalhadores na empresa de Tozé Pisco, mas "no total serão umas 40 pessoas afetadas", admite o empresário, perante um prejuízo estimado de 250 mil euros. A "Audio Atlântico" tenta evitar o naufrágio apesar de, como reconhece Amândio, os profissionais da luz e som serem os últimos para quem alguém olha. "Somos como o Titanic a afundar; para os últimos já não há bote", resume para definir o momento por que o setor está a passar.

É preciso ir longe, para encontrar otimismo

Foi ao volante de uma viatura que a Renascença apanhou Sérgio Rossi, em plena estrada, com o sol como horizonte, nos arredores de Melbourne, na Austrália. Para o afilhado de batismo (e sobrinho) de Ágata, intérprete de temas como "Filho do Patrão" ou "És perigosa", esta quarta passagem pelo continente australiano tem sido tudo menos o planeado.

“Cheguei aqui no dia 11 de março e acabei por fazer um único concerto em Sidney, já são cinco semanas nisto; se não fosse os amigos que aqui tenho, que são como uma família e têm sido o meu chão, estaria aqui perdido", confessa o autor e cantor, desagradado com o facto de ter ouvido um governante português afirmar que o Governo não é uma agência de viagens.

Surpreendido pelas medidas de confinamento decretadas pelo executivo australiano, quando se encontrava a 18 mil quilómetros de distância da sua terra natal, Lisboa, Sérgio Rossi afina o discurso por um diapasão diferente dos restantes. “Não imagino Portugal sem festas de verão", sublinha, impulsionado talvez pela atmosfera que já se respira na Austrália, de tal forma arejada, que o "primeiro-ministro anunciou a intenção de reabrir na próxima segunda-feira Bondi Beach" a praia mais popular dos arredores de Sidney.

Com efeito, a Austrália está no mapa dos países que melhor têm lidado com o novo coronavírus, com 67 mortes e 6547 infetados, de acordo com os dados da Universidade Johns Hopkins, de 23 de abril.

"Quero pensar em tudo isto de forma positiva", acentua Sérgio Rossi a partir de Melbourne. "Este tempo aqui tem sido útil para manter a inspiração, para criar, para trocar ideias à distância" com Ricardo Landum, com quem prepara o seu próximo trabalho discográfico.

"Acho que, mesmo à distância, vamos concluir o álbum com novos temas de sucesso", afirma o artista, bem-disposto. Não se julgue, porém, que Sérgio Rossi é imune ao que se passa no país dos emigrantes e das festas.

"Tenho mais de cem concertos por ano e 18 pessoas a trabalhar comigo na estrada, a viver exclusivamente disto e a sustentar todo o ano com aquilo que ganhamos no verão; é claro que estou preocupado com essas pessoas". Ainda bem que assim é, porque quando, daqui a uns dias aterrar em Lisboa, Sérgio Rossi é bem capaz de ter de aceitar que, afinal, há um Portugal sem festas de verão.

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  • Miguel
    24 abr, 2020 Setúbal 19:18
    Artistas? Pessoas ignorantes a fingir que cantam para outras pessoas ignorantes? Vivem da brejeirice e da falta de nível. Pagos a peso de ouro por dizerem alarvidades sempre com os mesmos acordes. Lixo. Tudo o que fazem é lixo. São incapazes de ouvir a música que produzem. Isto diz tudo. Gente sem talento; parasitas desta sociedade.
  • jose
    24 abr, 2020 São Domingos de Rana 16:29
    Pois. Compreende-se. Este mesmo artigo pode ser escrito relativamente a muitas profissões. Espero que a maioria tenha uns pés de meia para se ir aguentando. Como todos os portugueses. O problema é que com nível de endividamento de empréstimos que os tugas estavam a contrair, com o governo a ajudar com o tal discurso do país das maravilhas, a maioria não terá guito para isso.

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