10 de Junho em Pedrogão Grande

Bombeiro Rui Rosinha. "Todos os dias tentamos transformar a dor em esperança. Nem sempre conseguimos"

10 jun, 2024 - 15:50 • Redação

Rui Rosinha, um bombeiro que ficou gravemente ferido nos incêndios de Pedrogão Grande, em 2017, evoca os que perderam a vida ou foram afetados pela tragédia e critica os responsáveis políticos: "Muito se falou e prometeu, mas pouco chegou ao território". Leia ou oiça na íntegra o discurso feito durante as comemorações do 10 de junho, que este ano tiveram lugar em Pedrogão Grande.

A+ / A-
Bombeiro Rui Rosinha. "Todos os dias tentamos transformar a dor em esperança. Nem sempre conseguimos"
Oiça o discurso na íntegra.

"Excelentíssimo Senhor Presidente da República Portuguesa, Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, cumprimento todos os ilustres presentes nesta cerimónia na sua distinta pessoa.

Aproveito esta oportunidade para expressar o meu profundo agradecimento a Vossa Excelência pela honra de me ter convidado a discursar neste prestigiado palanque, representando a região que tanto amo e onde estão as minhas raízes.

Para quem não me conhece, sou Rui Rosinha, tenho 46 anos, sou casado com Marina Rodrigues e pai do António e do Francisco.

Fui um dos bombeiros feridos no trágico incêndio de 17 de Junho de 2017, quando tinha 39 anos. Sou aposentado e era funcionário do município de Castanheira de Pêra.

Desde tenra idade frequentava o quartel dos bombeiros, com o meu falecido pai, e naturalmente segui os seus passos, tornando-me bombeiro voluntário em 29 de Março de 1993, na mesma associação e concelho onde ele também serviu por cerca de 50 anos.

Fui bombeiro até aos 43 anos, acumulando 26 anos, oito meses e dez dias no corpo ativo, tendo estado nos últimos três anos e meio desse tempo de baixa ao serviço, na esperança de voltar ao ativo. Infelizmente não me foi possível voltar.

Agora pertenço ao quadro de honra da Associação. Orgulhosamente filho desta região, sempre vivi em Castanheira de Pêra, onde cresci, trabalhei, casei e constitui família.

A tragédia expôs muitas das nossas vulnerabilidades, mas também destacou a nossa união e resiliência como nação

Se me arrependo de nunca ter deixado este território como muitos infelizmente tiveram de fazer. Sinceramente, não me arrependo. Hoje celebramos um dia de orgulho que nos lembra a grandiosidade da nossa história coletiva e da nossa rica cultura.

Ao comemorarmos o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas aqui, não podemos esquecer o recente passado desta região.

A tragédia do incêndio 17 de Junho de 2017, que devastou Pedrógão Grande, Castanheira de Pêra e Figueiró dos Vinhos, foi uma das maiores e mais mortíferas catástrofes de Portugal.

Perdemos vidas preciosas, amigos e familiares. Muitos ficaram feridos e as cicatrizes nas nossas terras e almas são profundas e irreparáveis. Com a proximidade do dia 17 de junho, data em que homenageamos quem partiu de forma tão heroica, hoje é importante recordar essas pessoas com o respeito e reverência que o Dia de Portugal nos oferece.

Não devemos esquecer os muitos feridos que sobreviveram e as suas famílias que necessitam de apoio contínuo para reconstruir as suas vidas, pois o processo de recuperação é doloroso, longo e, em muitos casos, interminável.

[Recorde a história de Rui Rosinha, contada pela Renascença no 5.º aniversário dos incêndios de Pedrógão]

Acredito que todos, não apenas as vítimas mortais, os feridos e suas famílias, quem perdeu os seus bens no incêndio, mas também todos aqueles que têm uma ligação emocional com este território, de uma maneira ou de outra, todos foram vítimas dessa tragédia, pois sentem este território como seu.

A tragédia expôs muitas das nossas vulnerabilidades, mas também destacou a nossa união e resiliência como nação.

Não devemos esquecer aqueles que bravamente combateram aquele inferno para salvar vidas e bens. Desses bravos houve um que fez jus ao derradeiro lema de um bombeiro: “Vida por vida”. Até sempre, Gonçalo [...]. Um dia falaremos.

Perdemos vidas preciosas, amigos e familiares. Muitos ficaram feridos e as cicatrizes nas nossas terras e almas são profundas e irreparáveis

Os militares das nossas Forças Armadas foram verdadeiros esteios de força, organização e profissionalismo, no meio do caos que se instalou no seio da nossa região. As nossas forças policiais, naqueles fatídicos dias, tanto sofreram também.

Foram naquela altura e continuam a ser um farol de segurança e proximidade com as nossas comunidades, aldeias e vilas.

Uma profunda palavra de agradecimento a todos quantos nos socorreram, tanto no território como depois nos hospitais, nos dias, meses e anos consequentes, pois as mazelas psicológicas e físicas permanecem bem vivas.

A região afetada mostrou ao mundo a força da solidariedade portuguesa. Vimos comunidades de todo o país e do mundo a unirem-se para ajudar. Muitos ofereceram o seu tempo e recursos.

Uma nação inteira chorou e ajudou na reconstrução. Muito se falou e prometeu, mas pouco chegou ao território. A burocracia é pesada e demorada. Todos os dias tentamos transformar a dor em esperança. Nem sempre conseguimos.

O caminho para a recuperação tem sido bastante difícil. Mas como beirões resilientes que somos, continuamos a tentar, pelos que partiram e pelos que ficaram, principalmente para as futuras gerações.

Devemos pugnar para que a região afetada não apenas se recupere, mas se fortaleça, com infraestruturas mais seguras, serviços de emergência mais musculados e políticas ambientais e florestais [que] previnam futuras tragédias, já que as alterações climáticas são uma realidade diária. É essencial investir em atividades económicas sustentáveis que garantam um futuro próspero e, principalmente, digno para os habitantes da região.

Para nós que aqui vivemos, para aqueles que aqui se desejem estabelecer, investir ou simplesmente fazer turismo, há problemas estruturantes que precisam de ser urgentemente resolvidos ou drasticamente minimizados.

Durante o dia, quando há um médico disponível no centro de saúde, já é motivo de satisfação para a população. Se precisar de ir com o meu filho ao médico durante a noite, como tantas vezes já aconteceu, não tenho resposta, nem no meu concelho nem nos concelhos vizinhos.

Quem quer constituir família, ou vir a constituí-la, esta falta de resposta pesa na escolha desta região para viver ou fixar-se definitivamente nos transportes públicos. Apesar de ter havido um esforço recente, a oferta na região é pouca e muito seletiva

Quem necessita, por exemplo, de ir ao hospital de Coimbra a uma consulta ou fazer exames ou tratamentos, não tem um só autocarro, para não mencionar outros constrangimentos.

Nas vias de comunicação, onde finalmente e depois de muita reivindicação, há pouco tempo, tivemos boas notícias, pois foi aprovada na Assembleia da República a eliminação do pagamento da [ex-] SCUT A13.

Há problemas estruturantes que precisam de ser urgentemente resolvidos ou drasticamente minimizados

O Itinerário Complementar IC8, que rasga a nossa região, terá que ser revisto urgentemente, pois é uma via extremamente perigosa, onde há acidentes quase diariamente, infelizmente muitos deles mortais.

As telecomunicações na nossa região que falham constantemente e continuam a ter as famosas zonas sombra, situação que tanta celeuma deu aquando do incêndio e continua a dar até aos dias de hoje.

Na área da educação, os nossos jovens são seriamente prejudicados, pois as ofertas escolares da região são limitadas e desadequadas do contexto regional e nacional.

A famigerada criação de emprego ou falta dele, principalmente para os mais jovens, que na nossa região tem sido uma luta árdua e constante desde a década de 80. Terá que haver um real reforço em políticas de emprego que sejam positivamente diferenciadoras nestes territórios.

Neste Dia de Portugal, aproveitamos o foco desta celebração para, na presença do Governo e representantes da oposição, apelar a um compromisso sério com estes territórios de baixa densidade.

Queremos uma séria e verdadeira coesão territorial, social e estrutural, e não apenas medidas em papel, sem concretização efetiva.

Apesar de todos estes problemas e dificuldades, que poderiam facilmente nos levar a desistir e abandonar esta região, continuamos aqui, resistindo estoicamente e com grande determinação, para transformar este território, tornando-o mais atraente, justo, seguro e, sobretudo, coeso.

O ideal para todos nós, os que desejam ficar e lutar por estas terras é pensarmos positivo e mantermos a confiança para que quem nos olhe de fora acredite e reconheça que estes territórios são terras de oportunidades e de gente capaz.

Queremos uma séria e verdadeira coesão territorial, social e estrutural, e não apenas medidas em papel, sem concretização efetiva

Todos somos poucos para inverter esta tendência. Pedroguenses, castanheirenses, figueirenses, autarcas dos nossos municípios, associações e entidades concelhias, forças vivas e, principalmente, os nossos jovens.

Só unidos, coesos e plenos de vontade conseguiremos que o nosso interior fique mais perto do litoral. Haja força, coragem, empreendedorismo. Porque se não acreditarmos em nós e nas nossas potencialidades, quem é que acreditará?

Como otimista que procuro ser, aspiro por um Portugal onde todos os cidadãos, independentemente do seu local de residência, possam viver com dignidade, segurança, esperança e sem discriminação negativa.

Que todos os portugueses, tanto os que vivem em Portugal quanto os da diáspora, aprendam com o passado, se unam no presente e trabalhem juntos por um futuro onde a segurança, a prosperidade e o bem-estar seja uma realidade para todos.

A memória daqueles que perderam a vida em 17 de junho de 2017 permanecerá para sempre nos nossos corações. Em sua homenagem, devemos obrigatoriamente continuar a lutar por um país mais forte e resiliente. Que o espírito de solidariedade, união e justiça nos guie rumo a um futuro melhor para todos. Viva Portugal!"

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

Destaques V+